“ENZO” – Nem coming of age, nem romance adolescente, nem discurso político
Há uma cena em ENZO que resume bem o espírito geral do longa. Confrontado pelos genitores, o protagonista faz uma afirmação que, apesar da gravidade e de envolver outra pessoa, é falsa. Minutos depois, contudo, ele reconhece que a afirmação não era verdadeira. A seriedade e a gravidade inerente às temáticas do filme são abordadas com a mesma precariedade de alguém que não sabe o que quer e inventa pretextos para suprir uma lacuna de respostas.
Enzo tem dezesseis anos e trocou a escola pelo trabalho na alvenaria. Seus pais ficaram desgostosos com a sua decisão, sobretudo considerando a natureza do trabalho, que contrasta com o perfil intelectual e abastado da família. Ao conhecer Vlad, um colega ucraniano, Enzo se sente atraído por um mundo que até então desconhecia.

O filme contrasta com a filmografia contundente do diretor, Robin Campillo. Com “120 batimentos por minuto”, por exemplo, o cineasta apresentou uma narrativa visceral sobre um assunto cuja atualidade é perene. Embora não tenha sido creditado como roteirista – na função consta apenas Laurent Cantet, junto de Gilles Marchand, este como conselheiro do roteiro e da direção -, ele também atuou no script do longa, que em nada se assemelha a, por exemplo, “Entre os muros da escola”, longa provocativo cujo roteiro é assinado por ele e Cantet.
“Enzo” é um filme morno e indeciso, incapaz de promover a reflexão ou a emoção. Isso se deve, em parte, à natureza da própria personalidade do protagonista, um jovem inicialmente apático e que, mesmo quando tomado por emoções fortes, indica não saber o que está fazendo. Talvez isso seja uma tentativa de apontar o desnorteamento da Geração Z (embora o adolescente esteja no limiar entre os Centennials e a Geração Alpha), mas sequer a insegurança se torna assunto consolidado o suficiente para integrar a ideia governante (seja lá qual for ela). Ainda que o ponto de vista seja muito bem definido – o filme coloca o espectador lado a lado do protagonista, acompanhando-o em todos os momentos e adotando a sua perspectiva, como ao não colocar legenda para certos diálogos dos ucranianos (aqueles não falados em francês) -, o ponto de foco não o é.
É possível perceber três fios condutores distintos na obra. No primeiro, trata-se de um coming of age no qual o protagonista está perdido quanto ao seu destino profissional (a escolha pela alvenaria não tem justificativa clara, soando quase randômica) e quanto aos seus desejos sexuais. No segundo, trata-se de um romance adolescente simplesmente insosso. No terceiro, trata-se de um filme político que denuncia a indiferença da classe burguesa a uma guerra, o que se extrai das conversas relativas a dinheiro e remuneração, bem como das cenas citando diretamente a Guerra da Ucrânia. Na dúvida entre qual fio condutor seguir, a produção adota as três e, com isso, atenua substancialmente o seu potencial. Não se trata de um coming of age, pois a profissão de Enzo, problematizada no início (já que ele parecia não gostar e não fazia um bom trabalho), é esvaziada como conflito narrativo; quanto à sexualidade, o filme é anódino na temática e a emprega como cortina de fumaça (para algo que não se sabe o que vem a ser). Não se trata de um romance adolescente, pois as interações afetuosas entre Enzo e seus interesses são episódicas e, a rigor, bem frias (nada transparece uma paixão real, ele parece agir pelo simples agir). Não se trata, ainda, de um filme político, pois o subtexto relativo ao Zeitgeist é obnubilado pelos sentimentos do adolescente. O erro do longa não é a indecisão quanto ao fio condutor, mas a incapacidade de articular os três para que eles dialoguem e constituam um todo coeso e envolvente.
Não obstante, existem valores positivos na obra (ainda que pouco explorados), sobretudo resultantes das atuações. Eloy Pohu transmite a angústia de um jovem que corporifica a insatisfação e o desconforto, e que insinua uma sede pela contrariedade, em especial em suas brigas com o pai, interpretado pelo ótimo Pierfrancesco Favino. Assim, são boas as cenas em que Enzo se torna um adolescente rebelde junto à família, mesmo diante de um pai zeloso e (talvez exageradamente) preocupado. São também interessantes, em alguns aspectos, outras relações interpessoais, com destaque às cenas em que Enzo surge deslocado junto aos colegas de trabalho. Especificamente em relação às interações com Vlad, a limitação de Maksym Slivinskyi como ator é evidentemente prejudicial. Entretanto, falta a “Enzo” a decisão sobre os dilemas da adolescência (são muitos, é preciso escolher e delinear bem os que afligem o herói) para ser um coming of age convincente; falta-lhe a volúpia ou, ao menos, o encanto, para ser um romance cativante; e falta-lhe a inflamação para tratar de uma matéria política tão lancinante quanto a guerra.
Em tempo: a cena final é muito boa, porém solitária, exibindo tudo o que o filme deveria ter feito (e não fez) até então.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

