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“VIDAS ENTRELAÇADAS” – Antologia de poucas histórias

Em filmes de Robert Altman (“Short cuts” e “Assassinato em Gosford Park“), Alejandro G. Iñárritu (“Babel” e “Amores brutos“) e de outros autores, a narrativa é construída com base em um mosaico de tramas que se cruzam a partir de elementos em comum. A mesma abordagem estrutura VIDAS ENTRELAÇADAS e os núcleos de três mulheres diferentes que se encontram em Paris, propondo uma antologia centrada na conexão feminina em momentos de grande dificuldade. Entretanto, o resultado não é um conjunto de histórias devidamente entrelaçadas nem um único arco narrativo bem resolvido para a protagonista.

(© Synapse / Divulgação)

Na agitação da Semana de Moda de Paris, a cineasta Maxine apresenta seu filme de terror sobre uma vampira antes do desfile enquanto descobre um câncer de mama. Em paralelo, Ada deixa sua vida no Sudão do Sul após receber um convite para começar uma carreira de modelo. Ao mesmo tempo, Angèle é uma maquiadora que trabalha nos bastidores das famosas passarelas, mas tem como sonho se tornar escritora. Ao longo do evento, as três personagens lidam com seus próprios conflitos e a sensação de isolamento evocada pela distância de ambientes familiares.

O núcleo principal gira em torno de Maxine, que filma produções de terror e baixo orçamento nos EUA até ser convidada para abrir os desfiles de uma nova marca na França com um de seus filmes. O grande choque ocorre quando exames de rotina aparentemente comuns revelam o câncer de mama. A princípio, o conflito se estabelece entre a necessidade de cuidar da saúde e finalizar um projeto audiovisual. Existiria potencial para esse arco se a dificuldade de contar a notícia para outras pessoas e encontrar suporte emocional não fosse atrelada a dinâmicas insossas entre a protagonista e outros personagens. Angelina Jolie compõe Maxine sem excessos dramáticos nem grandes momentos a serem lembrados por muito tempo, porém depende de interações que não vão muito longe com o médico interpretado por Vincent Lindon e o diretor de fotografia vivido por Louis Garrel. Mesmo os dois atores sendo ótimos, a delicadeza do cirurgião e o interesse amoroso do companheiro de equipe não sustentam o núcleo.

Paralelamente, outras duas histórias se desenvolvem. Ada é uma estudante de Farmácia que, de repente, está inserida no mundo midiático do cinema e da moda. Ela tem dúvidas se deve seguir em uma vida que não parece ser a sua ou se deve priorizar a ajuda financeira para a família no Sudão do Sul. Enquanto isso, Angèle se desdobra entre vários trabalhos de maquiagem, tentando preservar o desejo de se tornar uma escritora e tendo que lidar com os insucessos das primeiras tentativas no universo da literatura. O arco de Ada é um pouco mais consistente, apesar de não se decidir entre abordar o estranhamento da jovem na nova profissão ou o passado familiar deixado no país de origem. Por isso, os conflitos parecem sempre muito contidos e sob controle demais. Já o arco de Angèle não recebe destaque o suficiente, pois a estrutura do conflito mal se estabelece e logo se encerra de forma anticlimática. Além disso, sua jornada é sufocada pelas aparições pontuais de uma funcionária que produz o vestido principal da Semana de Moda, que não é valorizada por tempo de tela como mais uma trama da antologia nem explora ao máximo uma condição de trabalho desgastante.

Se as três histórias forem colocadas lado a lado, é possível notar que elas se encontram em uma questão central: o deslocamento geográfico ou simbólico entre as três mulheres e um ambiente familiar onde se sintam amparadas. Trata-se de uma temática mais forte do que o contraste entre as performances públicas que devem projetar e suas situações pessoais ou a conexão feminina em torno de uma ajuda mútua. Isso ocorre porque Maxine está distante dos EUA e de sua família para receber apoio na luta contra a doença; Ada está longe dos familiares no Sudão do Sul e sofre com a falta de ajuda para lidar com as dificuldades de adaptação ao universo das modelos; e Angèle está afastada da atividade profissional que gostaria de fazer por sonho pessoal e não por necessidade financeira. Os demais temas estão aquém das premissas sugeridas, pois carecem de uma resposta emocional ou de uma ligação narrativa efetiva entre as personagens. Por exemplo, a angústia de Maxine perante os desentendimentos com a filha por telefone não tem muito calor humano e a transição entre os núcleos começa a partir da movimentação das figuras em cena e, depois, contenta-se com os cortes abruptos de um arco para outro.

Ao passo que a antologia se desenvolve, a diretora Alice Winocour confere mais valor ao texto do que a construção expressiva das imagens. No caso de Maxine, a diferença entre o trabalho com as filmagens e o cuidado da saúde depende mais da atuação de Angelina Jolie e de fatos do roteiro, deixando de lado o contraponto visual dos espaços que percorre. O único aspecto que, sutilmente, sai desse padrão limitador é o paralelismo entre as marcas feitas pelo médico na pele da cineasta doente e pela costureira em um manequim para a confecção do vestido. Para Angèle, os diálogos sobre a rotina de maquiagem e os esforços para começar a escrever entre ela e outros personagens próximos monopolizam a abordagem estética do núcleo. Quando algo distinto é tentado, o arco narrativo das três mulheres é sintetizado de forma frágil por uma narração em voice over da maquiadora. Já no caso de Ada, os elementos visuais aparecem com um pouco mais de destaque, embora não assumam um protagonismo considerável, como o espanto diante das festas das modelos e a dificuldade com um sapato de salto alto.

Vidas entrelaçadas” se propõe a ser um mosaico com três histórias de mulheres expostas a um mundo de escrutínio público e deslocamento de suas necessidades pessoais ou de uma ambiente acolhedor. No entanto, não basta criar subtramas que correm em paralelo para formar uma antologia efetiva. É preciso também fazer jus ao título em português e conectar as histórias e as vidas apresentadas. Ao longo de uma hora e quarenta minutos, a produção cria poucas sequências em que as três personagens centrais se encontram e mantêm diálogos de pouco impacto dramático. É o que se percebe, por exemplo, no clímax em que uma tempestade muito grande e a narração em voice over de Angèle tentam concluir as três jornadas em questão, amarrando às pressas o conflito da maquiadora ou deixando em suspensão o embate vivido por Ada. Como consequência, a antologia centraliza demais a narrativa na história de Maxine sem nem se dar conta de que o percurso da protagonista em relação à doença, às necessidades financeiras do trabalho ou a distância emocional da filha não envolvem os espectadores.