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“A VOZ DE HIND RAJAB” – A tensão do real

Muitos filmes utilizam a frase “baseado em uma história real” para gerar efeitos óbvios e até apelativos nos espectadores. No terror, pode ser um recurso para tentar evocar mais medo diante da especulação se eventos sobrenaturais realmente acontecem. Em cinebiografias, pode ser uma tentativa de passar maior realismo em virtude da comparação entre os personagens reais e os atores ou dar um peso maior ao drama. Em A VOZ DE HIND RAJAB, a premissa parte de acontecimentos verídicos e se combina com técnicas ficcionais para não só denunciar o genocídio na Faixa de Gaza como também extrapolar os limites narrativos de representação do real.

(© Viviana Andriani / Divulgação)

Em uma noite no bairro de Tel Al-Hawa, os voluntários do Crescente Vermelho Palestino recebem uma chamada de emergência para resgatar Hind Rajab. Ela é palestina, tem seis anos, está presa em um carro, os familiares foram mortos pelo exército israelense e os ataques militares continuam ocorrendo ao seu redor. Os funcionários mantêm contato telefônico permanente com a criança, cuja voz pertence, de fato, a uma menina real que ficou presa sob o fogo cruzado da guerra na Faixa de Gaza. Todos os esforços são, então, realizados para coordenar uma operação de resgate correndo contra o tempo para levar o socorro a tempo.

Não é difícil se chocar com o noticiário sobre as guerras no Oriente Médio, sobretudo o genocídio praticado por Israel contra os palestinos. As imagens de cidades destruídas e de cadáveres se multiplicam. Sob a justificativa de perseguir terroristas, o exército israelense bombardeia, faz incursões sobre o território e faz uma série de vítimas, entre elas mulheres e crianças. Tais informações contemporâneas são cruciais para perceber o impacto da principal escolha da diretora Kaouther Ben Hania: utilizar as gravações reais das falas de Hind Rajab durante as chamadas telefônicas com a equipe de resgate. Do ponto de vista visual, o material gravado é exibido a partir das ondas sonoras em uma tela azul, que chama a atenção para sua natureza própria e distinta das imagens dramatizadas. Em relação ao conteúdo, a angústia vem tanto do tom de voz infantil e desesperado da criança quanto das situações em que está submetida (a proximidade dos tanques, os sons de tiros, os familiares mortos ao seu redor, a escuridão do cair da noite, a queda das ligações…). Todos os momentos em que se escutam as gravações, a narrativa adquire um tom sufocante que confunde as barreiras entre real e ficcional.

Tais separações podem até existir com maior nitidez nos primeiros minutos quando a rotina e a interação entre os funcionários da Crescente Vermelho são enfocadas. As sequências iniciais ainda permitem algum frescor ao mostrá-los conversando sobre a vida pessoal, vendo algo no celular ou comentando sobre trabalhos anteriores. Em pouco tempo, entretanto, o pedido de resgate da menina faz com que a obra passe a dramatizar a operação em curso e os dilemas/conflitos entre os personagens. Predominam os embates entre o atendente Omar e o diretor Mahdi, já que o primeiro exige que o socorro seja feito o mais rápido possível independentemente do cumprimento dos protocolos necessários e o segundo se preocupa com a ordem formalizada das comunicações para garantir uma rota segura para os socorristas. Por vezes, a oposição entre os dois homens soa repetitiva e quase sequestra o filme para si como se fosse o aspecto principal. Torna-se mais enriquecedor para a dramatização quando os arcos emocionais de Rana e Nisreen ganham espaço e apresentam as duas mulheres deixando o profissionalismo e cedendo às próprias emoções de aflição, desalento e irritação.

A ficcionalização tem mais força nas passagens em que a cineasta cria a sensação de sufocamento através das escolhas formais de como encenar as ações transcorridas no escritório da organização. É preciso evocar a urgência de um problema extremo que, a despeito da necessidade de resolução rápida, acaba se arrastando. Além disso, deve trabalhar os efeitos devastadores da passagem do tempo nos personagens, seja o cansaço emocional de um trabalho desgastante psicologicamente, seja a dor de imaginar uma criança exposta a tamanha violência. Kaouther Hania estabelece tudo isso por meio do enclausuramento visual dos voluntários com planos fechados ou closes, recursos capazes também de enfatizar as variações emocionais. Pontualmente, o público pode temer pelo uso repetitivo câmera trêmula como muleta para transmitir tensão. Vez ou outra, é uma armadilha da qual a realizadora não se desvia. Porém, logo em seguida, ela identifica outras possibilidades estéticas interessantes: sobrepõe o reflexo da fotografia da menina colada em um vidro com as imagens dos demais personagens e constrói uma mise-en-scène tensa a partir da movimentação no quadro quando Omar, Rana e Nisreen pressionam Mahdi.

O tempo passa e os sinais mais imediatos indicam a exposição maior de Hind Rajab a novos ataques do exército e o desgaste emocional dos voluntários. Enquanto os planos de resgate são esboçados, desfeitos e recriados, a narrativa mescla cada vez a dramatização ficcional e a abordagem documental. Nas últimas conversas, a voz da menina não é a única a ser real porque, em determinados momentos, é possível também ouvir as gravações das falas das pessoas que atenderam as ligações e participaram da operação. Em outras cenas, a tela foi dividida para colocar lado a lado trechos da gravação da criança e imagens dos personagens ficcionalizados, sendo que este paralelismo se transforma de forma esporádica em uma aproximação mais pronunciada entre os dois registros visuais. Outro exemplo demonstra que os traços ficcionais diminuem gradualmente e abrem espaço para a consolidação de elementos que evocam o real: na mesa de reunião da sala do diretor, alguns atores são deixados fora de foco e uma personagem coadjuvante exibe um vídeo pelo celular que revela os indivíduos reais que serviram de base para o elenco. Quais seriam as implicações da passagem gradual da abordagem predominantemente ficcional para a apresentação de imagens reais?

Em alguns instantes, parte dos espectadores pode se questionar em relação às discussões éticas de usar a voz real da menina para construir o filme. Os argumentos podem se desenvolver no sentido de apontar os riscos de gatilhos para públicos sensíveis ou para quem esteve diretamente envolvido nos eventos. Trata-se de fato de uma questão complexa que pode transitar por caminhos e percepções dúbias, não, necessariamente, encontrando uma resposta definitiva. Isso porque a passagem da ficção para o real se faz a partir de uma cena emocionalmente poderosa que revela um fim inesperado para o resgate e capta as reações dos voluntários. Poucos minutos se passam naquele cenário e o filme escancara que não se pode sequer imaginar que os acontecimentos e seus desdobramentos teriam sido fruto da imaginação de um artista. O encerramento clássico de obras inspiradas em histórias reais aparece, mas é ressignificado. O letreiro que anuncia como tudo termina não satisfaz o apelo pela curiosidade do público porque consolida a ideia de que um episódio extremo como esse precisa ter a sua realidade evidenciada. Outras críticas podem ser feitas a essa opção, sobretudo porque a narrativa se aproxima de um teor jornalístico que pode intensificar a dor do ocorrido em função das imagens apresentadas. São reações e perspectivas distintas e até conflitivas que tornam “A voz de Hind Rajab” um filme que rejeita a indiferença.