“ÁGUAS MORTAIS” – Um filme de poucos esforços
Um drama sobre a luta pela sobrevivência para que os personagens possam retornar aos seus familiares. Um filme de catástrofe sobre um terrível acidente aéreo e as consequências de uma situação limite. Um suspense sobre ataques de tubarões em alto mar enquanto sobreviventes esperam pelo resgate. ÁGUAS MORTAIS tangencia as três possibilidades e não se sai bem em nenhuma delas. Falta o mínimo de esforço para convencer quanto aos conflitos emocionais, aos grandes momentos de ação e ao terror da violência dos animais.

Tudo se inicia com um voo de Los Angeles para Xangai. O avião está cheio e cada pessoa possui sua própria história e questões pessoais. Em dado instante, os pilotos Ben e Rich são forçados a fazer um pouso de emergência. O impacto no mar destrói a aeronave, vitima alguns passageiros, mas garante a sobrevivência de outros. Todos precisam se unir para continuarem vivos, especialmente quando uma série de tubarões começa a atacá-los de forma brutal.
Nos primeiros minutos da narrativa, os espectadores são apresentados a um conjunto de personagens com os quais, supostamente, deveria se importar. Nessa introdução, os atores mais conhecidos do elenco se destacam, ou seja, Aaron Eckhart e Ben Kingsley vivendo, respectivamente, Ben e Rich. Eles não estão mais no auge de suas carreiras, o que se reflete na escolha de um projeto que não dá uma base emocional consistente para a criação dos personagens. Ben deveria sofrer com a distância do filho doente e um cargo inferior à sua competência e Rich seria ser o homem mais velho, divorciado, mulherengo e que não obedece os protocolos. Ao redor deles, existem outras figuras irritantes presas a arcos narrativos previsíveis e batidos: o homem egoísta que quer levar vantagem em tudo, a criança que não aceita o segundo casamento do pai, um jovem casal que ainda não declarou seu amor, dois grupos de esportistas que criam uma rivalidade conveniente sem motivo palpável…
Se não se pode esperar muito dos conflitos dramáticos internos ou dos embates gerados por essas interações, seria pertinente contar com a execução das sequências de ação. Mesmo não sendo brilhante, o diretor Renny Harlin já se mostrou eficiente para conduzir títulos como “Duro de matar 2” e “Do fundo do mar“(lembrança coerente por se tratar de outro filme de tubarão). Porém, ele não se esforça para encenar a queda do avião e suas primeiras consequências como uma grande set piece que provoque reações sensoriais fortes no público. Ao invés disso, constrói o momento abusando da suspensão da descrença. O incêndio em si e os desdobramentos das explosões parecem inverossímeis. Acima de tudo, falta cuidado para não deixar transparecer a artificialidade excessiva dos efeitos computadorizados na decupagem e na fotografia. Poderia até ser uma escolha estética para o tratamento da imagem se, de fato, transmitisse uma consciência elaborada ou se não entrasse me atrito com uma trilha sonora melodramática mais naturalista.
Após o acidente, a narrativa oscila muito em relação ao caminho que irá tomar. Renny Harlin desvia as atenções dos espectadores para tantas direções que acaba por optar pela mais convencional. Inicialmente, sugere um interesse pelo drama na cabine dos pilotos quando um sacrifício precisa ser feito e os embates íntimos são colocados no centro das ações. O núcleo logo se encerra e o filme divide os personagens sobreviventes em grupos e ambientes diferentes. Outra escolha que dura pouco tempo e termina na reunião de muitos deles liderados por Ben e outra parte presa em uma fuselagem abaixo da superfície. A partir daí, nosso olhar é direcionado para um vaivém entre os dois núcleos, cuja abordagem segue os clichês mais conhecidos e repetidos aqui no piloto automático. Enquanto alguns personagens tentam fugir do enclausuramento, outros lidam com as dificuldades da convivência. Neste ponto, aparecem a vilania de alguns, as brigas e reconciliações forçadas de rivais e as decisões estúpidas da maioria frente a um perigo.
O pouquíssimo cuidado na construção da trama ou da composição visual prossegue para os ataques dos tubarões. Novamente, não se exige uma perspectiva realista nem séria para uma proposta que possa ser difícil de filmar ou dependa muito da ficção. Deve-se apenas considerar a ideia que guia o cineasta no seu trabalho. Renny Harlin, então, filma as cenas de terror de maneira burocrática sem investir na preparação anterior da tensão ou no choque da revelação dos impactos violentos dos ataques. Além disso, os efeitos visuais para os animais chamam a atenção para as operações do pós-produção, ao mesmo tempo recusando o naturalismo, o humor e a autoironia. Até mesmo os exageros dos saltos dos tubarões são encenados sem qualquer princípio estético definido. Nem as vítimas recebem um cuidado especial, pois as perdas não são sentidas ou tratadas com alguma particularidade. Um bom exemplo disso é a cena em que que perguntas e choros desesperados não ganham rostos nem identidades concretas quando os personagens se assustam com os riscos de não serem socorridos.
A cada novo ataque que deixa uma vítima e exige dos sobreviventes uma nova estratégia para sua segurança, “Águas mortais” se aproxima de um desfecho que resume muito bem seus problemas. A falta de criatividade ou de refinamento para as sequências de ação resulta em resoluções empobrecidas que passam, necessariamente, por uma sucessão de erros para gerar suspense. A tentativa fracassada de resgate no terceiro ato representa com louvor essa fragilidade. A abertura de subtramas, núcleos e arcos diversos para cada personagem demanda o fechamento de todos eles de forma apressada. Então, o homem egoísta e vilanizado precisa ser punido, as brigas de antigos rivais devem se tornar uma aliança, a sugestão do relacionamento amoroso deve ser concretizado e a criança desagradável precisa passar pela redenção e reencontrar alguém até então separado. Nada disso, porém, é feito como uma recompensa emocional que dê valor aos referidos momentos. E, por fim, aquele antigo conflito inicial sobre um piloto afetado pelas dores pessoais tem que ser resolvido com a tomada de consciência edificante da importância de voltar para casa, registrada sob uma bela fotografia solar. No geral, são poucos os esforços dos envolvidos para que se acompanhe trama, personagens e narrativa sem cair na indiferença.



