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“HONEY, NÃO!” – As aventuras de uma detetive

Não fique refém das expectativas criadas com os materiais promocionais de um filme. Tente não limitar seu gosto a uma mesma estrutura narrativa ou a uma trama específica. Se não estiver atento a esses conselhos, o espectador pode desperdiçar diferentes experiências com o cinema e surpresas muito agradáveis. HONEY, NÃO! parece fazer os dois alertas quando sugere que está além de uma história de mistério a ser desvendada. Eventualmente, algumas perguntas podem surgir e o suspense pode se colocar na trajetória dos personagens. Efetivamente, o interesse maior reside em sua protagonista.

(© Universal Pictures / Divulgação)

Honey O’Donahue é a figura a ser acompanha de perto. Ela é uma detetive particular que atua em uma pequena cidade na Califórnia. Quando é chamada para uma cena de acidente automobilístico fatal, descobre que a vítima era uma potencial cliente que, no dia anterior, havia marcado uma reunião. A partir daí, as peças de um quebra-cabeça começam a se dispor em um tabuleiro. O caso tem relação com uma misteriosa igreja comandada como um culto pelo reverendo Drew Devlin, que mantém um vínculo nada cristão com um grupo de criminosos franceses.

A sinopse dá a entender que a investigação para a solução do mistério deve ser o fio condutor da narrativa. Apesar disso, os primeiros minutos se desviam de uma trama clássica de suspense policial. Isso porque a sequência de abertura antes dos créditos iniciais não apresenta um momento de tensão para a revelação da vítima, além de explorar uma abordagem contemplativa na interação entre os personagens e o ambiente. Os próprios créditos iniciais reforçam uma sensibilidade específica que remete a outros trabalhos de Ethan Coen, através do travelling por várias áreas interioranas e de uma trilha sonora country. A ambientação ganha novos contornos e adquire um teor crítico aos EUA contemporâneo (possivelmente influência da companheira do cineasta, a roteirista Tricia Cooke): por exemplo, a menção a uma ilustração de repúdio ao capitalismo em um muro e um diálogo em que a funcionária de um bar alerta para os perigos de votar em republicanos.

Em pouco tempo, a dupla de realizadores subverte sua fonte de inspiração. É visível que filmes de detetive dos anos 1940 e 1950 serviram de referência, mas não como uma base estática a ser conservada sem mudanças. Em vez de contar com um personagem principal masculino, eles optam por escrever uma protagonista lésbica. No lugar de um mistério que precisa ser elucidado, eles lidam de modo pouco usual com a necessidade de dar respostas para solucionar os crimes. Em primeiro lugar, núcleos aparentemente desconexos se encontram, como aquele em que um homem tenta contratar Honey para investigar uma possível traição do namorado e outro em que um sujeito tem um encontro com um traficante em um bar. Em seguida, falsos enigmas surgem como se tivessem alguma importância em novos conflitos, como a aparição de um misterioso idoso na lanchonete onde trabalha a sobrinha de Honey, e logo são descartados. Até aqueles problemas que, de fato, são centrais para a trama encontram uma resolução inesperada e sem a participação da protagonista, como o envolvimento de Drew na venda de drogas.

O mistério também deixa de ser preponderante quando Ethan Coen utiliza mais uma vez um tipo de humor mórbido ou ácido. Em algumas passagens, a comédia pode fazer parte de uma representação caricatural de determinadas figuras e instituições a serviço da crítica a ser trabalhada. Assim, Drew, interpretado por Chris Evans, é um reverendo egocêntrico que mobiliza um discurso religioso incoerente para atender aos seus próprios desejos carnais ou financeiros sem levar em consideração os fiéis. Nada melhor do que as cenas de pregação na igreja ou de sexo com mulheres da congregação para indicar as hipocrisias da manipulação da fé. Em outros momentos, o humor surge de uma situação inusitada que não poderia ser prevista, sobretudo quando ocorre em meio a uma ação violenta. É dessa maneira que o diretor filma as mortes de funcionários de Drew após uma série de erros dos personagens e a resolução das divergências entre o reverendo e Chère em relação ao negócio das drogas após uma cena de sexo.

Certamente, o aspecto que mais reorienta a narrativa para ir além de uma trama de mistério é a força da protagonista vivida por Margaret Qualley. A investigação é um mero pretexto para seguir a detetive e conhecê-la. Na sua vida profissional, trabalha em seu escritório com a assistente Spider sem perder suas manias (o uso de um banco de dados analógico) nem dar tarefas naturais para sua funcionária. Quando se encontra com o policial Marty, troca informações com ele para que se ajudem na solução dos casos e lida com as investidas infantis de alguém que não se dá conta de que jamais teria qualquer chance. Na sua vida pessoal, convive com a irmã e os cinco sobrinhos em uma rotina que não se afasta do humor absurdista típico do cineasta. A comédia reaparece quando Honey presencia as brigas entre os irmãos e interage com o sobrinho mais novo, que gostaria de se casar com a tia mesmo sendo contra a lei e se preocupa com o sangue da menstruação da irmã. As relações familiares são tão importantes que, em dado instante, o mistério em relação ao acidente de carro, à identidade da vítima e o papel da igreja cede lugar para o mistério em torno do desaparecimento da sobrinha Corinne.

Acompanhar o cotidiano de Honey significa também observar suas experiências amorosas e sexuais. Este filme pode integrar um conjunto de produções em que Ethan Coen e Tricia Cooke trazem personagens queer e abordam com naturalidade romances homossexuais e identidades de gênero não heteronormativas, assim como ocorreu em “Garotas em fuga” de 2024. Dessa vez, o diretor e a roteirista retratam os relacionamentos casuais das protagonistas e as intimidades de cenas eróticas sem banalizá-las e ou estabelecer um olhar de fetiche pelo corpo feminino. Sendo assim, Honey é apresentado em um de seus encontros que não se desdobram para uma relação duradoura e desenvolve seu arco narrativo até se encontrar com a policial MG Falcone. As duas desenvolvem um relacionamento que poderia ultrapassar um romance eventual e se tornar algo sério, pois a atração física não é o único elemento a marcar a dinâmica entre elas. As sequências em que estão juntas também é o ponto de partida para dividirem questões pessoais, como a relação com a família e a sexualidade.

Por que evidenciar de tantas formas que o mistério não é o elemento central de “Honey, não!“? A obra, nesse sentido, assemelha-se a “O mistério de Silver Lake” ao fazer da investigação uma farsa ou um pretexto para explorar outros aspectos. No trabalho de David Robert Mitchell, o falso mistério seria um recurso para criticar a sociedade do espetáculo e a mediocridade do individualismo do homem médio norte-americano. No projeto de Ethan Coen e Tricia Cooke, a resolução dos enigmas é acidental ou realizada por cenas nada espetaculares, pois o universo diegético em questão não define o suspense como prioridade quando a afirmação da protagonista em contraste com um mundo conservador se impera. As respostas para o acidente de carro e o desaparecimento de Corinne são surpreendentes porque vem de um núcleo aparentemente alheio a esses conflitos. A solução de tais embates novamente recorre à combinação excêntrica de violência e humor já vista anteriormente, como o confronto final que libera um papagaio da gaiola. E o próprio fechamento do arco de Honey resume o que, de mais importante, foi acompanhado ao longo da projeção: a última cena em que a mulher dirige a coloca em um encontro fortuito para lhe dar mais explicações para os crimes cometidos e, principalmente, sugere mais um caso amoroso. No fim, fica a sensação de que estamos diante das aventuras da detetive Honey, praticamente no formato de uma série, em que um episódio foi exibido, mas ainda haveria muito mais a ver.