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“CHAMPAGNE – UMA VIAGEM DE PAI E FILHO” – A estrada da segurança

Um filme bom nem sempre precisa ser imprevisível. Em outras palavras, embora a imprevisibilidade seja uma virtude que fala por si (em geral, boas surpresas são sempre bem-vindas), ela não necessariamente garante qualidade e, da mesma forma, a sua ausência não necessariamente resulta na má qualidade de um filme. Nesse sentido, o equívoco de CHAMPAGNE – UMA VIAGEM DE PAI E FILHO não reside em sua previsibilidade; seus erros são muito mais graves.

O pai de Maarten, Hans, está gravemente doente. Diante disso, ele decide levá-lo à região de Champagne, na França, para uma viagem em que pai e filho pudessem aproveitar a companhia um do outro enquanto há tempo, uma aventura na qual os dois se (re)conectam através de uma bebida que é tão cara a Hans.

(© Autoral Filmes / Divulgação)

O ponto de partida de “Champagne” não é original, o que significa que o longa se anuncia nessa condição. Na prática, seus primeiros cinco minutos permitem ao público “telegrafar” tudo o que ocorrerá em seguida. A história de um pai (ou uma mãe) e um filho (ou uma filha) que – por escolha, necessidade ou mero acaso – são colocados para um convívio inesperado e indesejado já ganhou versões cinematográficas com contornos variados, que vão do drama, como “Aberdeen” à comédia, como “Minha mãe é uma viagem”, sem olvidar as comédias dramáticas, como “Nebraska” e o próprio “Champagne”. De maneira geral, o formato de road movie é adequado para esse tipo de história, uma vez que a estrada serve de pretexto para, primeiro, fazer com que as personagens forçosamente interajam entre si, e, segundo, como desdobramento, criem ou fortaleçam os seus laços. Isso é útil para vínculos parentais, mas também para relações familiares em geral (como em “Pequena Miss Sunshine”) ou simplesmente de amizade (como em “Um parto de viagem”).

Com maior ou menor êxito, esses filmes aceitam o molde da previsibilidade – isto é, de maneira amplamente majoritária, sabe-se de antemão que as personagens compreenderão melhor as pessoas com quem estão viajando (quando não a si mesmas), estreitando seus laços -, porém, para dar um passo à frente em termos qualitativos, buscam um fator que os tornem memoráveis. Por exemplo, em “Aberdeen”, esse fator está no roteiro (tanto o motivo da viagem, que reside em personagem diversa da dupla principal, quanto a condição delicada em que os envolvidos se encontram); em “Minha mãe é uma viagem”, no carisma e no talento do elenco (Barbra Streisand e Seth Rogen); em “Nebraska”, no roteiro (a ideia estapafúrdia do pai e suas repercussões), nas atuações (em especial de Bruce Dern) e na direção que deu excelência à obra.

No caso de “Champagne”, esse fator inexiste, razão pela qual o longa não é nada memorável. Mais do que previsível (já que, em maior ou menor medida, os outros três também o são), o filme é óbvio tanto em termos textuais quanto estéticos. O roteiro de Leo Alkemade e Rik van den Bos não se preocupa em criar um backstory para as personagens; sabe-se apenas que Hans é apaixonado por champagne e está doente, e que Maarten se irrita com as constantes mudanças na empresa em que trabalha enquanto equilibra a vida familiar com a esposa e os dois filhos. Nesse contexto, Alkemade e Huub Stapel (respectivamente, Maarten e Hans) têm pouco espaço para atuar de maneira comovente (para além da própria trama, o que é insuficiente para despertar emoções profundas na plateia). Como é de se esperar, pai e filho têm personalidades opostas (este é introspectivo, aquele é extrovertido), contraste que gera cenas pretensamente cômicas que, na verdade, beiram o pueril. Tim Kamps, por sua vez, apresenta o que surge como inevitável em um filme simplista: os cenários residem na contraposição entre o urbano e o rural, explorando a beleza da região francesa em que a viagem ocorre; a trilha musical tem composições instrumentais que servem como música de preenchimento, sem jamais elastecer as emoções que a narrativa procura estimular. Jamais a obra apresenta surpresas, caminhando sempre por uma estrada de segurança.

Além da previsibilidade e da obviedade, essa mesma estrada é pavimentada pela superficialidade. Se é verdade que é triste para um filho ver o seu pai, já com limitações em razão da idade avançada, acometido por uma grave doença que provavelmente ceifará sua vida em breve, não é menos verdade que isso pode ser presumido por qualquer pessoa. Ocorre que o filme não apresenta nada além dessas deduções evidentes, limitando-se àquilo que a plateia consegue inferir a partir da sinopse, sem se debruçar com profundidade sobre as relações ou os sentimentos. Mais do que uma história comum, trata-se de um filme que se contenta em ser um retrato radicalmente insosso da inevitabilidade do fim e da viabilidade da reconciliação.