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““O MORRO DOS VENTOS UIVANTES”” – Obsessão, sexualidade e vingança (mais uma vez)

A leitura que “O MORRO DOS VENTOS UIVANTES” – filme cujo título foi apresentado oficialmente entre aspas, explicitando tratar-se de uma adaptação – faz do seu livro homônimo é bastante particular, para não dizer pouco fiel. O longa é mais uma reimaginação do que uma adaptação, possuindo ideias sólidas que destoam das originais e descaracterizam a fonte, mas refletem a filmografia de sua realizadora.

Na Yorkshire do século XVIII, Catherine Earnshaw é uma filha única que convive apenas com seu pai, os empregados e Nelly, sua dama de companhia. Isso muda quando o pai, sem maiores explicações, leva para casa um menino que passaria a ser uma espécie de animal de estimação para a garota. Apelidado de Heathcliff, o menino e Catherine formam um laço que, com o passar do ano, se transforma em um amor avassalador.

(© Warner / Divulgação)

A versão literária de Emily Brontë é muito distinta do roteiro de Emerald Fennell (que também dirige o filme). Personagens são suprimidas, eventos da trama são modificados e a ideia governante é substituída. Não há perda na coerência interna, mas há perda na robustez. Por exemplo, Isabella deixa de ser irmã para ser pupila de Edgar, o que torna a relação entre eles estranha e fragiliza a motivação de Heathcliff para agir daquele modo com ela; o sofrimento pelo qual Heathcliff passa é muito menor (o que também fragiliza a sua motivação); e Isabella, considerando o seu desfecho, deixa de ser uma figura de resistência.

Há também uma diferença de tom em dois aspectos. O primeiro é o exagero inerente à literatura romântica: Heathcliff não sofre no filme tanto quanto no livro, sendo o longa é bem mais suave nesse quesito. Além disso, Fennell faz uma versão sexualizada (ainda que não gráfica) da trama, o que vem sendo um pilar em sua filmografia (e é coerente com o viés apaixonado com que as personagens são imbuídas). Isto é, considerando os longas precedentes (“Bela vingança” e “Saltburn”), o sexo é um elemento de realce em suas obras, o que, todavia, destoa da fonte (o livro chegou a ser considerado uma “história de virgem”). O sexo inicia como sugestão (como nos gemidos e nos ruídos durante os créditos iniciais), mas cresce à medida que a narrativa se desenvolve, tendo ainda um viés de submissão. Geralmente, as mulheres são submissas aos seus parceiros, o que denota simbolicamente a opressão feminina que faz parte do espírito da obra original.

Por outro lado, a postura crítica do livro face ao patriarcado é absolutamente distinta. Enquanto Brontë aborda o cenário vitoriano como espelho da opressão à mulher (violência doméstica, objetificação) e propõe uma subversão ao modelo do “Anjo do Lar”, Fennell se limita à exposição desse cenário. Mais do que isso, o encaminhamento dado à narrativa perde por completo a postura ativa das personagens femininas do livro: Isabella, um incongruente alívio cômico, subjuga-se ao marido ao invés de fugir dele; Catherine perde o seu perfil sobrenatural, que é importante para traduzir a sua resistência. O patriarcado representa grilhões dos quais agora as mulheres não se soltam. A sororidade inexiste (o conflito entre as personagens femininas é uma constante), tal qual a emancipação feminina. Por fim, a inafastável punição das mulheres por supostos desvios é naturalizada.

Assim como nos seus dois longas precedentes, Fennell aborda a obsessão, a sexualidade e a vingança; desta vez em uma roupagem histórica enriquecida pela estética, porém menos convincente que outrora. O amor de Heathcliff (Jacob Elordi) e Catherine (Margot Robbie) é mais intenso em suas versões infantis (respectivamente, Owen Cooper e Charlotte Mellington) do que nas adultas, quando parece mais uma pulsão sexual do que um desejo romântico. De todo modo, o desfecho do longa, considerando o casal, é moralista, deixando claro que personagens secundárias, como Nelly (Hong Chau), Isabella (Alison Oliver) e Edgar (Shazad Latif), eram meramente instrumentais.

A estética consegue ser sublime nos estonteantes figurinos de época, na inebriante fotografia granulada, que contrapõe a civilização (e seu abismo social) à natureza, e na eficiente maquiagem, que transforma personagens. Entretanto, no som, em que pese ao esmero da mixagem na criação de uma atmosfera imersiva (o sibilar e o uivar das lufadas, em especial), a trilha musical é muito ruim. Nas cenas românticas, o toque meloso faz sentido, mas há composições que inexplicavelmente evocam aventura (em um romance dramático, resultando em evidente descompasso), sem olvidar o pop eletrônico vocal que é completamente anacrônico e implode algumas cenas.

Sob um verniz pomposo, Fennell entrega o pior filme de sua filmografia até o momento. O livro no qual se inspirou lhe dá credibilidade e o fio condutor narrativo – um amor que devora os amantes -, além de universal e atemporal, tem o potencial de comover, sobretudo considerando os cenários mesmerizantes. Ser fiel ao próprio estilo em detrimento da fonte da qual bebeu não é um erro ou uma falha, é apenas uma escolha. Assim como é uma escolha elaborar um retrato comodista da situação da mulher e atribuir às personagens trajetórias amenas e motivos frágeis.