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“HORA DO RECREIO” – Arte, vida e educação

Em muitas escolas, predomina ainda uma concepção restritiva da educação brasileira. Os estudantes deveriam ser formados para o mercado de trabalho. As aulas de disciplinas de humanidades ou de linguagens abordariam seus conteúdos programáticos sem diálogo com a realidade dos jovens ou o presente do país. E o ambiente escolar seria neutro ou objetivo sem recortes de classe, gênero, raça e orientação sexual. HORA DO RECREIO é um filme que rompe com esses chavões e parte do sistema educacional brasileiro para integrá-los à politização da arte e das experiências juvenis marginalizadas pelo capitalismo, patriarcado, racismo e pela homofobia.

(© Taiga Filmes / Divulgação)

Na interseção entre documentário e encenação ficcional, a obra discute a educação brasileira e as condições sociais de áreas periféricas a partir do ponto de vista de estudantes da rede pública de ensino. As falas de estudantes entre 14 e 19 anos trazem à tona temas relativos às vivências escolares e pessoais em diferentes bairros e comunidades do Rio de Janeiro. Em paralelo aos debates mediados pelos professores, algumas manifestações artísticas de origem negra ou relacionadas aos locais por onde a narrativa passa também são apresentadas.

Quatro escolas receberam contato da equipe do filme. Em duas delas, uma roda de conversa é feita pelos docentes para que os docentes do Ensino Fundamental e Médio debatessem questões variadas que afetam suas vidas. Tais debates passam pela violência contra a mulher, o racismo, a homofobia, o papel da escola no combate à discriminação, o processo de autorreconhecimento como pessoa negra e as ações diárias de preconceito em determinados locais ou em relação às características físicas. A profundidade das falas é indiscutível, já que transitam com desenvoltura pelo colorismo, por razões estruturais para a violência sofrida ou testemunhada e críticas à falta de acolhimento dos profissionais dos colégios. Além disso, os relatos pessoais fazem com que todos se emocionem por reviver na memória o que passaram ou se identificarem com uma situação similar. Em outros instantes, o humor e a inocência encontram espaço para lembrar sobre o horário do recreio ou perguntar se determinada atividade será avaliada com nota.

O fim do primeiro debate entre os jovens revela uma dimensão inesperada: a presença da diretora Lúcia Murat e da equipe de filmagem na sala de aula. A pergunta “Isso é documentário ou ficção?” colocada para eles lembra outros trabalhos da cineasta que mistura as duas abordagens, como “Que bom te ver viva“, “Uma longa viagem” e “Ana. Sem título“. Em seu mais recente projeto, não há propriamente o uso de técnicas ficcionais em um documentário, mas a autoconsciência de exibir que a narrativa não é uma janela direta para o mundo, mas um conjunto de dispositivos fílmicos que responde às subjetividades da autora. Mesmo que o procedimento não seja utilizado em outros momentos para criar uma dinâmica entre os estudantes e os realizadores, Lúcia Murat volta a evidenciar o processo de construção do filme. As dificuldades de filmar são apresentadas na abertura, feita em outra locação por conta da recusa da direção de permitir as filmagens na primeira escola, e na sequência seguinte, que mostra, pelas redes sociais, como a violência urbana impediu a abertura da segunda escola em dois dias consecutivos.

Ao mesmo tempo que o documentário não impõe uma fala única contra a perspectiva dos alunos e permite a eles conduzir os debates a partir de suas leituras de mundo, possibilita também formas de expressão pela arte. Enquanto a câmera observa o deslocamento de crianças e adolescentes pelas ruas até as escolas, a trilha sonora varia entre canções interpretadas por Djonga e Coyote Beatz que analisam, através da letra do rap, a situação da periferia ou a agência de seus moradores. Em cenas posteriores, os estudantes participam de uma apresentação teatral, filmada sem diálogos e potencializada pelo poder expressivo dos corpos em movimento. Os atores juvenis interpretam questões referentes ao racismo e à violência policial. E a montagem intercala a encenação teatral e outras passgens em que as temáticas sociais, raciais e educacionais são discutidas, demonstrando como é possível se manifestar de diferentes maneiras. A música e o teatro aparecem integrados às atividades escolares e à narrativa cinematográfica, o que faz o debate proposto se disseminar por várias áreas sociais e não se restringir apenas no roteiro, mas também na construção estética do filme.

Cinema, teatro, escola, arte e cultura continuam se encontrando em outras experimentações narrativas que a diretora cria. Nas últimas escolas visitadas, os docentes vivenciam o encontro entre passado e presente para apropriar-se de lutas sociopolíticas dos seus descendentes ou da sociedade como um todo na realidade em que estão. Uma atividade guiada pelo centro do Rio de Janeiro os apresenta à mobilização de outros estudantes pela redemocratização do país nos anos 1980 e rememora a chacina da Candelária, quando pessoas em situação de rua foram brutalmente assassinadas. Na mesma visita, tem contato com a capoeira e sua história ligada aos povos africanos. Outra escolha inspirada da obra ocorre na última escola, que realiza uma atividade de diálogo entre passado e presente a partir de um livro escrito por Lima Barreto. A montagem paralela encadeia uma roda de conversa, na qual os alunos trazem para a atualidade as questões discutidas pelo autor a respeito da pessoa negra no início da República, e uma apresentação teatral dos próprios jovens sobre o material literário.

Hora do recreio” é um projeto que combina muito bem com a filmografia de Lúcia Murat e extrapola as questões criativas norteadoras do trabalho da cineasta. Da mesma forma que as obras que ela dirigiu sobre a ditadura civil-militar brasileira ou sobre temas sociais mais gerais da história do Brasil, este documentário expõe a autoconsciência do fazer cinematográfico como um recorte da realidade. Além disso, investiga a inter-relação entre a arte e discussão política como já havia feito em “Ana. Sem título“, colocando lado a lado o cinema, a música e o teatro. Existe ainda uma potência social e identitária que emerge dos adolescentes que falam, atuam e se expressam diante da câmera. Mesmo que o roteiro do documentário tentasse direcionar as discussões, eles fazem suas próprias vivências, visões e anseios prevalecerem. Assim, fica latente que uma aula na escola vai muito além de programas normativos, conteúdos tradicionais e abordagens convencionais. Trata-se de um ambiente que dialoga com a arte e sociedade continuamente.