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“O INQUILINO” – Paranoia de si e dos outros

Entre os anos 1965 e 1976, três filmes de Roman Polanski formaram o que se convencionou chamar de “trilogia do apartamento”. Sem conexão narrativa entre si, os três projetos se aproximam em virtude da ligação temática: os protagonistas se sentem oprimidos pela paranoia e pelo horror psicológico de um apartamento e especulam a existência de uma conspiração criada pelos vizinhos. “Repulsa ao sexo” de 1965 e “O bebê de Rosemary” de 1968 se tornaram mais conhecidos, explorando a repressão sexual e os medos cristãos do inferno. Apesar de menos lembrado, O INQUILINO também trabalha muito bem a proposta temática e estética da trilogia para discutir a fragmentação da identidade de seu personagem principal.

(© Paramount Pictures / Divulgação)

O indivíduo que está nessa situação de opressão é o polonês Trelkovsky. Ele aluga um apartamento em um edifício na França, mesmo sendo visto com desconfiança pelo proprietário, o Monsieur Zy. Quando descobre que a inquilina anterior se suicidou, torna-se obcecado pela história da mulher. Enquanto tenta entender o que pode ter acontecido com ela, o homem começa a se questionar se ele mesmo não está correndo perigo em função de vizinhos estranhos e de acontecimentos enigmáticos ao seu redor.

Desde a sequência inicial, o cineasta flerta com a ideia de voyeurismo ao movimentar a câmera pelas janelas de vários apartamentos e exibir o seu interior ou sugerir a observação do exterior por parte dos moradores. A abertura sugere um diálogo com Alfred Hitchcock, sobretudo com “Janela Indiscreta“, mas o desenvolvimento toma outros rumos. A sensação de vigilância não aborda atos de prazer nem um exercício de metalinguagem, já que encaminha a narrativa para tratar da identidade do protagonista. A princípio, o novo inquilino se sente incomodado com a exposição e com a fiscalização de outras pessoas. Dentro do prédio, qualquer ruído serve de justificativa para reclamações dos vizinhos ou de ameaça de despejo do senhorio como visto na sequência em que recebe amigos para uma confraternização. Até fora da propriedade, o olhar atento sobre ele continua, como se nota no momento em que vai ao cinema com Stella.

Roman Polanski desenvolve o mistério sem pressa e sem recorrer a estímulos apelativos antes que a ambientação esteja consolidada, de tal forma que o público mais afobado pode nem considerar o filme um thriller ou sequer cogitar a introdução de códigos visuais do terror em seu desfecho. Os conflitos se desenrolam a partir dos atritos de Trelkovsky com os demais moradores, principalmente a concierge e o proprietário, por conta apenas do barulho à noite. Em paralelo, o homem se vê cercado por pessoas, eventos ou imagens que lembram a inquilina anterior Simone Choule: o apartamento onde morou, os vidros quebrados por onde pulou, a amiga Stella com quem desenvolve um romance, o pretendente da mulher morta que aparece sem saber do suicídio. Os dois segmentos se cruzam cada vez mais de modo a evocar algo enigmático no local que pode atingir o recém-chegado. Nesse ponto, o uso expressivo do espaço é essencial, primeiramente por conta de alguns ambientes com uma aura misteriosa própria, como a sacada do apartamento e o banheiro comunitário no corredor; em seguida, porque alguns elementos inexplicáveis começam a afetar a sanidade de Trelkovsky, a exemplo dos dentes encontrados nas paredes e as silhuetas de pessoas paralisadas vistas pela janela do banheiro.

