“WICKED: PARTE II” – Receio do desalento
O primeiro ato do musical da Broadway “Wicked” foi adaptado para o filme “Wicked”, de 2024, com bastante fidelidade. São apresentadas as premissas daquele universo mágico, é mantida a estrutura narrativa e, por consequência, há um movimento da fantasia alegre para o lado sombrio de Oz. WICKED: PARTE II, adaptação do segundo ato, é uma produção certamente pensada para elevar a qualidade do antecessor. Mais ousada, modifica elementos textuais e adiciona canções. Porém, há um receio em relação ao tom que prejudica o resultado.
Depois de fugir em sua vassoura, Elphaba fica conhecida como a “Bruxa Má do Oeste”, enquanto Glinda assume o papel de “Bruxa Boa do Norte”. Elphaba está sozinha e é perseguida pela polícia – agora capitaneada por Fiyero -, mas isso não a impede de usar seus poderes para ajudar os animais, que continuam sendo perseguidos. Como poderá ela devolver a tranquilidade a todos os cidadãos de Oz?

O segundo ato da peça da Broadway prossegue no tom pessimista das últimas cenas do primeiro, o que reverbera no perfil das personagens após a elipse. Embora o Mágico (Jeff Goldblum) e a Madame Morrible (Michelle Yeoh) não mudem muito, o mesmo não se pode dizer do trio principal. Fiyero (Jonathan Bailey) agora tem senso crítico (vide o diálogo censurando Glinda), está mais sério e decidido em relação aos seus sentimentos. Elphaba (Cynthia Erivo) não demonstra a mesma insegurança e está decidida a resistir à opressão do sistema. Quem realmente brilha, porém, é Ariana Grande no papel de Glinda, dado que a personagem ganha dramaticidade. No primeiro filme, Glinda é o grande destaque no humor; agora, ela é um símbolo de otimismo em Oz, enquanto precisa ocultar a tristeza concernente à situação de Elphie. Seu conflito interno – o regozijo com a adoração versus a fidelidade à amiga – tem o potencial de levá-la a abraçar Elphaba tanto quanto apunhalá-la pelas costas. Outra personagem que se modifica é Nessa (Marissa Bode), refletindo a mencionada mudança de tom (comparativamente ao primeiro filme).
Enquanto musical, a parte 2 deixa a desejar, mesmo quando comparada com a parte 1. Nos minutos iniciais, há um pout-pourri das canções do primeiro longa que poderia servir de recordação, mas revelam uma obsessão em prestar um tributo desnecessário a elas. Às vezes, a ressignificação funciona (como quando Glinda canta “I’m not that girl”, ou na troca de “unlimited” para “I’m limited”), mas a retomada das melodias e/ou letras é flagrantemente forçada (o verso “we deserve each other”, em ritmo acelerado, perde completamente o encanto). Dentre as músicas novas, “No place like home” tem um significado relevante e dialoga com “O Mágico de Oz” (1939), mas brilha mais pela voz de Erivo do que pela construção do número pelo diretor, Jon M. Chu. Por sua vez, “The girl in the bubble”, embora permita expor o deslumbrante design de produção em seus incontáveis tons de rosa, é uma composição pueril e sem utilidade. Afinal, a subtrama da frustração de Glinda quanto aos seus poderes é completamente abandonada no script de Winnie Holzman e Dana Fox. Quanto às canções do musical original, “As long as you’re mine” tem a ousadia da sensualidade, mas não fascina, sendo exemplo de como as composições da segunda parte são inferiores. Isso, contudo, é agravado pela falta de criatividade de Chu em criar números envolventes, como de “The wizard and I” e “Dancing through life”, ambos do primeiro (aquela, pela variação de cenários; esta, pelas danças empolgantes), que, no geral, já não foi primoroso nesse quesito. Causa espanto que a parte 2 praticamente não tenha números com danças incluindo figurantes e, a bem da verdade, praticamente não tenha números com danças. As movimentações são ocasionalmente interessantes e os cenários, eventualmente belos, como em “Wonderful” (o uso das cores é exuberante), mas aquém do esperado. O filme depende mais das interpretações, que, de fato, são poderosas, do que em fatores extrapessoais: em “For good”, Erivo e Grande são nada menos que avassaladoras, mas o cenário desfocado é frustrante.
“Wicked” é uma obra concebida para explicar os antecedentes de “O Mágico de Oz”, dissolvendo a imagem de um mundo alegre. A segunda parte de sua adaptação cinematográfica não desconsidera o viés autocrático de Oz, pois demonstra a manipulação, geralmente midiática (a transmissão de voz, os cartazes caricatos de Elphaba, o uso de Glinda como distração etc.), bem como a opressão sistêmica aos animais. Seu texto é político e denuncia o pensamento maniqueísta daqueles que têm necessidade de encontrar vilões. Prevalece, assim, uma ideia governante pessimista. O diretor, todavia, não consegue criar uma atmosfera que traduza uma sensação repressora, faltando ao longa dramaticidade e tensão. Por exemplo, quando Boq (Ethan Slater) usa um machado em uma porta, ele não parece assustador; na cena de montagem paralela entre um casamento e uma descoberta, não há nada que estimule a apreensão no público. Sem coragem para abraçar o desalento (que é inerente ao segundo ato) e sem o brilho cativante do universo mágico (foco do primeiro ato, até seu plot twist), “Wicked: parte 2” não consegue emocionar, salvo, talvez, em seu desfecho. Entretanto, aguardar duas horas para a emoção chegar é decepcionante.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

