Nosso Cinema

A melhor fonte de críticas de cinema

“O ESTRANGEIRO” (1967) – Viver e não ter a vergonha de ser feliz

Desde tempos antigos, a humanidade se questiona: qual o sentido da vida? Dentre as diversas correntes que refletiram acerca do tema, uma delas é o absurdismo, do qual Albert Camus foi expoente. Para essa linha de pensamento, resumidamente, há um conflito entre a busca por sentido e a ausência de resposta, do que resulta a percepção de que não há sentido intrínseco à existência, condição que deve ser aceita e contra a qual se deve revoltar mediante uma vida plena e consciente. O ESTRANGEIRO, de 1967, adapta o romance de Camus para o cinema.

Depois de comparecer ao funeral de sua mãe, Meursault segue normalmente com a sua vida, até se envolver em um crime. Seu julgamento, porém, é mais sobre a sua personalidade do que sobre o delito cometido.

(© Dino de Laurentiis Cinematografica / Divulgação)

A adaptação é dirigida por Luchino Visconti, que, com George Conchon e Suso Cecchi D’Amico, assina também o roteiro. A fidelidade é impressionante, com modificações minúsculas que não afetam o espírito da obra de Camus. O longa não consegue transmitir a subjetividade do livro: ainda que haja o emprego de voice over para transmitir os pensamentos do protagonista, o romance é narrado em primeira pessoa e no pretérito perfeito (um passado imediato, não distanciado), o que permite ao leitor enxergar os fatos da sua perspectiva. Por outro lado, o livro possui um subtexto cômico – ou talvez tragicômico – que é enriquecido pela linguagem audiovisual. Destacam-se, nesse sentido, a cena em que Meursault compartilha com os colegas de cela o crime praticado e a que ocorre no parlatório. Naquela, a decupagem é sensacional (os cortes e a panorâmica transbordando ironia); nesta, a sobreposição de vozes enaltece o caos da ocasião.

Embora “O estrangeiro” seja posterior ao neorrealismo italiano, do qual Visconti foi representante, muitas características de seu estilo persistiram, como o intenso zoom in e o uso de chiaroscuro na fotografia, intensificando a tensão psicológica (em especial ao final, que é tão impactante narrativamente quanto imageticamente). Nos cenários e nos figurinos prevalecem tons muito claros, geralmente arenosos, o que é modificado quando surgem os tons amadeirados do tribunal, as togas avermelhadas e a estética sombria do ato final. Na montagem, o diretor privilegia cortes secos e transições rápidas – talvez rápidas em demasia, prejudicando o ritmo -, o que contrasta com a elipse em que utiliza fusão para expor o momento em que Meursault assiste aos vizinhos em sua varanda.

O protagonista é alguém extremamente apático: apesar da bela vista ao fundo quando viaja de ônibus, ele a ignora e dorme; quando se recorda da mãe ao ouvir o choro de Salamano, não sabe por que se recorda (e não reflete sobre isso); diante da possibilidade de mudar de vida, afirma com contundência que não se importa e que “é impossível mudar a vida de alguém”. Seu perfil é a encarnação do absurdismo; ele não busca razões para nada, apenas vive, alheio às vicissitudes com que se depara. Como um estrangeiro, a indiferença de Meursault às emoções é gritante, como se ele marginalizar a si próprio no luto e no amor, por exemplo. Seu romance com Marie (Anna Karina) não deixa de ser um romance, mas é carnal (na cama, na praia…), não passional. Com isso, ele se torna indiferente também aos costumes sociais, insistindo em sua personalidade exageradamente sincera. As respostas que Meursault entrega não são as esperadas pelos demais, o que poderia ser driblado pela mentira, o que, todavia, ele não admite sequer como estratégia de defesa. Ingênuo, reafirma a amizade com Raymond independentemente de considerações morais. A cena em que explica a motivação do crime é o ápice da sua sinceridade radical, interpretada como frieza. Em atuação esplendorosa, Marcello Mastroianni faz de Meursault um homem de olhar vazio, lentidão na fala (primeiro acena com a cabeça, depois afirma que não quer que o caixão seja aberto) e comportamento pacato mesmo quando está no centro da ação. Ao final, todavia, suas emoções afloram com maior vividez, quando se depara com a inevitabilidade da morte e a “indiferença terna do universo”, atingindo, assim, a liberdade. Se a existência não tem propósito específico e se o acaso e a morte são inevitáveis, melhor do que recorrer à moralidade ou buscar soluções metafísicas (tal como a religião) é se revoltar, abraçando a ousadia de viver e ser feliz.

Em tempo: “O estrangeiro” não está no rol dos melhores filmes de Visconti. Ainda assim, é excelente, não se podendo subestimar a conjugação de duas mentes brilhantes.