“VIRTUOSAS” – Virtude singular
Coesão e coerência são exemplos de virtudes essenciais em uma obra. VIRTUOSAS estabelece adequadamente os dois requisitos, mas é flagrante a sua inconsistência – que é um mal em si mesmo –, o que prejudica por completo a união entre o que o filme quer ser e o que ele efetivamente é.
Virgínia é uma empreendedora na orientação de mulheres quanto à feminilidade. Ícone das tradwives (esposas tradicionais, dedicadas ao lar e a valores como a subordinação ao marido), ela sorteia algumas interessadas para participar de um evento: um retiro durante alguns dias na sua companhia, no qual ensina tudo o que uma mulher virtuosa precisa saber.

Cíntia Domit Bittar dirige e escreve o roteiro do longa (junto da corroteirista Fernanda de Capua) preocupada em refletir o pensamento e o comportamento de parcela da sociedade brasileira contemporânea – em especial no Estado de Santa Catarina – do ponto de vista político, social e religioso. Trata-se de uma crítica a uma mescla entre esses três setores, do que resulta uma relação incestuosa entre política e religião, valores sociais ultrapassados e uma fé hipócrita. Virgínia (Bruna Linzmeyer) tem um interesse especial por Lorena (Juliana Lourenção), não deixando claro se é de cunho político (para que, aliando-se ao marido dela, possa ingressar nesse campo) ou sexual. No segundo caso, o erotismo do longa é decepcionante, uma vez que presente apenas para reforçar a hipocrisia daquelas pessoas – o que já estava claro pelo uso do vape, além de ser quase uma premissa –, sem desenvolvimento algum. O texto é bastante claro na exposição das ideias, ensinadas como norma, por Virgínia, de que o homem é o provedor e protetor, e a mulher, cuidadora. Não há espaço para sutilezas: na oração antes do jantar, Lorena trata do aborto, escancarando uma obsessão na ingerência de valores cristãos na esfera política, inclusive no momento mais inoportuno possível.
Dois terços do filme constituem uma sátira aos reacionários que defendem que o Brasil é um país cristão e que o papel das mulheres é exclusivamente doméstico, dentre outras bandeiras associadas. Mesmo ignorando suas metáforas óbvia – almôndegas simbolizando testículos, molho vermelho simbolizando menstruação (a união indissolúvel do masculino e do feminino) e um ramo em um guardanapo parecendo uma vulva –, que denotam pouca astúcia na mise en scène, subsiste um problema de literalidade em razão do qual o humor fica mal colocado, ou, mais precisamente, não se extrai de onde deveria. Uma boa sátira depende de ironia, sarcasmo, humor ácido, ambiguidade e/ou hipérboles; nada disso, todavia, existe em “Virtuosas” (salvo nos exercícios físicos), cujo microuniverso é plausível. A graça não está na crítica social, pois o retrato é fiel demais à realidade; ela está no quão mal essa crítica é feita, uma vez que despida das ferramentas inerentes ao gênero escolhido (além de pouco inteligente). Corroborando a inconsistência, aqui o filme parece um drama, ou talvez um suspense, dada a trilha musical de estranhamento (exceto pela canção “Mulher virtuosa”, uma espécie de forró gospel contrastando com todo o resto) – tudo, menos uma sátira bem construída.
Em determinado momento, porém, há um giro para o terror. A partir de uma lenda estapafúrdia, o longa muda o seu rumo, o que é um problema pelo simples fato de o relato de Gorete (Brisa Marques) ser idiota (e incoerente, e sem sentido etc.), mas se torna mais grave na medida em que condiciona o andamento da trama. Depois dessa cena, ocorrem revelações desinteressantes (previsíveis, inclusive) para afirmar que nada é o que parece. Se mantida a intenção cômica que caracteriza a sátira, talvez a ideia funcionasse (dada a estupidez da lenda da bruxa); após a transição, contudo, a comicidade continua sendo claramente acidental (afinal, são empregados artifícios típicos do terror, como um corpo dormindo que se levanta rapidamente, tentativas de jump scares na trilha musical etc.), há um humor fortuito. Exemplo disso é a cena em que Germina (Maria Galant) é encurralada por Virgínia: não apenas o local tem várias saídas possíveis como a ameaça é risível, pois Virgínia está munida de uma perigosa… embalagem de bala (não o projétil, mas o doce que se consome). A crítica social de “Virtuosas” é oportuna, mas a dissonância entre o que é almejado pelo longa e a sua execução disfuncional revela que sua única virtude reside nessa crítica.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

