Nosso Cinema

A melhor fonte de críticas de cinema

“O BEIJO DA MULHER ARANHA” (1985) – Amor, imaginário e cinema

Nos últimos anos, o público brasileira assistiu a filmes que abordaram as relações entre indivíduos e ditaduras. Essa é a base de “Ainda estou aqui“, de 2024, e um dos elementos de “O agente secreto“, de 2025. A premissa também faz parte da nova versão de “O beijo da Mulher Aranha“, a ser lançada em 2026. Em geral, muitos podem esperar que a história seja sobre a luta contra governos autoritários. Porém, nenhuma das obras citadas se baseia propriamente no referido embate. O mesmo já poderia ser visto em O BEIJO DA MULHER ARANHA de 1985, que optou por um microcosmo delimitado para tratar dos encontros simbólicos e amorosos com a alteridade.

(© Europa Filmes / Divulgação)

Em uma prisão na América do Sul, dois prisioneiros diferentes dividem a mesma cela. Um deles se chama Luis Molina, um homem homossexual que está preso por corrupção de menores. O outro é Valentin Arregui, um preso político que está detido em função de seu apoio a um movimento revolucionário. Enquanto o primeiro tenta fugir da triste realidade, o segundo se esforça para manter a politização. Por mais que as diferenças entre eles pudessem afastá-los, a convivência os aproxima e os faz compreender e respeitar um ao outro.

De início, Luis e Valentin parecem opostos. William Hurt cria o primeiro como alguém que abraça uma sensibilidade e trejeitos supostamente femininos, organiza sua área na cela com suas vestimentas e fotografias de estrelas do cinema e se deleita com as memórias do romance de um filme adorado por ele. Raul Julia constrói o segundo como um sujeito que mantém um comportamento disciplinado em relação à luta política, reage contra os policiais violentos da prisão, esconde grande parte de sua vida pessoal em favor da proteção de pessoas amadas e omite suas próprias emoções como se fosse algo menor. Eles também entram em atrito. Luis questiona o fato de Valentin não desfrutar do simples prazer de uma fruta saborosa, já que o sentimento apenas seria válido com a revolução. Já Valentin critica o fato de Luis se alienar porque não compreende que o romance de que tanto gosta está presente em um filme de propaganda nazista.

Tais caracterizações podem soar como caricaturas sem nuances. Então, o desenvolvimento dos dois personagens vai além das primeiras características atribuídas a eles. O diretor Hector Babenco utiliza as ferramentas disponíveis pelo cinema para evidenciar outros aspectos de seus protagonistas, sendo um dos mais recorrentes os flashbacks que representam fluxos de consciência dos dois homens. Luis pode suspirar pelo romance idealizado que viu em um filme, mas sofre por ele mesmo não encontrar o amor. Nesse ponto, conta para seu colega de cela sobre a paixão platônica desenvolvida pelo garçom Gabriel. Valentin pode dar a entender que controla muito bem seus sentimentos, contudo não consegue mandar no coração quando se trata de relacionamentos. Nessa questão, conta ao outro detento sobre o amor que nutre por Martha apesar de esta ser da classe dominante e tentar convencê-lo a deixar a luta política. Ainda que os relatos possam carregar certa tristeza, funcionam igualmente como respiros para levar a narrativa para fora do cenário da prisão com suas diversas formas de violência.

Além das camadas complexas nas descrições dos personagens, a convivência entre eles também muda. A própria essência do filme é destacar a relação entre os dois prisioneiros e a criação de um carinho mútuo. As discordâncias de temperamento e de visão de mundo cedem lugar aos pequenos gestos que mostram a delicadeza e o cuidado pelo outro. Nos momentos em que Luis se sente mal ou teme pela saúde da mãe, Valentin pede para que ele conte sobre o filme de que tanto gosta como uma maneira de resgatar bons sentimentos. Quando Valentin adoece e sofre de diarreia, Luis o ajuda a se limpar e a não perder a dignidade em uma situação vulnerável. Hector Babenco traduz visualmente o fortalecimento do convívio entre os dois através de movimentos de câmera que deixam de registrar o interior da prisão em planos abertos para se aproximar gradualmente das expressões dos atores ou a dinâmica em dupla de William Hurt e Raul Julia. Ao mesmo tempo, é verdade que ambos precisam lidar com aspectos específicos de suas identidades que se chocam com o amigo.

O aparente descaso de Luis pela atuação política de Valentin em um grupo revolucionário é ressignificado quando os espectadores descobrem o acordo feito pelo primeiro com os agentes do governo. A amizade seria mediada por interesses egoístas que colocariam o colega de cela em perigo? As suspeitas iniciais são desfeitas rapidamente e o acordo se revela uma estratégia para obter alguns benefícios que deem um pouco de prazer aos dois presos. Acima de tudo, os protagonistas se transformam para serem, de alguma maneira, mais parecidos com o outro. Valentin repensa a hostilidade demonstrada em relação à orientação sexual de Luis e, em certo dia, corresponde à busca por carinho do amigo como um gesto de retribuição a tudo que receber anteriormente. E Luis aceita ajudar a organização política da qual Valentin faz parte, arriscando-se a transmitir clandestinamente uma mensagem para os guerrilheiros quando o pedido de condicional é aprovado. O processo de abertura que ambos fazem em direção à alteridade é também capaz de reelaborar o uso dos trechos da obra narrada pelo personagem de William Hurt.

Desde o princípio, fica visível que a narração do filme por Luis não é exata e se baseia nas mudanças geradas por sua memória e subjetividade. Então, um impasse é criado com relação à análise dessa produção. Trata-se, claramente, de uma propaganda nazista que enaltece o regime autoritário e condena os judeus e a resistência francesa à dominação alemã. Então, Valentin se recusa a observá-lo de outra forma que não seja a partir de uma leitura política crítica. Já o seu colega dá mais valor à beleza das roupas, das festas e, sobretudo, ao romance em tons trágicos de sacrifício vivido pela protagonista. À primeira vista, pode parecer que Luis utiliza as recordações daquelas imagens para se alienar e escapar da realidade em direção a uma fantasia segura. No entanto, a progressão da narrativa problematiza uma leitura mais óbvia ao estabelecer paralelos entre o filme dentro do filme e o arco dramático dos dois homens. E se as duas dimensões (romance e propaganda nazista) se comunicam, em certos aspectos, com as trajetórias percorridas pelos prisioneiros?

A possibilidade fica mais evidente no terceiro ato. Os protagonistas estão separados geograficamente, mas os destinos que alcançam possuem semelhanças. Assim como no romance de que tanto gosta de lembrar, Luis precisa fazer um sacrifício por perceber que não pode se manter sempre distanciado das questões políticas de seu tempo. Em paralelo, Valentin se dá conta de que o engajamento político, como a luta contra regimes opressores de inspiração fascista, não precisa se apartar de elementos pessoais e emocionais como se um deles eliminasse, necessariamente, o outro. Nas últimas sequências em que eles aparecem, as conclusões se manifestam trabalhando até mesmo abordagens distintas. Se o desfecho de Luis começa com certo lirismo e atinge um realismo maior, o encerramento de Valentin segue a ordem inversa. Em síntese, “O beijo da Mulher Aranha” direciona o olhar para o surgimento do amor na convivência entre figuras tão diferentes e em um contexto hostil de violência e autoritarismo. E isso apenas seria possível a partir do poder do imaginário e do cinema na constituição de indivíduos e trajetórias.