No decorrer da narrativa, o subtexto da perda de identidade fica mais visível e não somente porque o protagonista verbaliza uma dúvida nesses termos. Em um diálogo com Stella, ele se questiona sobre o que pode fazer uma pessoa deixar de ser quem é. Além de uma situação explícita, o filme constrói simbolismos e pistas ao longo do tempo. Antes do personagem chegar à uma conclusão do que pode estar acontecendo com ele, os espectadores conseguem perceber a fusão das imagens de Simone Choule e de Trelkovsky no corpo do homem. O processo é gradual, tendo início nos olhares curiosos do polonês para as roupas femininas remanescentes no apartamento. Em seguida, alguns hábitos da mulher são incorporados por Trelkovsky, como a mesa em que senta em uma cafeteria, a bebida que pede ao garçom, a marca de cigarros que compra e até o interesse que demonstra por um livro sobre egiptologia. Por simples que pareça, cada aspecto citado indicado que ele está perdendo a autonomia sobre sua própria identidade.

A perda de controle sobre sua imagem contribui para que o mesmo personagem sofra com a rejeição da sua identidade. Alguns sinais desse fato podem passar despercebidos ou soar sem importância, porém traduzem as etapas do arco dramático ou metáforas para a situação de Trelkovsky. Em muitos casos, os barulhos da noite são atribuídos sem razão a ele e eventos relacionados aos outros moradores são confundidos a ponto de ser difícil distinguir quem é quem e a autoria de cada ação. Um bom exemplo consiste na assinatura de uma petição para expulsar um morador inconveniente (que morador é esse? Quando o documento foi redigido?). Não se pode menosprezar que o subtexto pode envolver também a xenofobia, já que a cidadania francesa do protagonista é colocada em xeque. Por mais que seja oficialmente um cidadão daquele país, a origem polonesa é lembrada por outros personagens para que seja contestado e diminuído. É o que se percebe pelo comentário do superintendente de polícia acerca do seu documento de identificação.

Ser rejeitado por conta de suas características ou ser coagido por terceiros a assumir uma identidade estranha à sua existência. Tal questionamento extrapola os níveis emocionais de Trelkovsky e o faz enfrentar a paranoia, o medo e o horror psicológico de uma suspeita de conspiração por parte dos moradores do prédio. O personagem, vivido também por Roman Polanski, coloca em dúvida os motivos e as circunstâncias para a morte de Simone Choule, além de se perguntar a respeito de um suposto plano ameaçador para ele. E o diretor encena uma espécie de luta contra seus “antagonistas” ou de fuga pelo homem na chave estética e sensorial do terror. Algumas cenas exemplificam a sensações de opressão e de claustrofobia decorrentes de um espaço misterioso que parece ter vida própria: a visão sobrenatural dos ocupantes do banheiro no fim do corredor, as aparições da antiga inquilina em uma forma incomum e a percepção de mãos enigmáticas tentando invadir o apartamento. Na segunda metade da narrativa, a impressão de estar sob perseguição transparece um estado psicológico desestabilizado, que o torna um narrador não confiável por não conseguir diferenciar a realidade do delírio. Desse modo, ele confunde figuras, acontecimentos e espaços como se estivesse sempre sob a vigilância dos mesmos personagens.

Embora Trelkovsky se esforce para se distanciar dos caminhos percorridos por Simone Choule e enfrentar com autonomia as dificuldades surgidas no prédio, o protagonista parece se afundar ainda mais em uma dimensão que recusava. Sendo assim, “O inquilino” se desenvolve a partir de escolhas que invocam códigos narrativos do mistério e do terror. Inicialmente, cria-se a dúvida acerca do que pode estar ocorrendo no apartamento. Após algum tempo, expõe-se a turbulência interna de um homem que não diferencia mais a realidade da ilusão e, então, lida com perigos reais ou imaginários associados ao confinamento de um espaço tido como opressor. Na base de todos os estímulos e opções estéticas, há a discussão de ameaças à identidade. As motivações podem ser diversas, como o julgamento público ou as atitudes intolerantes de xenofobia. As percepções desse risco podem ser verídicas ou fruto de uma condição psicológica instável, como nas sequências em que os vizinhos, de fato, estão observando pela janela ou são imaginados por Trelkovsky. Em qualquer um dos cenários, o resultado é uma fragmentação da identidade que desconstrói as imagens e as temporalidades do sujeito em questão. Logo, a última cena que pode soar como uma simples reviravolta, ganha contornos mais complexos se as contradições e instabilidades das identidades forem consideradas.