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“FRANKENSTEIN” (2025) – Mais um monstro que não horroriza

“Frankenstein; ou, o Prometeu moderno” é uma mistura da literatura romântica com o horror gótico, apresentando elementos de ambos. Embora a sua versão cinematográfica de 2025, FRANKENSTEIN, também possua um pouco de cada ingrediente, ele deixa a desejar em um deles, o que o torna muito menos impactante do que poderia.

Quando criança, Victor Frankenstein era criado com pulso firme por seu pai, que desejava que ele fosse médico. Na fase adulta, ele foi além, revelando-se como um cientista tão brilhante quanto egocêntrico. Com o objetivo de superar a morte, faz um experimento que resulta em uma criatura da qual terá de fugir para, ironicamente, sobreviver.

(© Netflix / Divulgação)

Escrito e dirigido por Guillermo del Toro a partir do romance de Mary Shelley, o longa abraça diversas características da literatura romântica. Bastante lírica, a obra é carregada de subjetivismo, sentimentalismo e egocentrismo. Seu protagonista, Victor, é um homem que desde a infância busca o reconhecimento (do seu pai), de modo que a sua empreitada para sobrepujar a morte é uma forma de ser reconhecido. Não por outra razão, o encanto por Elizabeth é fruto da potencialidade de ela enxergá-lo como ele enxerga a si mesmo, leia-se, o epítome da genialidade. À medida que a trama se desenvolve, os sentimentos afloram com certo exagero: emoções como a obsessão (de Victor, pelo experimento que parece ser a justificativa da sua existência), o deslumbramento (de Elizabeth, pela Criatura que poderia gerar outras reações, mas a deixa mesmerizada) e a tristeza (da Criatura, pela dolorosa solidão que o acompanha como uma condenação) abraçam as personagens com altas doses dramáticas. Quanto ao subjetivismo, é de se notar que a divisão do filme em dois atos (antecedidos de um prólogo) faz parte da intenção de contar a história a partir de dois pontos de vista. Primeiro, é Victor quem explica o seu backstory até o momento em que encara a Criatura com ódio; depois, é a Criatura quem narra (ambos mediante voice over, inclusive) o que lhe aconteceu depois de se separar do seu criador.

Essa divisão é coerente com o estilo da literatura que marca o romance de Shelley, mas não funciona bem. O prólogo serve para traçar o presente diegético, ao passo que os dois atos compõem o pretérito. Ocorre que não há uma articulação adequada entre essas linhas temporais, salvo para demonstrar que a Criatura persegue Victor (por um motivo esclarecido posteriormente), o que é pouco se considerada a ambientação criada para o presente. O capitão e seus marinheiros não têm relação nenhuma com a dupla, o que não seria uma falha se eles passassem a ter, o que não ocorre. Trata-se de um presente extremamente raso, em um local que, no máximo, serve para demonstrar a força da Criatura, mas sem desenvolvimento próprio. Outro problema reside no fato de que o primeiro ato não tem uma fração do encanto do segundo, que é muito mais instigante. A história de Victor é absolutamente ordinária e ele não é um protagonista minimamente carismático. A atuação de Oscar Isaac no papel é razoável, mas até nisso o segundo ato é melhor, pois Jacob Elordi é excelente interpretando a Criatura. Expressivo no olhar e na linguagem corporal, Elordi torna sua personagem alguém frágil (apesar do tamanho), além de infantilizado em razão de uma prosódia lenta. Christoph Waltz e Mia Goth também estão no elenco, mas são mal aproveitados.

Enquanto o romantismo tem ampla presença no filme, o horror gótico é mais imagético do que em outros aspectos. O design de produção mergulhado na arquitetura gótica é nada menos que encantador, com destaque para a Torre (as raízes de hera se espalhando, metáfora para a prevalência da natureza sobre a humanidade) e suas esculturas. As cores intensas amplificam essa atmosfera, com um jogo de luzes que não afeta a visibilidade. A trilha musical, por sua vez, é belíssima. O que decepciona, todavia, é a timidez do gore: os animatrônicos são artificiais (não têm aspecto humano, mas de robôs) e falta sangue para caracterizar um horror. A carne humana parece de borracha, o que inclui a Criatura. A maquiagem elaborada em Elordi não é ruim, mas também não é boa quando se considera que ele é facilmente reconhecível e que (justamente por isso) ele não provoca o asco que deveria. Colocar um galã sem maquiagem pesada no rosto (afinal, ele ainda precisa ficar reconhecível) prejudica a sensação de horror que a Criatura deveria estimular, tornando-a assustadora – em razão do desconhecido que representa – ao invés de asquerosa (afinal, ela é uma “colcha de retalhos” de matéria orgânica morta, como isso poderia não ser asqueroso?).

Esteticamente, “Frankenstein” é formidável, causando encanto, mas nunca horror. Uma das principais características da Criatura de Mary Shelley é o fato de provocar uma repugnância precedente à empatia que provoca. Os monstros de del Toro são seres vulneráveis e incompreendidos, não sendo este uma exceção. Como criador, o cineasta é tão apaixonado por suas criaturas que não permite que elas sejam minimamente detestáveis, mesmo que isso pudesse melhorar seu filme.