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“ZOOTOPIA 2” – Continuação fácil

Não é fácil fazer uma continuação que não seja a adaptação de um material pré-concebido. Isto é, a adaptação cinematográfica de uma série de livros em uma sequência de filmes é muito mais fácil do que fazer essa mesma sequência tendo por base apenas o longa anterior. Isso se torna ainda mais difícil quando a origem de tudo é uma história original. ZOOTOPIA 2 incorre no erro mais comum das continuações: o obstáculo da novidade.

Depois de salvarem a cidade uma vez, Judy e Nick se tornaram conhecidos e ingressaram na força policial. Seu novo caso envolve a possível presença de répteis na região, o que não se vê há muitos anos. O que explica esse aparecimento?

(© Disney / Divulgação)

Passaram-se nove anos desde “Zootopia: essa cidade é o bicho”. Enquanto Jared Bush e Byron Howard permaneceram na direção e no roteiro, Rich Moore não retornou para a continuação. Considerando que o maior trabalho de Howard na direção é “Detona Ralph” (além, é claro, do filme de 2016), dificilmente a sua ausência teria sido a causa da queda de nível de uma produção para a outra. “Zootopia 2” é um filme extremamente preguiçoso em seu texto, dada a cena do prólogo e, principalmente, a sua trama principal. O roteiro se apropria da estrutura comum das histórias de investigação, adaptando-a às idiossincrasias daquele universo, mas mantendo os plot points já conhecidos. Com isso, o fio condutor narrativo se torna previsível, ocorrendo o mesmo com o plot twist criado.

Ainda quanto ao roteiro, Judy (dublada novamente por Monica Iozzi, que faz um trabalho razoável) e Nick (dublado mais uma vez por Rodrigo Lombardi, cujo desempenho como dublador não é tão ruim quanto como ator) estão em uma suposta crise de parceria. O problema é que essa crise é imputada por outros, pois os dois, na maior parte do tempo, se entendem muito bem. É verdade que há um momento de ruptura entre eles, o que se espera diante da fricção natural na relação, estabelecida no primeiro longa, mas isso não significa que eles não dão certo como dupla, tanto é assim que a ruptura é resolvida por eles mesmos, sem ajuda externa. Trata-se, portanto, da criação artificial de uma subtrama, que não convence (tampouco o faz a solução elaborada para ela). O mesmo se dá com a alegoria que permeia o texto, referente ao processo de gentrificação urbana. A metáfora surge quando a trama é desvelada, mas é muito mal explorada.

Tudo em “Zootopia 2” é superficial. As personagens coadjuvantes, de maneira geral, são reduzidas a arquétipos unidimensionais: Patalberto é uma personagem clichê nas histórias de investigação, Gary é extremamente insosso (e a voz mansa de Danton Mello contribui para isso), o Castor Nibbles é reduzida à personagem irritante, mas de bom coração, e o Prefeito Cavalgante, se melhor aproveitado, sairia do estereótipo duplo que carrega. Um dos melhores momentos é a participação especial da preguiça Flecha, o que indica que, de fato, o que há de melhor é reciclado do primeiro filme.

A produção é repleta de referências, que vão do merchandising (quando Nick assiste ao streaming) a clássicos como “O silêncio dos inocentes” e “O iluminado”. A ideia faz sentido, sobretudo quando se considera que a obra nada mais é que uma fábula com inúmeros paralelos com a realidade, dos políticos corruptos aos podcasts obscuros. Havia, contudo, potencial para muito mais. Verifica-se ainda uma preocupação maior em apresentar cenas de ação do que expandir o universo criado em 2016. Em que pese à existência de elementos novos sobre a cidade – sua origem, locais como a Feira do Brejo -, é tudo aproveitado sem verticalidade, com poucos minutos para realmente exibir tais elementos. Por exemplo, há uma cena em um corredor, na qual é estabelecida uma premissa, que é seguida de uma cena em um bar. A segunda cena, que é bem mais interessante, é muito rápida e pouco aproveita a premissa da anterior.

Isso não significa, contudo, que “Zootopia 2” é um filme ruim. O longa é divertido, tem muita adrenalina e um humor leve. Seu erro está na timidez em relação às novidades e, por outro lado, na perda do “fato novo”. Se o filme de 2016 encanta pela criatividade e pela originalidade, sua continuação não tem esses fatores e não é ousado o suficiente para ir além. Fazer uma continuação é difícil, fácil é fazer uma continuação dentro de uma ampla margem de segurança.

Em tempo: o filme é apenas mais um que corrobora a conclusão inevitável de que o cinema, em especial mainstream, está cada vez mais carente de ousadia e inovação.