Nosso Cinema

A melhor fonte de críticas de cinema

“EM BUSCA DO OURO” – Centenário da arte

Cem anos se passaram e a grandeza não foi perdida. Inovações tecnológicas se sucederam, novas formas de contar histórias foram criadas, crises se abateram sobre o cinema e diferentes perfis de espectadores surgiram. Ainda assim, Charlie Chaplin manteve sua importância para o cinema até hoje, como se pode perceber assistindo EM BUSCA DO OURO, de 1925, tantos anos depois. A elegância criativa do artista e a delicadeza de sua comédia se impõem à passagem do tempo. Um século depois, o poder daquelas imagens registra parte da história dos EUA, documenta a cultura de uma época e permanece expressivo até os dias atuais.

(© United Artists / Divulgação)

No Alasca de 1898, Carlitos parte em uma aventura durante a corrida do ouro. Em uma região inóspita que sofre com as baixas temperaturas e a neve, tenta a sorte como garimpeiro. Em meio às dificuldades, ele conhece o explorador Big Jim e o criminoso foragido da justiça Black Larsen. Além de enfrentar muitos perigos com os dois homens, Carlitos também conhece e se apaixona por Georgia, uma mulher que, aparentemente, não tem interesse por ele.

A premissa do filme se relaciona com um contexto histórico vital para a formação social dos EUA: a Macha para o Oeste do século XIX. A expansão territorial dos EUA se baseou na procura por distintas fontes de riqueza, como terras agricultáveis, petróleo, rotas marítimas de comércio e ouro. Ao longo das expedições para áreas afastadas do território, os norte-americanos criaram discursos de prosperidade, meritocracia e individualismo que legitimaram a violência e a ambição do expansionismo. Tal conjuntura é retratada pelas imagens e pela narração da abertura, que mostram os desafios de grupos de aventureiros em face à natureza. Mesmo sendo uma comédia, a representação não deixa de lado a perversidade da busca desenfreada por riquezas, sobretudo a partir das presenças de Big Jim e Black Larsen. Enquanto Carlitos tenta sobreviver se protegendo do frio dentro de uma cabana, os outros dois homens disputam a posse de minas, a permanência na moradia e a alimentação.

O desejo pela acumulação de bens, as disputas pelo triunfo individual e o sentimento de descaso pelo outro contrastam com o tipo de humor feito por Charlie Chaplin. Como ator, ele soube explorar muito bem as potencialidades do próprio corpo para criar momentos cômicos no cinema mudo. A fisicalidade dos seus movimentos lembra uma mistura entre acrobacias, danças, show de marionetes e trejeitos de palhaços. Simultaneamente, os closes ou os planos mais fechados enquadravam o rosto do personagem e as diferentes expressões humorísticas de uma figura doce, gentil e atrapalhada envolvida em várias confusões. Exemplos não faltam de uma comédia física que não precisa de uma construção complexa para atingir seu efeito. O humor pode vir da força dos ventos que empurram Carlitos e Black Larsen para dentro ou fora da cabana, da briga entre Black Larsen e Big Jim que aponta uma arma para Carlitos e da perseguição ao protagonista que parece um frango para um Big Jim esfomeado.

Mais algumas características opõem Carlitos ao universo em que está. Conhecido como Vagabundo, ele demonstra que a miséria e a falta de um trabalho formal não o fazem perder o cavalheirismo nem a dignidade. Essa postura se manifesta quando a narrativa deixa de se passar nas áreas remotas do Alasca e se transfere para a cidade construída na região, incorporando o romance à comédia física. O personagem logo se apaixona por Georgia, mas é menosprezado pela mulher e seus amigos. O menosprezo ocorre por conta da pobreza, evidenciada por suas roupas (em cenas anteriores, cozinhou o próprio sapato e improvisou outro para o seu lugar), e por sua inocência romântica, oposta ao cinismo de quem diminui o amor instantâneo demonstrado pelo protagonista. Ao invés de criar momentos cômicos eficientes como já havia feito antes, Charlie Chaplin constrói cenas comoventes sem precisar de diálogos ou da trilha sonora para comunicar isso. É assim quando Carlitos se vê sozinho em um saloon cheio de pessoas bebendo, conversando e dançando e imagina o jantar de Ano Novo com Georgia e as amigas dela.

A corrida pelo ouro do século XIX não é o único registro histórico. O diretor também combina referências artísticas de períodos anteriores ao lançamento da obra. A percepção mais óbvia é o cinema mudo, que opera a partir do fluxo de imagens expressivas, poucos diálogos, inserção de letreiros para a exibição de falas (ou, no caso em questão, de uma narração posterior), de atuações mais carregadas e da composição eloquente das cenas. E os diálogos com as produções culturais do passado são significativos. Em boa parte da narrativa, a câmera está imóvel, a composição do quadro é centralizada, o ponto de vista se assemelha ao teatro, os planos são abertos e um conjunto de ações/personagens se movimenta em um único quadro. Tais traços são visíveis em eventos que se desenvolvem em um cenário fechado, como a cabana no interior, o saloon na cidade e a cabine de um navio. Trata-se de uma construção que remete ao primeiro cinema ou ao cinema de atrações. Esta última nomenclatura faz alusão aos vaudevilles, que reuniam encenações dramáticas, declamações de poesia, apresentações musicais, entre outros espetáculos no século XIX, algo que pode ser associado à cena em que Carlitos manuseia dois pães como se fossem pés em uma demonstração de marionete.

Transcorridos os dois segmentos em torno dos quais “Em busca do ouro” se estrutura, a comédia e o romance se retroalimentam cada vez mais. O humor ingênuo e a sensibilidade romântica do diretor e ator superam os obstáculos erguidos na busca pelos meios para a sobrevivência material (o ouro) e na concretização de uma paixão. Carlitos, o Vagabundo ou o próprio Charlie Chaplin fazem com que sua persona influencie todas as dimensões ao redor do filme em particular e do cinema em geral. O egoísmo da ambição individual pelo enriquecimento se transforma na colaboração pela prosperidade de Carlitos e Big Jim. A desvalorização do amor entregue a Georgia se torna uma relação amorosa de final feliz, que não depende de interesses financeiros. Os desfechos narrativos ocorrem com novas sequências cômicas (a cabana no precipício) e românticas (o gesto altruísta de Georgia no navio desconhecendo a situação financeira de Carlitos. Ao mesmo tempo, um filme de cem anos atrás pode indicar ao cinema atual que a ingenuidade, o humor simples e o cuidado sereno com o tempo da narrativa podem ser muito bem-vindos.