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“AS AVENTURAS DO PRÍNCIPE ACHMED” – Tão mágico quanto histórico

A história do cinema pode ser escrita com base em mais de um recorte. Entre as possibilidades estão a relação entre os filmes e os contextos sociais de cada período histórico, as trajetórias de movimentos artísticos e a transformação das técnicas ao longo do tempo. Este último recorte não pode ser feito sem considerar a importância da animadora Lotte Reiniger e a revolução proporcionada por AS AVENTURAS DO PRÍNCIPE ACHMED. A realizadora e o filme são importantes graças ao papel mágico e histórico que o cinema pode desempenhar.

(© Milestone Films / Divulgação)

Em terras distantes da Ásia, o príncipe Achmed é enganado por um feiticeiro e levado para além de seu califado por um cavalo alado. Na tentativa de retornar para casa, ele vivencia diversas aventuras que o fazem se apaixonar por um princesa, fazer amizade com uma bruxa, enfrentar espíritos sombrios e conhecer Aladdin e a lâmpada mágica. Tais desafios são inspirados no livro “As mil e uma noites” do século IX.

Não leva muito tempo para que os espectadores percebam o caráter histórico do longa-metragem. Lotte Reiniger incorpora as influências do teatro de sombras originário da China para superar as limitações tecnológicas do cinema na década de 1920. Valendo-se de silhuetas desenhadas em papel, recortadas e manipuladas em uma mesa de luz com movimentos ao estilo stop-motion, ela anima os personagens e outros elementos cênicos para criar efeitos expressivos. Em primeiro lugar, os recursos usados estimulam a imaginação por acompanhar uma grande diversidade de formas, texturas e movimentos (a exemplo, a sequência inicial em que o feiticeiro demonstra seus poderes mágicos). Além disso, ajudam também a gerar reações emocionais dos personagens por detalhes pontuais das expressões faciais do feiticeiro ou pela movimentação do restante do corpo de Achmed e a Princesa Pari Banu, sobretudo as mãos.

Desse modo, a obra marcou seu lugar na história do cinema ao inspirar outras animações através da inventividade no uso de diferentes técnicas. Desde os projetos clássicos da Disney e chegando a trabalhos mais recentes, “As aventuras do príncipe Achmed” assumiu uma posição de referência. A inspiração pode se manifestar nos outros recursos visuais e narrativos empregados que constroem uma estética particular ou fortalecem as experiências sensoriais ao longo dos cinco atos da história. O filme desenvolve seus traços e supera qualquer eventual barreira tecnológica a partir do contraste entre as silhuetas escuras dos personagens e o cenários monocráticos ao fundo, que permite ao público visualizar tudo como um espetáculo mágico surgindo diante dos olhos. Ao mesmo tempo, a animação em planos múltiplos cria grande profundidade de campo, capaz de deixar em destaque a interação entre as locações e os personagens, dar mais materialidade às ações e representar a grandiosidade de cenários conhecidos ou fantásticos sob a imaginação da equipe de produção.

Se os espectadores não pesquisarem como as figuras são animadas, a sensação dominante de espanto com o que se vê em tela pode ampliar a percepção da magia do cinema. E este caráter mágico está ligado diretamente às escolhas para a trama a ser desenvolvida, baseada no livro “As mil e uma noites“. O material prévio possui sua própria importância histórica e fabular, já que se origina das histórias narradas por Xerazade para o rei Xariar a cada noite para ter a vida poupada até se livrar totalmente da ameaça de execução por parte do marido. Em sua compilação, estão contos fantásticos que fazem parte da cultura popular persa, indiana e árabe. Logo, a animação parte tematicamente de tradições culturais que não se resumem a uma descrição realista do mundo por permitir a existência de criaturas mitológicas, práticas mágicas e experiências além da vida mundana comum. Ao longo de várias aventuras, Achmed entra em contato com os poderes do feiticeiro e da bruxa, capazes, por exemplo, de assumir formas físicas animais, a variedade de terras desconhecidas no Império chinês e em uma montanha tomada por espíritos e a magia de um gênio liberado pela lâmpada de Aladdin.

O aspecto de fábula imaginativa se completa quando os demais traços visuais e narrativos compõe a unidade geral da animação, unindo-se às características das tramas contadas. Como as referências são os contos de “As mil e uma noites“, a narrativa fílmica se divide em cinco atos dotados de especificidades próprias. Em cada um deles, o protagonista experimenta situações distintas que convergem para um mesmo objetivo: retornar à terra natal com a Princesa Pari Banu. No caminho, os conflitos são vários e incluem o embate contra o feiticeiro, a aliança com uma bruxa e o reencontro com a amada sequestrada. Então, as experiências pelas quais passa provocam múltiplas sensações, como o amor de se envolver com a princesa, o drama de se ver longe dos familiares, o medo de lidar com seres poderosos e a aventura de enfrentar os antagonistas. Em cada parte de sua jornada, a estética traduz o que o Achmed está passando ao usar as cores vermelha, azul, amarela e verde para simbolizar o estado emocional daqueles momento, a fluidez dos movimentos animados para evidenciar as cenas de ação ou de romance e a trilha sonora para acompanhar um arco narrativo pessoal e épico.

As aventuras do príncipe Achmed” carrega sem qualquer esforço artificial o poder da magia e da história. A partir de suas escolhas estéticas revolucionárias para a época, deixa a sensação de que a arte pode se reinventar a todo instante a partir da imaginação e da criatividade. Quando as silhuetas recortadas em papel são animadas e incorporadas aos cenários expressivos e em múltiplos planos, estamos diante das imagens fantásticas que o cinema pode proporcionar. Trata-se de uma fantasia mágica que evoca o teatro de sombras milenar do Oriente ou a própria necessidade ainda mais antiga da humanidade de se expressar contando histórias, lembrando uma estética já encontrada no jogo de sombras feito ao redor das fogueiras ou nos traços observados nas pinturas rupestres. Em paralelo, é uma obra que se apresenta como um marco histórico no sentido amplo do termo. É a História diante de nossos olhos, uma vez que é a primeira animação já feita que se preserva até os dias atuais e um trabalho de reconstituição da importância das mulheres nos primeiros anos do cinema. Lotte Reiniger é uma das pioneiras ao lado de Alice Guy-Blaché, Germaine Dulac e Lois Weber. Assim, a arte pode ser tão mágica quanto histórica.