“O BEIJO DA MULHER ARANHA” (2025) – Mais romance em uma versão musical menos política
Para ser brilhante, falta à versão de 2025 de O BEIJO DA MULHER ARANHA um discurso político mais contundente. Quando comparado a “O beijo da Mulher Aranha” de 1985, o longa de 2025 é mais sólido no diálogo entre suas narrativas internas, ora por ampliar o espaço do(s) romance(s), ora por atribuir mais cenas às personagens femininas vividas pela mesma atriz. Além disso, suas cenas musicais são esplendorosas. Entretanto, a timidez política impede que a obra atinja um patamar ainda mais alto.
Na Argentina dos anos 1980, Valentín Arregui e Luis Molina são presos que dividem uma cela na ala dos presos políticos. Muito diferentes, eles começam a se afeiçoar à medida que este compartilha com aquele a história de seu filme preferido.

As versões de 1985 e 2025 compartilham a mesma essência em termos de trama, pois têm seus roteiros baseados no livro de Manuel Puig. O longa dirigido por Bill Condon, contudo, é também baseado no texto do musical da Broadway desenvolvido por Terrence McNally, um enorme diferencial. Outra distinção notável se refere ao tom: enquanto Babenco foca na efervescência política da época intradiegética e extradiegética (brasileira e argentina), Condon ameniza o clima aterrorizador da ditadura ao expandir os aspectos românticos da trama. O Zeitgeist não é eliminado, tampouco Valentín se torna alienado, mas o filme evita uma verticalização em temas políticos e, sobretudo, permite que o romance os ofusque. Isso se reflete esteticamente, por exemplo, pela imagética da cela da dupla (que, comparativamente com a obra de Babenco, é bem iluminada e tem pouca sujeira), e pelos números musicais contagiantes. Além disso, o filme narrado por Molina deixa de ser um thriller romântico de guerra envolvendo propaganda nazista para tratar de um amor cujos inimigos são gângsters, algo bem mais neutro politicamente e sem a mesma tensão. O máximo que Condon chega a inovar nesse campo é a fala de Molina de que “não importa o quanto tentem fazer La Luna parecer americana, ela nunca deixou de ser latina” (seria uma afirmação relativa também à sua intérprete da vida real?), o que acaba sendo irônico quando considerada a prosódia hispânica das personagens falando inglês na América do Sul. Dado que o filme se passa no período ditatorial argentino, reduzir a política é uma falha.
Por outro lado, ao privilegiar o romance, o filme protagonizado por La Luna (cuja personagem se chama Aurora) funciona melhor como escape e dialoga melhor com o cerne da personagem que aparece no título do longa. Com inteligência, Condon faz um espelhamento entre as duas narrativas – a primária (a diegese em si), entre Molina e Valentín, e a secundária (intradiegética, narrada por Molina), envolvendo Aurora e a Mulher Aranha – que se torna ainda mais sagaz na medida em que, diferentemente da versão de 1985, todos estão no filme dentro do filme. Diego Luna interpreta Valentín, mas também Armando, o par de Aurora, que, assim como Luna e a Mulher Aranha, é vivida por Jennifer Lopez, personagem que tem ao seu lado o devoto Kendall, tão devoto quanto Molina, ambos interpretados por Tonatiuh. Curiosamente, a obra faz uma rede na qual a intertextualidade não se restringe às coincidências da trama (como o romance entre Armando/Valentín e Aurora/Marta), passando também pelo uso do elenco para papéis variados e pelo entrelaçamento, através da montagem, entre narrativas e cenas musicais (por exemplo, quando Molina fala que quer ser Luna, Kendall canta “She’s a woman” enquanto simula ser uma mulher). Tudo isso ocorre mediante uma engenhosa projeção na subjetividade mental, pois a narrativa secundária surge na tela como fruto da imaginação compartilhada dos dois encarcerados.
No que se refere ao lado musical, “O beijo da Mulher Aranha” é incrível. Embora as letras das canções sejam pedestres, seu ritmo de salsa é contagiante, empolgando ainda mais com coreografias mesmerizantes. Inspirado em musicais clássicos como aqueles protagonizados por Fred Astaire e Ginger Rogers, além de outros mais recentes como “Chicago”, as danças envolvem passos muitas vezes difíceis (um deles, sublime), reafirmando a acertada escalação de Lopez (atriz, cantora e dançarina), que brilha ora com um grupo de dançarinos à sua volta (tão sensuais quanto ela), ora dançando especificamente com alguém. O design de produção nas cenas musicais é igualmente estonteante, usando cores vivas na decoração dos cenários e no vestuário de Aurora. Por exemplo, em “Her name is Aurora (Gala)”, o quarto com paredes e roupas de cama azul céu e objetos de tonalidade arenosa é sucedido por um salão que se divide entre o âmbar e o azul escuro, deixando Aurora se destacar com um vestido dourado; em “Gimme love”, o verde de sua roupa destoa do cenário vermelho e do preto das roupas dos dançarinos e das mesas. Os números são vulcânicos, grandiosos, tal como os executados na Broadway. Enquanto Lopez se destaca, seus parceiros deixam a desejar: Tonatiuh não alcança o nível da versão de William Hurt; Diego Luna canta mal.
Provavelmente, a versão de 2025 não se tornará um clássico como a de 1985. Trata-se de um filme, todavia, que explora potencialidades de uma mesma história e a reformula a partir de um gênero muito bem executado. Mais politizado, o longa ultrapassaria a qualidade do seu antecedente. Talvez tenha sido melhor assim, sem afetar a estatura do clássico.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

