“HAMNET: A VIDA ANTES DE HAMLET” – Buckley e Agnes
Provavelmente em virtude do brilhantismo de sua obra, pouco relativo à vida de William Shakespeare é explorado na ficção, especialmente no cinema. HAMNET: A VIDA ANTES DE HAMLET é uma cinebiografia inteligente porque, além de fazer um recorte cronológico, adota um ponto de vista no qual o protagonismo é exercido não pelo célebre escritor, mas por sua esposa.
Muito antes de se tornar famoso, William Shakespeare era conhecido em sua cidade como alguém estudioso, mas seus conterrâneos não nutriam muita simpatia por ele. O relacionamento com Agnes, sua esposa, se inicia mesmo em contrariedade aos familiares de ambos, mas representa uma união capaz de superar, à sua maneira, um trauma devastador.

O filme é baseado no romance “Hamnet”, de Maggie O’Farrell, que assina o roteiro junto da também diretora Chloé Zhao. No fundo, ele constitui uma cinebiografia, mas sua ideia é limitar a trama para os anos que se passam entre a aproximação entre William e Agnes e a apresentação da peça “Hamlet” em Londres. Esse recorte é fundamental em termos narrativos porque é o que permite um crescendo fenomenal: o que é interessante não é propriamente o romance entre os dois, nem a família que constituem, mas um evento que abala a estrutura familiar e, sobretudo, reverbera na mencionada peça. Embora o filme seja lento e sem grandes surpresas em seus dois primeiros atos, o terceiro ato é emocionante porque causa uma explosão de sentimentos, da surpresa à comoção, em especial por parte de Agnes e, por via de consequência, do espectador também. Se os dois primeiros terços do longa são ordinários, o encerramento é extraordinário por ser arrebatador, uma vez que ressignifica a conduta de William até então e esclarece um significado profundo em “Hamlet”.
Trata-se de um final extremamente emocionante em termos de trama, mas também em virtude das atuações, com destaque para Jessie Buckley e Noah Jupe. Buckley interpreta Agnes como uma esposa devota e apaixonada, mas cada vez mais decepcionada com a distância, literal e metafórica, do marido em relação ao núcleo familiar. Seu comportamento no ato final parece um ato da natureza, o que faz sentido se considerada a intimidade entre a personagem e a floresta. O trabalho de Buckley é preciso em relação ao tom, carregando a interpretação com maior intensidade somente quando isso se mostra necessário (como na cena do parto). A atriz tem boa química com o resto do elenco – notadamente Paul Mescal, no papel de Will, e Joe Alwyn, no papel de Bartholomew -, porém acaba por ofuscá-los por força da pujança (e da importância) da personagem. A única exceção talvez seja Jupe, cuja personagem tem brilho próprio ao deixar Agnes mesmerizada em um momento crucial.
O longa pode ser visto como uma cinebiografia de Shakespeare, pois é ele o famoso na História. Todavia, o ponto de vista adotado é o de Agnes, que se torna a lente pela qual os fatos são enxergados. Para dar-lhe destaque imagético, seu figurino em cores rubras destoa na fotografia bucólica, tornando o azul acinzentado das vestimentas de Will ainda mais opaco. Existem aspectos da vida dele que são também relevantes, como a vida tumultuada com o pai, mas ainda mais central é tudo aquilo que concerne a Agnes. Exemplo disso é a sua caracterização como a filha da “bruxa da floresta”, o que, primeiro, a opõe ao marido (que deseja estar cada vez menos naquele ambiente), e, segundo, a molda com tons sobrenaturais que valorizam ainda mais alguns desdobramentos da trama. Quando ela diz para o filho que o vislumbra, em certo contexto, em Londres, isso pode parecer uma simples palavra refletindo o afeto materno, mas possui uma camada mais profunda que enriquece acontecimentos posteriores.
Em outras palavras, o filme é de Shakespeare, mas, antes, é de Agnes. A ausência dele na tela tem uma função narrativa relevante, pois a motiva a agir, mas também exerce uma função simbólica, pois ela é mais importante do que ele. Alguns momentos impressionam pela composição estética – o naturalismo da mise en scène, a prevalência de sons intradiegéticos etc. -, mas emocionam verdadeiramente graças à atuação de Buckley e ao olhar de Agnes, que representa o olhar da plateia. Mais do que uma curiosidade histórica, o filme mostra como a arte pode traduzir sentimentos de formas variadas, tanto por parte de quem a elabora (o artista) quanto de quem a aprecia (o público).


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

