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“DIA D” – Spielberg e os segredos da ufologia

Em 1976, durante a pré-produção de “Contatos imediatos de terceiro grau” (1977), a NASA enviou a Steven Spielberg uma carta de vinte páginas tentando convencê-lo a não fazer o filme. Avaliando o seu roteiro, a agência afirmou que o longa poderia apavorar o público desnecessariamente, tal como teria ocorrido com “Tubarão” (1975). A temática ufológica esteve presente na filmografia desde 1964 com “Firelight”, retornando não apenas na obra de 1977, mas também em “E.T.: o extraterrestre” (1982), em “Guerra dos mundos” (2005) e agora com DIA D, em 2026.

Junto de sua namorada, Jane, o especialista em segurança cibernética Daniel Kellner precisa fugir de uma agência em razão de ter subtraído arquivos sigilosos que pretende divulgar perante o mundo. Paralelamente a isso, a jornalista Margaret Fairchild apresenta novas e surpreendentes habilidades que farão com que seu caminho se cruze com o de Daniel.

(© Universal Studios / Divulgação)

Muito do que está presente em “Dia D” se conecta a assuntos presentes em outros filmes de Spielberg (para além da temática, é claro). De “Contatos imediatos”, um tipo de comunicação baseada em signos linguísticos incomuns: em 1977, luz e som; em 2026, a matemática (e o trabalho de edição de som para a “fala” alienígena é excelente). De “E.T.”, o subtexto religioso: em 1982, as alegorias cristãs são conspícuas (o carismático alienígena “desce” à Terra e aqui executa milagres como a cura e a ressuscitação); em 2026, a relação com o cristianismo é textual (a citação bíblica e a menção a Santa Clara de Assis e seu milagre segundo o qual ela esteve presente em dois lugares ao mesmo tempo), mas também simbólica (a abertura dos braços feito por Noah ao usar o dispositivo, a ave cardeal, o crucifixo de Jane e seu corte na palma da mão). O cristianismo, inclusive, também marcou presença em “Indiana Jones e os caçadores da arca perdida” (1981), sendo a arca uma relíquia sagrada do Antigo Testamento. De “Os Fabelmans” (2022), o sentimento acalentador da revisitação: de um lado, um filme semiautobiográfico, de outro, uma personagem (Margaret) que é levada de volta à sua infância. De “A lista de Schindler”, a valorização da empatia: enquanto o sentimento norteava a conduta do protagonista do longa de 1993, no de 2026 ele se torna um imperativo a uma personagem, tamanha a sua relevância. De “The Post: a guerra secreta” (2017), a indispensabilidade do trabalho jornalístico: em 2017, tratava-se da ocultação de notícias em favor de presidentes dos EUA (uma luta da imprensa contra o governo); em 2026, há um quadro bastante similar de quase oito décadas de sigilo de informações, sob o mesmo pretexto usado pela NASA na carta endereçada ao cineasta.

Não se trata, porém, de uma mixórdia em que Spielberg coletou peças de sua filmografia. Dessa vez, a narrativa é catapultada pelo(s) segredo(s) concebido(s) pelo cineasta ao criar a história (cujo roteiro é assinado por David Koepp). O caminho de Margaret (Emily Blunt, excelente) é imprevisível diante da sua nova – e errática – postura, diferentemente de Daniel (Josh O’Connor, também excelente), que é orientado por Hugo (Colman Domingo, com menos tempo de tela) e está fugindo da agência dirigida por Noah (Colin Firth, vivendo um vilão meramente funcional). No micro, existem segredos entre as personagens (como o backstory de Daniel e Jane, esta interpretada muito bem por Eve Hewson); no macro, há o núcleo de toda a trama, vale dizer, o grande mistério que Daniel e os demais (salvo Noah) desejam revelar. Mesmo em relação a isso, porém, o filme se preocupa em debater moralmente a própria revelação: a quem cabe decidir se é positivo que todos saibam aquelas informações? Quais seriam as consequências? Não obstante, há uma clara tomada de posição.

Dia D” é reflexo de seu tempo, pois é lançado enquanto o governo dos EUA divulga dados sobre os UAP (Unidentified Anomalous Phenomena, ou Fenômenos Anômalos Não-Identificados, em tradução livre), antigamente taxados de UFO. A película não desconsidera a sua inserção na era dos dados digitais e de monitoramento, de modo que se esconder é mais difícil hoje do que outrora e as telas permeiam diversos cenários. A produção se traduz em um thriller de ficção científica repleto de ação (sobretudo em cenas de fuga) e com momentos cômicos (em especial com a personagem de Wyatt Russell, cuja função é bem modesta). Visualmente, o uso das cores contrapondo as personagens (azul e cinza de um lado, cores quentes do outro) e a contraluz da fotografia de Janusz Kaminski são escolhas que revelam a competência inegável da obra. O mesmo vale para a trilha musical – como sói ocorrer na filmografia de Spielberg, assinada por John Williams -, cujo espírito de deslumbramento, sobretudo ao final, alavanca as emoções quando o clímax é alcançado. Nos últimos minutos, o cineasta entrelaça ficção e realidade, levando a primeira a estimular o público a refletir sobre a segunda, notadamente sobre o conhecimento da verdade. A ideia governante, segundo a qual não se deve ter medo do desconhecido, reúne o explícito e o implícito de um filme que declara, de peito aberto, que cabe às pessoas comuns desvelar aquilo que os que estão no poder não querem que seja revelado.