“ISSO AINDA ESTÁ DE PÉ?” – Under pressure
A vida cotidiana enseja múltiplas vias de estresse. Existem pressões sociais, profissionais, familiares e existenciais, por exemplo. Em razão disso, as pessoas buscam uma válvula de escape que lhes permita aliviar tamanha tensão. A solução, porém, está no amor e na compreensão. Esta piegas ideia governante norteia a canção “Under pressure”, que, não à toa, é um elemento importante de ISSO AINDA ESTÁ DE PÉ?.
O casamento de Alex e Tess está arruinado, situação que parece irreversível. Desiludido, ele acaba acidentalmente apresentando um stand-up em um bar de microfone aberto ao público. A sensação é tão boa que ele decide repetir a experiência. Enquanto isso, ela tenta dar um novo rumo à própria vida.

Os problemas enfrentados pelo casal principal certamente não são sociais. São pessoas brancas, heterossexuais, cisgêneras, com dois filhos biológicos, e com ótima saúde financeira, para dizer o mínimo. Seus problemas são existenciais e relacionais: o que não estava dando certo no casamento para que houvesse o rompimento? Quem não estava satisfeito? Qual era a insatisfação? Diante da natureza desses problemas, uma demanda essencial seria, naturalmente, um bom elenco, quesito no qual o longa é impecável.
Muito mais habituado à comédia (e a trabalhos de dublagem, geralmente também cômicos), Will Arnett é uma grata surpresa em um papel dramático, no qual demonstra não uma mera versatilidade, mas atributos pouco mostrados em seus trabalhos pretéritos. Ainda que o roteiro forneça poucas informações sobre o perfil de Alex – no máximo, a origem familiar, o círculo de amizades e o trabalho com finanças, sem maiores detalhes -, Arnett consegue dar profundidade à personagem, que transita entre a melancolia de um homem maduro que se sente em um beco sem saída e a alegria juvenil de um homem que, apesar de maduro, sente que há uma luz no fim do túnel. Na primeira apresentação de Alex, Arnett corporifica a desolação, aparência atenuada à medida que sobe mais vezes ao palco. Ao seu lado está Laura Dern, uma atriz com uma carreira profícua no drama e que, na verdade, brilha quando interage com ele, aparecendo pouco sozinha. Em um pico de tensão na trama, porém, Dern assume para si um dos melhores momentos do filme, um instante decisivo que causa uma mudança em seu encaminhamento.
As soberbas atuações são privilegiadas pelo modo como Bradley Cooper dirige o longa – junto de Arnett e Mark Chappell, Cooper também assina o roteiro, além de interpretar Balls, uma personagem que é um estereótipo estúpido (tanto quanto esse nome) de um ator obcecado pelo seu ofício. A direção é naturalista, reduzindo o trabalho de montagem e privilegiando planos longos, bem como (e principalmente) closes. Quando Alex está no palco, seus sentimentos se escancaram graças à atuação de Arnett, mas se tornam cristalinos em virtude da intimidade com a qual a câmera o trata. Assim, mais do que a apresentação de um humor autodepreciativo, o que se vê é alguém frágil e sufocado por algo que não consegue descrever, mas cujo desabafo se torna imperativo. As pessoas à sua volta podem não compreendê-lo, mas aquela saída parece inescapável para Alex.
A falha de “Isso ainda está de pé?”, contudo, está na vagueza da resposta, que, a rigor, sequer se qualifica enquanto tal. Existem problemas menores, como a instrumentalidade exacerbada dos coadjuvantes: a cena em que a personagem de Andra Day explica por que nutre antipatia por Alex, por exemplo, é de diminuta relevância, assim como o subplot que a envolve a partir do ponto de vista da personagem de Cooper. Porém, o filme deixa a desejar quando encontra a solução piegas indicada pela música antes mencionada. Para além de um encaminhamento previsível da narrativa, a solução na qual se afirma que a empatia e o afeto solucionam todos os problemas é simplista e vazia. (AVISO: o que segue pode ser considerado spoiler) Em um diálogo, Alex afirma a Tess que encontrou a salvação para todas as adversidades. Todavia, o que ele detectou é na realidade uma nova adversidade, de natureza pessoal (ao invés de interpessoal), nada mais. O problema, portanto, não estava em nada que fora apresentado ao público, mas em algo completamente fora da sua órbita e cuja avaliação é obstada em razão da ausência do backstory do protagonista. Nenhuma solução é mais fácil do que mudar o foco e declarar que o amor resolve tudo. Em uma música de poucos versos, pode funcionar, não em um filme de quase duas horas.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

