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“O FIM DA RUA” – Spielberg, mas com alguns diferenciais

Quando O FIM DA RUA se limita às suas referências evidentes, o resultado é medíocre. Porém, quando o filme decide atualizar e, por vezes, subverter aquilo que se consagrou como convenções para o seu tipo de filme, o resultado, ainda que distante da excelência, vai além de uma diversão efêmera.

Durante os anos 1980, a família Platt vive uma vida comum: Denise e Greg têm atritos comuns de casais possivelmente à beira de um divórcio; Audrey começa a ingressar na vida adulta e seus dilemas; Brian enfrenta o início da adolescência; e Starbuck é o amado e travesso cachorro da família. A vida dos cinco deixa de ser comum quando o seu bairro é transportado para o período Jurássico.

(© Warner Bros. / Divulgação)

Quando se fala em dinossauros, e, mais especificamente, aventura de dinossauros, a grande referência é, inequivocamente, “Jurassic Park: o parque dos dinossauros”, de 1993, e, em menor medida, os seus derivados, sobretudo “O mundo perdido: Jurassic Park”, de 1997, ambos dirigidos por Steven Spielberg (ao contrário das sequências). Dirigido e roteirizado por David Robert Mitchell, “O fim da rua” é mais do que um “primo” da saga iniciada por Spielberg, mas uma ode ao próprio Spielberg. Vale dizer, ao invés de criar apenas mais um filme de sobrevivência contra dinossauros, Mitchell acolhe o que há de mais nuclear na obra do consagrado cineasta, adotando o seu espírito.

De um modo geral, a obra de Mitchell é extremamente parecida com os dois filmes jurássicos de Spielberg. Isso ocorre, por exemplo, na progressão narrativa e na tensão das cenas de ação. No primeiro caso, em ritmo cadenciado, o cineasta não entrega com facilidade os desafios a serem enfrentados pelas personagens, mas cria uma gradação – e um verdadeiro suspense – para apresentar as criaturas: a enigmática luz bruxuleante, a queda da energia, o gato na moita, os rastros de sangue, uma sombra que se levanta, uma cauda vista à distância… pouco a pouco, o perigo se aproxima. Quando isso efetivamente ocorre, a sensação de ameaça e urgência é moldada pela trilha musical de Michael Giacchino e por uma decupagem que imita muito o que fora feito por Spielberg. Algumas cenas possuem uma tensão palpável, como a da serpente na casa, mas não têm muita pretensão de originalidade, existindo citações praticamente diretas, como o monte de fezes e a pegada gigante.

Mitchell, todavia, não cria propriamente uma cópia do universo jurássico spielbergiano, mas abraça características mais abrangentes de sua filmografia. Assim, por exemplo, Giacchino apresenta composições muito próximas às de John Williams, que já era parceiro de Spielberg desde os anos 1970 (e continua hodiernamente), com, por exemplo, “Tubarão”, filme que também exemplifica a progressão e a tensão. Estilisticamente, há planos longos focados nos rostos das personagens (com exagero em determinada cena), comumente para enaltecer suas reações diante do extraordinário. Tematicamente, estão lá desde a ingenuidade infantil de “E.T.: o extraterrestre”, representada por Brian (Christian Convery), até os conflitos familiares como aqueles vistos recentemente em “Os Fabelmans”, sem olvidar o apelo humanista de “A cor púrpura” (1985) e “A lista de Schindler”, dentre outros.

Mesmo que as imitações (em tom reverencial) de Spielberg sejam boas, elas são desinteressantes na medida em que, reitere-se, não têm sequer uma pretensão de  originalidade. Ciente disso, Mitchell adiciona elementos de atualização em sua obra. Assim, os dinossauros têm um design diferente do que ficou conhecido nos anos 1990; as personagens femininas têm mais autonomia; há um inesperado espaço para o “insano” e o “estúpido” (termos empregados pela personagem de Anne Hathaway em um diálogo com a de Ewan McGregor) típico das paródias; e, com um senso de realidade, a sexualidade é abordada com fluidez. Aparentemente, “O fim da rua” é um filme de aventura dos anos 1980. Analisando-o com maior rigor, contudo, percebe-se que ele subverte algumas convenções do cinema daquela época para, explícita e deliberadamente, conseguir destaque – afinal, do contrário, seria apenas um filme anacrônico e divertido, mas flagrantemente esquecível. Em outras palavras, seus ingredientes mesclados lhe concedem singularidade: se passa nos anos 1980, mas com atualizações; é uma aventura de dinossauros, mas flerta, eventualmente, com a paródia. O longa tem seus defeitos – o VFX deixa a desejar (a maioria das cenas ocorre à noite, inclusive), o dulçor do desfecho é exagerado etc. -, porém possui o mérito de não se satisfazer em meramente copiar (ou homenagear) as suas excelentes referências.