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“EU NÃO TE OUÇO” – Dispositivo exaurido

Vivemos em tempos de radicalização política no Brasil. A extrema direita ameaça a democracia e naturaliza a violência. Os discursos de ódio se multiplicam. As fake news circulam com grande rapidez. Os resultados eleitorais são questionados sem provas. Autoridades políticas e cidadãos planejam e executam tentativas de golpe de Estado. Nesse contexto, apoiadores de Jair Bolsonaro não aceitaram a vitória nas urnas de Lula em 2022, bloquearam estradas e participaram de ações antidemocráticas. Na ocasião, o comerciante pernambucano Junior Cesar Peixoto ganhou fama ao se pendurar no para-brisa de uma caminhão em movimento, tornando-se meme na internet. É a partir daí que EU NÃO TE OUÇO se desenvolve e articula a história recente e uma escolha narrativa que não se sustenta por muito tempo.

(© Amaia Distribuidora / Divulgação)

O filme imagina o encontro inusitado entre um motorista de caminhão que percorre as estradas do país e um homem pendurado no para-brisa. Cria-se assim um road movie que aborda a impossibilidade de compreensão entre eles. Tendo apenas o vidro do veículo como separação, os dois personagens tentam falar e não são ouvidos pelo outro. Alternando-se entre os dois pontos de vista, há uma equipe de filmagem que capta os fragmentos de discursos mobilizados. Então, um retrato atual do Brasil é feito levando em consideração a polarização política.

Ao longo de pouco mais de uma hora de duração, o diretor Caco Ciocler estabelece um dispositivo narrativo para contar a história: a decupagem transita entre as perspectivas do caminhoneiro no interior do veículo, do patriota do lado de fora e de reflexos de ambos sob a visão do outro personagem. A escolha formal também estabelece que nenhum deles consegue ouvir e entender o que está sendo dito, deixando qualquer tentativa de conversa truncada e ininteligível. O efeito desejado é imediatamente percebido quando se conclui que o recurso visual traduz a dificuldade de comunicação entre polos opostos da sociedade. A princípio, parece ser uma ideia promissora caso não fosse utilizada de forma prolongada como única proposta de estilo. Mesmo que possa ser defendida como estratégia hiperbólica para destacar a caricatura de um discurso autoritário que gira em círculos, a repetição afeta o próprio ritmo da obra. E, sobretudo, dá a impressão de que se trata uma premissa para um curta-metragem que não se justifica como longa.

Em alguns momentos, Caco Ciocler flerta com uma possibilidade diferente. Enquanto as filmagens são feitas, a voz do próprio diretor pode ser ouvida no extracampo dialogando com o motorista e o patriota. Em uma leitura imediatista, podem ser consideradas intervenções que levam os personagens a opinarem sobre questões relativas à conjuntura nacional. Em uma percepção simbólica, pode ser a reflexão sobre o papel que a arte pode desempenhar na mediação da realidade. Isso porque os espectadores conseguem ouvir as falas dos dois homens somente porque o câmera deixa para trás a barreira do vidro e se alterna no interior e no exterior do veículo para conversar com ambos. Seria possível ir além e sugerir que a arte poderia mediar as discussões acaloradas entre indivíduos e grupos antagônicos através do incentivo à escuta tolerante. Porém, o filme não discute a questão como parte de sua unidade dramática e retorna para a dinâmica de seu dispositivo sem explorar a representação artística. Pontualmente, o tema só reaparece para o patriota atacar os artistas como incapazes de dar um olhar objetivo sobre a realidade.

Quando a atenção não está destinada às escolhas formais, pode-se refletir também sobre algumas visões políticas sobre o Brasil, a sociedade e a democracia que se sobressaem das falas dos homens. O patriota é retratado dentro da caricatura que se observa de sua origem midiática como meme e das fragilidades do discurso ideológico da extrema direita. Ele recorre a chavões muito comuns, como a explicação maniqueísta do mundo, o papel salvador da religião para a população, a culpabilização de artistas como inimigos, o anticomunismo e a criminalização de políticas públicas contra as desigualdades sociais. Já o caminhoneiro apresenta nuances mais complexas por ser representado com muitas contradições. Começa dividindo suas experiências e desafios profissionais, como a influência do pai, o valor de seu trabalho para o país e as dificuldades para viagens por várias horas seguidas. Em seguida, discorre sobre suas opiniões políticas sem sair do senso comum, pois critica os políticos em geral, mas valoriza o direito ao voto, apoia punições violentas, mas condena a intolerância, e não enxerga possibilidades de melhoria para o Brasil. Então, a obra analisa o contexto atual e traça um estudo de personagens.

Tais figuras são interpretadas pelo mesmo ator. Márcio Vito vive tanto os paradoxos do caminhoneiro e a demonstração mais aberta de suas emoções ao lembrar da família quanto a truculência do pensamento autoritário do patriota e seu atordoamento quando colocado diante de um dilema sem respostas fáceis. No entanto, a escalação do mesmo intérprete para os dois personagens provoca um problema que os realizadores não se dão conta ou não enfrentam suas implicações: o paralelismo entre duas pessoas que deveriam ser opostas, mas são colocadas como duas faces da mesma moeda. São muitos os indícios da tese inconsciente da equiparação de dois extremos, pois não parece ser a intenção. Há a presença de Márcio Vito para interpretar os dois personagens, o espelhamento simbólico por meio do reflexo do vidro e a convergência de temas e abordagens em suas falas. O motorista e o patriota desconfiam um do outro em relação à ameaça de violência, enxergam a si mesmos como indivíduos essenciais para o país, defendem uma concepção violenta de “justiça”, entendem cada um ao seu modo a política como práticas corruptas e duvidam da viabilidade de um diálogo respeitoso entre eles.

Claramente, “Eu não te ouço” busca ser um retrato crítico da radicalização atual em que o extremismo político coloca os brasileiros em campos opostos dentro de uma batalha contra inimigos. Tenta fazer isso a partir de um exercício de estilo que recorre a um dispositivo com data de validade breve. Em pouco tempo, ele se desgasta e não se sustenta na duração de um longa metragem sem soar repetitivo. Além disso, os desdobramentos temáticos e dramáticos seguem a direção contrária do que Caco Ciocler e a roteirista Isabel Teixeira pretenderam. Não se tratam de polos antagônicos se são ressaltadas tantas semelhanças. E a leitura crítica do presente é prejudicada pelo uso da falsa tese da equiparação de dois extremos quando apenas a extrema direita ocupa essa posição. Quando enfim o dispositivo passa por uma mudança, o efeito reafirma as fragilidades anteriores. Os personagens deixam momentaneamente seus lugares, mas logo retornam como se fossem complementares e dependentes entre si. A ideia de espelhamento ressurge quando a decupagem muda o eixo da câmera, deixando de registrar as cenas pelo lado direito e fazendo isso pelo lado esquerdo. Por último, a união dos dois se faz da forma mais simplificada possível com a chamada à consciência de que todos seriam brasileiros.