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“A MENSAGEIRA” – As mensagens

Em dado momento, a personagem Myriam afirma para uma cliente que as sessões de comunicação com os animais podem revelar mensagens nada definitivas, que oferecem mais perguntas do que respostas. Combinando todas as informações, seria possível encontrar algumas possibilidades de leitura. A cena diz respeito a um aspecto específico da trama, mas também pode resumir a experiência de A MENSAGEIRA. O drama argentino promove o encontro entre o mundano e o espiritual para discutir as perdas que todos enfrentam através de uma narrativa introspectiva, silenciosa e simbólica.

(© Filmes do Estação / Divulgação)

Nas estradas do interior da Argentina, Anika viaja com os avós Myriam e Roger. A menina tem o dom de se comunicar com os animais, vivos ou mortos. A habilidade é utilizada pelos adultos para sustentar a família em meio a um contexto de crise econômica e carência material. A cada nova consulta, o convívio entre a protagonista e seus familiares se desenvolve para informar mais sobre um lar itinerante que se depara constantemente com questões relativas à fé, inocência e ao luto.

Seria empobrecedor para a análise da obra impor uma explicação supostamente correta para os eventos, os subtextos e a encenação. Não seria mais frutífero dividir alguns pensamentos e sensações que decorrem da experiência audiovisual? Um primeiro ponto de atenção pode ser a dúvida se Anika, de fato, consegue falar com os animais graças a um dom transmitido pela linhagem materna. Em nenhum instante, a narrativa se preocupa em responder à questão. O diretor Iván Fund prefere a linha tênue da incerteza entre ser uma habilidade real, um golpe para o sustento da família, uma crença absorvida pela jovem ou uma ferramenta de integração do trio central. Outro tópico importante pode vir da percepção de que alguns paralelos são criados. A comunicação com os animais pode evocar alguma ligação entre os seres humanos e a natureza ou indícios da dificuldade humana de lidar com a morte.

Caso os espectadores se desviem um pouco da busca por respostas em relação à premissa, podem notar uma dualidade bastante expressiva que move grande parte do filme. Em algumas sequências, o apelo espiritual pode se sobressair, sobretudo quando Myriam lida com os clientes e as sessões são realizadas com os animais. Embora a abordagem visual seja pautada por um tom naturalista, a dimensão temática não abandona traços extramundanos. Em outras passagens, o cotidiano comum se impõe em uma espécie de road movie pelo interior da Argentina. No cerne de cada viagem pelas estradas rurais do país, percebe-se a inocência infantil de uma protagonista que, a despeito de qualquer dom incomum, vivencia etapas nada excepcionais da vida. É o que move, por exemplo, o interesse pelos dentes que caem e a chance de receber dinheiro da Fada do Dente; a curiosidade por revistas de humor ou do Walt Disney; e o desejo de ganhar um bicho de pelúcia em um parque de diversões.

Uma suposta mensagem que o filme poderia transmitir não precisa ser entendida racionalmente pelos eventos da trama. Isso porque não há um enredo tão evidente no conjunto das cenas nem uma estrutura tradicional baseada em conflitos aparentes e reviravoltas da história. Ao longo da narrativa, predomina um roteiro que se alterna entre tipos de sequências muito semelhantes, isto é, as consultas dos clientes para se sentirem bem com seus animais de estimação, a observação dos cenários por onde Anika, Myriam e Roger passam e a convivência dos personagens principais em situações corriqueiras do dia a dia. Quando um eventual conflito mais dramático se aproxima, não há uma descarga de energia intensa nem um embate declarado. Em seu lugar, a decupagem tem uma caráter silencioso, lacunar e contemplativo. As emoções estão adormecidas, contidas dentro daqueles corpos que parecem afetados pelos tempos mortos que se sucedem a cada novo ambiente visitado. E diante da possibilidade de uma guinada do roteiro para uma direção absolutamente distinta, como quando Anika encontra a mãe, a história mantém sua estrutura padrão sem revelar muitas informações a partir dos diálogos.

A melhor via para experimentar as propostas do drama pode ser mesmo uma relação sensorial com as imagens, como logo se percebe na concepção estética como um todo. O uso da fotografia em preto e branco dispensa qualquer tentativa de estetização plástica ou de criação de um estilo a ser apreciado por sua beleza. A paleta de cores parece começar como uma tradução visual da melancolia que se abate sobre os personagens e as locações vazias, sejam eles entristecidos por suas trajetórias de vida, sejam eles abandonados pela deterioração econômica da região. Em seguida, a iluminação parece sugar cada vez mais o contraste entre as cores, sugerindo, então, que as próprias emoções daqueles indivíduos podem ser drenadas até restar apenas um desânimo inevitável. Além disso, a fotografia também é construída pela articulação expressiva entre as diferentes escalas de planos. Um dos melhores exemplos é criado quando Iván Fund alterna entre planos abertos de estradas ou fazendas e closes ou primeiríssimos planos dos rostos de Anika, Myriam e Roger e dos semblantes de diferentes animais. Poderia ser esta uma forma encontrada pelo cineasta para traçar paralelos entre os seres humanos e a natureza?

Outro caminho possível para se relacionar com o filme pode se abrir se a postura do espectador for diferente da usual, como geralmente ocorre no cinema comercial. A atenção aos mínimos detalhes, a observação compenetrada e alheia a estímulos externos e a aceitação ocasional do tédio podem ser elementos cruciais para um encontro expressivo com os arcos narrativos dos personagens. Ao aceitar uma atitude contemplativa, o público pode observar que o dom de falar com os animais é o ponto de partida para debater as relações familiares de Anika, Myriam e Roger. O trio formado pelos atores Anika Bootz, Mara Bestelli e Marcelo Subiotto estabelece uma dinâmica que consegue dizer muito em meio aos silêncios e às lacunas. Os adultos exploram a menina em busca de dinheiro? É claro que pode ser uma leitura pertinente, assim como aquela que se interessa mais pela percepção de que a jovem encontra no avô a possibilidade de diversão (ouvir música no rádio da van e recolher um bicho de pelúcia de uma máquina no parque de diversões) e na avó as obrigações do dia a dia (“trabalhar” ao redor do país, aparecer em um programa de TV e cuidar da saúde com a nebulização à noite).

Mesmo que as possibilidades anteriores se apliquem (abrir-se a diferentes subtextos, reconhecer a dualidade dos núcleos, lidar com uma trama nada convencional, experimentar os impactos sensoriais da estética e assumir uma postura espectatorial menos comum), existe outra ainda que cabe para o caso de “A mensageira“. É realmente necessário que o filme tenha uma mensagem clara e unívoca a passar? Não poderia haver mais de uma ou até mesmo nenhuma se a experiência emocional prevalecer? É verdade que riscos podem advir dessas escolhas, principalmente os longos períodos de observação do ambiente enquanto os personagens são colocados de lado momentaneamente. Ainda assim, existe a chance de pensar que a obra também se dedica a uma espécie de metalinguagem por colocar em primeiro plano o trabalho de comunicação. Podem ser seres humanos que se comunicam com os animais. Podem ser seres humanos que têm dificuldade de se comunicarem entre si. Podem ser indivíduos que precisam de ajuda para demonstrar suas emoções (como na conversa entre Anika e Myriam sobre a mãe da menina). E pode ser um filme buscando os meios de se comunicar com seu público.