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“A ÚNICA SAÍDA” – Sátira com outras saídas

Em 2005, o politizado diretor Costa-Gravas adaptou o livro “The Ax” de Donald E. Westlake no seu filme “O corte“. A história combinou thriller e comédia para criticar os efeitos do capitalismo sobre as subjetividades dos trabalhadores, que são colocados uns contra os outros em benefício do capital. Décadas depois, outra versão do mesmo livro foi criada por Park Chan-wook dentro de um contexto de intensificação das ferramentas de exploração e controle do capitalismo e de criação de novas estratégias. A ÚNICA SAÍDA satiriza o mesmo alvo, apesar de se ater a alguns elementos e deixar outros fragilizados enquanto a crítica não alcança o potencial de todos os caminhos abertos.

(© Mares Filmes / Divulgação)

O capitalismo não se preocupa com as condições dos trabalhadores. Man-Su viveu isso da pior forma: após vinte e cinco anos de trabalho como gerente na indústria de papel Solar Paper, ele foi demitido. Antes era bem pago e dividia uma vida de sonho com a esposa Lee Mi-ri, o enteado You Si-one e a filha You Ri-one em uma casa luxuosa. Com a demissão, Man-Su se vê desempregado por um longo tempo e aflito diante das perdas materiais que a família está tendo. Impossibilitado de prover os familiares como fazia, não enxerga outra solução a não ser eliminar a concorrência por uma vaga em outra empresa.

Na primeira dimensão da sátira, a obra apresenta um mundo de aparências erguido sob uma base frágil que pode ruir a qualquer instante. Park Chan-wook carrega na artificialidade e descreve o ambiente e as interações da família principal como se fossem um comercial idealizado da casa perfeita. A caracterização depende, sobretudo, das posses materiais: a residência é grande e aconchegante, o pai presenteia a esposa com uma sandália cara, a mulher joga tênis e os filhos têm acesso a serviços ou atividades custosas (aula de violoncelo para a menina e plataformas digitais de lazer para o jovem). Visual e cenicamente, o diretor demonstra essa característica a partir de um plano aberto em que um céu artificialmente lindo preenche os quatro personagens enquanto se abraçam e o patriarca comenta que “Ele tem tudo de que precisa”. Porém, os aspectos que podem fazer a perfeição desmoronar aparecem desde o princípio. Por exemplo, You Ri apenas fala para repetir frases ditas por outras pessoas e se recusa a tocar o violoncelo para os familiares e You Si parece distante do padrasto com quem não estabelece uma parceria paternal.

Quando a demissão acontece, a narrativa expõe as contradições do capitalismo neoliberal. Os cortes de pessoal na indústria são resultantes da compra por uma grande empresa estadunidense; as percepções dos chefes não coincidem com as dos trabalhadores, em termos de interesses financeiros e vocabulário para o fato; as organizações trabalhistas são enfraquecidas; e um discurso motivacional da pior espécie é transmitido para os desempregados. Passada a apresentação de tais pontos, o filme esvazia as questões políticas. É verdade que algumas metáforas aparecem aqui e ali (a dor de dente do protagonista) e o discurso motivacional é deturpado por Man-Su (a meritocracia transformada em estímulo para crimes), mas as críticas até então colocadas não surgem mais na forma nem no conteúdo. Ao invés disso, Park Chan-wook se concentra em excesso em uma comédia de erros para encenar os planos de execução da concorrência, lembrando o estilo dos irmãos Coen. O homem não é capaz de matar alguém sem cometer falhas graves, de evitar a aproximação de policiais e de contornar imprevistos durante a ação. A ideia é repetida constantemente sem que a discussão sobre o capitalismo seja levada para outros caminhos.

