“COYOTE VS. ACME” – Fórmula incansável
Originalmente, a expressão “Looney Tunes” nasceu como uma série de curtas-metragens animados na década de 1930 nos estúdios da Warner Bros. Suas personagens se desenvolveram e encantaram gerações com histórias que reuniam o humor pastelão do vaudeville estadunidense (além dos aspectos supostamente fantásticos) com a ironia e a sátira do music hall britânico em esquetes que, com o tempo, originaram até mesmo longas-metragens (inclusive em live-action). COYOTE VS. ACME comprova que sua fórmula, quando bem empregada, é incansável.
Cansado com os fracassos em capturar o Papa-Léguas graças às falhas dos produtos ACME, Wile E. Coyote tem a ideia, após ver um anúncio na televisão, de entrar com uma ação contra a empresa responsável por eles. Porém, Kevin Avery, o advogado que contrata, está mais acostumado a fazer pequenos acordos, não a grandes litígios – menos ainda contra uma Corporação grande e poderosa que não quer desvelar seus comprometedores segredos.

A história elaborada por James Gunn, Jeremy Slater e Samy Burch – resultando no roteiro assinado por Burch – é baseada em um artigo publicado em 1990 na revista New Yorker por Ian Frazier. O texto de Frazier é uma sátira na qual ocorre exatamente o que acontece no filme: o Coyote processa a Acme por danos causados pelos seus produtos defeituosos. A sátira decorre do contraste entre o tom formal da linguagem jurídica nas alegações do advogado e o absurdo consistente nos acidentes sofridos pelo cliente. O ponto de partida, portanto, é muito bom.
Entretanto, em sua estrutura, o roteiro tem problemas. O primeiro deles reside no protagonismo atribuído a Kevin Avery (Will Forte), não por um trabalho ruim de seu intérprete, mas porque a personagem não é cativante em razão da ausência de backstory. No estágio em que se encontra, Kevin é um advogado sem ambição, que se contenta com pequenos ganhos, e que tem pavor do advogado adversário, Buddy Crane (John Cena). Não se sabe o que levou Kevin a tal condição, o que prejudica consideravelmente a identificação cinematográfica secundária. Igualmente, uma história pregressa faria bem a Buddy, já que eles têm um passado compartilhado. Outro problema está na progressão narrativa, o que afeta o ritmo, pois existem saltos que poderiam ser aproveitados (a elipse da preparação para o julgamento) e mesmo sequências inteiras vazias. As cenas de julgamento, por exemplo, são demasiado vazias, o que representa um desperdício do talento de Luis Guzmán. Outros do elenco também são subaproveitados, como Martha Kelly (ótima comediante cuja principal característica, a falta de emoção, é ignorada) e Lana Condor (cuja personagem é limitada a impulsionar Kevin).
Por outro lado, o script também tem virtudes, em especial a revelação do plano do Coyote, a eficiência da jornada de transformação de Kevin e da mensagem inspiradora final, e a dualidade como encara a repetição (enquanto resiliência e enquanto meio de concretizar intenções maléficas). Um de seus grandes trunfos, ainda, é o humor, que vai do verbal (a advogada que sugere aos colegas agirem como advogados, questionando em seguida como advogados agem) ao não-verbal (a primeira cena do Coyote em seu quarto), do textual (o endereço indicado na ligação misteriosa) ao contextual (a piada sobre pássaros desagradando Frangolino). De fato, o filme é muito engraçado e corrobora as origens dos Looney Tunes ao abordar assuntos como conspiracionismo (com uma fidelidade ao tema do minuto inicial, junto ao logotipo da Warner, ao encerramento, com um texto típico das histórias reais) e uma crítica aos maus-tratos aos animais. Além disso, um de seus grandes temas é a crítica à ausência de ambição, o que é encarado à luz do sistema judicial estadunidense, que privilegia os poderosos e faz com que os vulneráveis se contentem com acordos de valores irrisórios (o discurso de Buddy sobre liberdade e patriotismo é exemplo da sátira), e à luz do indivíduo, com a ideia de que o medo de perder elide a coragem para ganhar (a cena do penhasco é ilustrativa e engraçada ao mesmo tempo).
Esteticamente, o longa não é inovador, pois a mescla de live-action com animação tradicional já foi vista, por exemplo, em 1988, com “Uma cilada para Roger Rabbit“. Aqui, tanto a animação ingressa em cenários reais (e interagem com pessoas reais) quanto, em uma cena, pessoas reais ingressam em um cenário animado. O visual é criativo (como quando o Coyote explica o seu caso) e engraçado (como no uso do martelo pelo juiz). São inúmeras as referências à série animada, como nas participações (Pernalonga, Patolino, Gaguinho, Piu Piu, Frajola, Pepé Le Pew, Hortelino etc.), nas cenas extraídas diretamente e, principalmente, na gramática empregada – por exemplo, no uso de músicas eruditas na trilha e nas idiossincrasias dos desenhos (as inimizades, os sofrimentos físicos, as mudanças corporais efêmeras). Trata-se, portanto, de uma ode a uma criação audiovisual de quase um século de vida e que demonstra que, mantendo fidelidade à origem, ainda é possível fazer bons filmes.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

