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“A MORTE DE ROBIN HOOD” – O revisionismo de uma lenda consagrada

Robin Hood é, provavelmente, a figura mais conhecida do folclore inglês. Adaptado para a literatura, para o teatro e para o cinema, tornou-se célebre como o fora-da-lei que “rouba dos ricos para dar aos pobres”. A MORTE DE ROBIN HOOD é um retrato revisionista dessa lenda, uma trama de redenção na qual o herói se afasta do perfil que o consagrou.

Querendo se afastar do seu passado criminoso, Robin Hood segue a sua vida sobrevivendo às tentativas de vingança perpetradas pelos familiares das vítimas que assassinou. Em um último ataque praticado junto de seu acólito, o Pequeno John, ele acaba se ferindo gravemente, sendo levado para um priorado onde conhece uma mulher misteriosa que pode curá-lo para além da fisicalidade.

(© Imagem Filmes / Divulgação)

Escrito e dirigido por Michael Sarnoski, o longa demonstra um esmero maior na forma do que no conteúdo. Na fotografia, por exemplo, é usado o formato widescreen no primeiro ato, quando prevalecem as cenas de ação, sendo reduzida a razão de aspecto a partir do segundo, quando o foco repousa no drama psicológico do protagonista. Filmado em película em locações na Irlanda do Norte, o prólogo apresenta uma região inóspita: os figurinos são de cenários gélidos, há muita neblina e a vastidão das colinas transmite uma sensação de abandono e solidão. Em seguida, porém, o local onde impera a natureza é substituído por uma área de singelas construções humanas, em uma sequência de fotografia escura em virtude da noite, cujo âmbar do fogo se confunde com a névoa para elevar o horror das agressões. Não há perda na visibilidade; é possível ver bem a violência gráfica e o gore dos atos praticados por Robin Hood. A partir do segundo ato, contudo, cessam as cenas de ação e o protagonista é colocado em um cenário idílico que reúne um mar tranquilo, crianças brincando, a luz do sol cortando a neblina (no começo, as cenas deixam de ser noturnas) e bosques tranquilos. Se no ato inicial os ruídos preponderantes eram o sopro do vento, no segundo, são o chilrear dos pássaros e as risadas dos infantes. Esse contraste é também acompanhado pelas belíssimas composições folk de Jim Ghedi, cujas canções transportam o público para a Inglaterra do século XII.

Há uma preocupação grande em demonstrar os diferentes perfis de Robin Hood. Seu passado, revelado apenas pelo seu discurso (inclusive com um voice over desnecessário), reside na incivilidade de um homem alegadamente bárbaro. No presente, Hugh Jackman interpreta uma versão envelhecida e prestes a abandonar a vida de crimes. Simbolicamente, a maquiagem terrosa que faz seus olhos brilharem no breu noturno da sua “despedida” contrasta com o visual brando de um homem corpulento, mas fragilizado pela idade e pelas lesões sofridas (sem desconsiderar a voz cansada). Por outro lado, o prólogo concede ambiguidade a Robin Hood, na medida em que os atos dirigidos a uma menina demonstram algum grau de empatia e benevolência. No fundo, a vida o levou a encarar o mundo com pessimismo, o que não o impede de ter esperança por um futuro melhor, como ele mesmo sugere ao dar conselhos a Goodwyn (Noah Jupe).

O roteiro, entretanto, é bastante pobre em sua fórmula de história de redenção (sem olvidar o ritmo inconstante da narrativa). Incorporando elementos conhecidos da lenda de Robin Hood, geralmente o que faz é subvertê-los, como no caso de Guy de Gisbourne. Essa subversão, porém, acaba tendo pouco impacto na trama, que conta com uma narrativa cujas personagens secundárias – Goodwyn, Edward (Bill Skarsgård), Pequena Margaret (Faith Delaney) e Brigid (Jodie Comer) – são meras engrenagens de roteiro, sem profundidade alguma. Bridgid tem potencial, mas é subaproveitada para que o destaque fique na “nova” e previsível vida de Robin. Para uma trama de arrependimento e redenção, o filme pouco convence em relação aos traumas de seu protagonista, reduzindo até mesmo o grau de convencimento da sua motivação no desfecho. A ironia didaticamente exposta em um diálogo entre Robin e Brigid deixa claro que o filme é bem menos inteligente do que imagina, não passando de uma interpretação diferente – mas não melhor – de uma célebre lenda à qual nada consegue agregar.