“MARTY SUPREME” – Do eternamente jovem ao melhor do mundo
Ainda que se assemelhe aprioristicamente a uma cinebiografia, MARTY SUPREME não o é. No meio de um drama de esporte, há cenas cômicas, de modo que o resultado não é um drama, tampouco uma comédia. Embora pareça tratar de um esporte, o que é importante é o comportamento do esportista quando não está performando, traduzindo um ethos que o longa pretende criticar.
Marty Mauser é um atleta do tênis de mesa que confia muito em seu próprio talento. Mesmo após uma derrota, ele não se abala, preparando-se para uma revanche. A oportunidade, porém, pode ser difícil em razão de obstáculos financeiros e de sua tumultuada vida pessoal.

O filme não cria uma personagem completamente fictícia, como é feito em “Tár”. Marty Mauser é inspirado em Marty Reisman, um mesa-tenista real. No entanto, o longa se apropria mais de sua personalidade do que de sua vida, inclusive porque o interregno no qual a trama se passa é de menos de um ano. O diretor Josh Safdie, junto do corroteirista Ronald Bronstein, molda a narrativa a partir de uma persona pouco simpática, mas muito obstinada. Reclamando de qualquer mínima adversidade, Marty se insurge contra a cor das bolas, contra a raquete usada pelo seu rival e mesmo contra um cabo de microfone. Inconsequente, ele pratica um delito e arrisca a própria vida para conseguir o dinheiro que precisa para participar de um torneio. Exibicionista, faz troça com o esporte em uma competição oficial para animar o público, como se fosse um showman. Mau perdedor, culpa qualquer circunstância por uma derrota, jamais uma falha própria. Não obstante, encará-lo apenas como alguém prepotente é uma visão simplista, pois Marty é, acima de tudo, um homem devoto ao esporte. Diante dessas nuances, Timothée Chalamet é excelente ao demonstrar a arrogância de Marty sem descartar a dedicação extrema ao tênis de mesa, circunstância que atenua as suas falhas e lhe concede humanidade. Ele não se limita à empáfia, demonstrando também cinismo (como na cena do restaurante) e mesmo vulnerabilidade (melhor explorada ao final).
Mais do que isso, Marty é uma expressão do american way of life, o que se denota logo após os créditos iniciais (com a frase “made in America” abaixo do título) e, é claro, do discurso do protagonista. O período em que o filme se passa é 1952, quando emergia um pensamento escapista (pós-guerra) voltado à valorização do trabalho e da livre iniciativa enquanto vias para o sucesso pessoal e, portanto, para a felicidade (é de se lamentar, todavia, que o filme não aborde com profundidade as repercussões da Guerra, limitando-se a um confronto simbólico EUA-Japão). Marty não é cego pela ambição de ser o melhor do mundo – e vencer o seu “nemesis” (para parafraseá-lo), em uma rivalidade mal trabalhada diante da neutralidade do rival -, mas pela autoconfiança exacerbada, que permeia o seu ser e faz com que se sinta invulnerável. Ele é – ou acha que é – o self-made man, alguém que acredita prosperar exclusivamente por força do próprio empenho, o que o possibilita não fazer planos para o futuro (afinal, na sua lógica, a sucesso é inevitável).
Com base nesses ingredientes, ao invés de optar pela comédia ou pelo drama, Safdie entrega um pouco de cada um, dado que seu anti-herói encara uma série de dificuldades para se aproximar de seu objetivo, o que, porém, ocorre em situações farsescas, como jogar com um animal, fazer acrobacias enquanto joga e se hospedar em um local que pode lhe causar novos problemas. O diretor cria uma atmosfera caótica – com breves respiros – na qual explode uma energia frenética quase digna de um filme de ação. Por exemplo, na sequência da banheira, quando a parte mais desgovernada parece ter passado, surgem mais pessoas em uma cena na qual várias falam ao mesmo tempo. São vários os momentos em que se instaura o caos, o que é divertido em razão da imprevisibilidade. O roteiro tem clichês (como o triângulo amoroso e o empresário malvado), lacunas (em especial no backstory das relações do protagonista, como com a mãe e com os amigos) e personagens mal trabalhadas (sobretudo as femininas, vividas por Odessa A’zion e Gwyneth Paltrow), mas o ritmo anárquico da trama é uma de suas maiores virtudes.
A trilha musical do longa é ótima em seu tom épico nas cenas agitadas, sendo ainda simbólica a escolha de duas canções. No início, “Forever young” traduz o espírito juvenil de Marty, um jovem que, à primeira vista, não parece ter amadurecido. Ao final, “Everybody wants to rule the world” representa a vontade de Marty em ser o melhor do mundo. No todo, o filme é uma crítica à lenda da autossuficiência e da meritocracia, ressaltando que é necessário por vezes se despir do orgulho para tentar se realizar.
Em tempo: (SPOILERS a seguir) em princípio, a vitória de Marty contra Endo (Koto Kawaguchi) significaria um triunfo do seu empenho ao invés de uma crítica nos termos supramencionados. Essa interpretação, contudo, é limitada, uma vez que ignora, primeiro, que ele apenas conseguiu ir ao Japão após se humilhar para Rockwell (Kevin O’Leary), ou seja, a viagem não foi fruto de seu trabalho, e, segundo, que, mesmo tendo vencido aquela partida, Marty não participou da competição oficial e, portanto, naquela oportunidade, não se tornou o melhor do mundo. A vitória o satisfez, mas não plenamente, considerando suas ambições.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