A única ressalva que quase poderia ser feita diz respeito aos reflexos entre Man-Su e as suas vítimas. Ao vigiar Gu Bum-mo, ele incorpora as preocupações em relação ao adultério da própria esposa e chega a reproduzir as mesmas falas. No plano para matar Ko Si-jo, a estratégia para lidar com o adversário inclui dividir com ele angústias verdadeiras em relação à filha e às despesas materiais para as aulas de música. E a aproximação junto a Choi Seon-chul faz com que um seja o espelho do outro no que se refere à ambição por um cargo de valor. Todos os paralelos são trabalhados em uma linha tênue entre a ideia de que seriam traços já existentes no protagonista, que se manifestaram naquelas circunstâncias excepcionais, ou seriam aspectos absorvidos de indivíduos na mesma situação social estabelecida pelas consequências do desemprego. De qualquer modo, é uma possibilidade para a dramaturgia que não passa de coadjuvante porque aparece durante pouco tempo ou está pouco integrada à encenação, à exceção da sequência de discussão em meio a uma música alta no primeiro crime.

Por outro lado, o filme se sai melhor ao abordar a desestruturação da imagem de família perfeita. Os primeiros sinais podem ser discretos, como a informação de que o protagonista já teve problemas com o vício em bebida. Outros indícios são ainda mais graves e explícitos, como as agressões do homem sobre o enteado e a confrontação violenta da esposa quanto a uma suspeita de traição. Acima de tudo, os crimes são os principais responsáveis pela crise dessa ilusão porque afetam os indivíduos em si e as relações entre eles. Os resultados das ações criminosas de Man-su são levados para dentro do terreno da moradia e expõe os demais aos riscos da sua revelação. You Si-one se envolve em atividades ilícitas para ajudar no pagamento dos altos custos da vida de classe média, mas sugere também a busca por mais adrenalina em uma rotina privilegiada. A própria interação entre padrasto e enteado melhorar após o incidente com o jovem. Já Lee aceita ser cúmplice do marido quando percebe os crimes cometidos, dando a entender que deseja o retorno de um modelo patriarcal de família no qual não precisa trabalhar fora de casa e tem tempo para seus hobbies.

Park Chan-wook quebra a imagem inicial da família através de escolhas formais que se tornam mais nítidas com o passar do tempo. O diretor insinua que os personagens podem estar expostos à vigilância alheia sempre que eles estão próximos a uma tela de celular ou outra superfície reflexiva, por exemplo quando o casal se comunica por meio de chamadas de vídeo ou os familiares são vistos a partir do vidro de janelas. No decorrer da narrativa, a encenação se apoia em imagens estilizadas que destacam a profundidade de campo e as transições visuais entre as cenas. Em todos os casos, os recursos começam com a ideia de que os personagens estão em níveis hierárquicos distintos por conta da situação em que estão, e por um jogo de escalas. É assim quando You Si-one, deitado, tem um pesadelo em que observa o padrasto do alto entre as plantas da estufa. Em seguida, a ideia se transforma na percepção de que os familiares estão, na verdade, na mesma condição degradada moralmente em função dos crimes. A cena que mais simboliza esse aspecto é a sobreposição de imagens de Man-Su e Lee enquanto ambos estão cavando em locais diferentes.

A única saída” pode ser dividido em duas esferas: a sátira em relação ao capitalismo neoliberal na sua faceta de despreocupação com as condições de trabalho e o estudo da desmoralização crescente da imagem supostamente perfeita de uma família de comercial de TV. Diferentemente de seu título, o filme não apresenta uma única possibilidade para trabalhar as discussões temáticas, a dramaturgia e as decisões estilísticas. No entanto, fica a sensação de que o interesse muito maior está no desenvolvimento dramático de uma família que age de forma condenável em prol da recuperação de privilégios materiais, apesar de não reconhecer que isso compromete sua convivência. Nada mais sintomático que a conclusão traga os familiares isolados e distantes uns dos outros. Em contrapartida, a questão política se desenvolve a partir da tese de que o protagonista perde sua preocupação coletivista e prioriza os interesses egoístas por interferência das características do sistema econômico. Pode ser um arco compatível com a trama, porém fragilizado porque está presente no primeiro e terceiro ato e desaparecido em grande parte da obra.