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“O QUATRILHO” (1995) – A crítica social no romance histórico

Os melhores filmes de romance que elaboram uma crítica social (ou reflitam sobre questões existenciais) aliam a narrativa a essa profundidade. Por exemplo: “O segredo de Brokeback Montain” denuncia a homofobia (internalizada e social) e a perniciosidade da masculinidade tradicional; “45 anos” discute a fragilidade do presente diante do passado; “Me chame pelo seu nome” faz um cotejo entre intensidade e efemeridade de um amor inesperadamente construído. O caminho feito por O QUATRILHO, de 1995, é outro: captar o espectador pelo romance, mudar o ponto de foco e então expor o que reputa como falha social.

Angelo e Teresa se casaram recentemente, assim como Massimo e Pierina. Os quatro fazem parte de uma mesma família de imigrantes italianos que procura se estabelecer no Rio Grande do Sul em 1910. À medida que os quatro convivem, Massimo e Teresa se interessam um pelo outro, consumando um amor que trará consequências duras para seus respectivos cônjuges.

(© Paramount Home Entertainment / Divulgação)

O longa é dirigido por Fábio Barreto e roteirizado por Antônio Calmon e Leopoldo Serran, baseados no livro homônimo de José Clemente Pozenato. Trata-se do romance histórico mais aclamado de Pozenato, cuja adaptação cinematográfica rendeu ao Brasil uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (nomenclatura usada à época, tendo sido substituída, em 2020, para Melhor Filme Internacional). Do ponto de vista do cinema de exportação, faz sentido o relativo sucesso do longa fora do país, dado que retrata idiossincrasias brasileiras (a imigração italiana no Rio Grande do Sul) através de uma narrativa universal (muito embora seja fato notório que a família Barreto tenha também se empenhado na campanha para os votantes da Academia).

Em solo nacional, todavia, o filme não ostenta a mesma fama dos outros indicados na mesma categoria na premiação – “O pagador de promessas” (1963), “O que é isso, companheiro?” (1998), “Central do Brasil” (1999) e “Ainda estou aqui” (2025) -, em que pese ao elenco qualificado. Patrícia Pillar interpreta Teresa como uma mulher extrovertida e pueril e profundamente encantada por Massimo, papel de Bruno Campos. Glória Pires tem em Pierina o oposto de Teresa, incorporando uma persona introspectiva (além de séria e até mesmo fria) e que se enxerga como insignificante para assuntos sérios (deixando as decisões para o marido).

Há também uma contraposição entre Massimo e Angelo (Alexandre Paternost), de modo que, enquanto este é quieto e privilegia a fisicalidade em detrimento do intelecto, aquele, talvez pela experiência fora do país, é culto e falante. Mesmo em trabalhos manuais, enquanto o primeiro lida com a marcenaria, que exige delicadeza e atenção, o segundo prefere a enxada, que envolve uma ação repetitiva e intensa. Para expor essa contraposição, o figurino de Massimo é cinzento e elegante, ao passo que o de Angelo tem tons amadeirados e transparece ruralidade, sem olvidar a diferença entre os chapéus (o de Angelo é de palha, enquanto o de Massimo é de feltro).

Para transmitir a influência das origens italianas, o elenco (que conta também com Gianfrancesco Guarnieri como o Padre Giobbe e Cecil Thiré como o Padre Gentile) incorpora em sua prosódia um sotaque italiano e algumas palavras do idioma (como “putana” e “scusi”). O design de produção é essencialmente bucólico e a Leitmotiv “Mérica, Mérica”, na voz de Caetano Veloso, transmite profunda melancolia (assim como a trilha composta por Jaques Morelenbaum). Do ponto de vista estético, portanto, o filme traduz uma realidade pouco alegre ou empolgante.

Isso parece colidir, todavia, com o romance que nasce e se desenvolve entre Teresa e Massimo. Aquela não mais precisaria se submeter às noites de sexo sem prazer com Angelo, este concretizaria sua paixão fulminante. O filme cresce à medida que o diretor conquista o público com esse romance, torna Angelo e Pierina desinteressantes e dá o protagonismo aos outros dois. Entretanto, o ponto de foco narrativo se modifica quando Teresa e Massimo saem de cena e seus cônjuges são deixados para um melodrama. Ignorando um subtexto mal construído sobre capitalismo e o papel do Estado – que basicamente serve para, mais uma vez, contrapor os dois homens, e para expor o quanto Angelo se transforma com a passagem do tempo -, esse melodrama serve de catapulta para a temática que se torna central. Trata-se dos efeitos deletérios de uma sociedade regida implicitamente pela Igreja em pessoas marginalizadas por acidentalmente não seguirem as suas leis.

A ideia é muito boa e pertinente ainda no Brasil hodierno, apesar de a história se passar no início do século passado. O que a prejudica é, primeiro, a demora para o assunto surgir, e, segundo, o abandono surpreendente de um arco narrativo que até então dava certo. O primeiro revés não seria problemático se não houvesse a quebra do que estava sendo construído, isto é, se não houvesse a substituição do romance pelo melodrama. Tirar Teresa e Massimo de cena esvazia o carisma das personagens e privilegia aquelas que têm dificuldade para envolver o espectador. Talvez se a crítica social fosse trabalhada desde o início, concomitante ao estabelecimento do cenário, o resultado poderia ser mais satisfatório. Por outro lado, ainda que seja fácil perceber a quebra de ritmo, a mensagem é transmitida com potência em virtude de uma cena-chave, um monólogo impactante de Pierina. Além disso, o desfecho deixa uma sensação agradável de que as pessoas podem superar obstáculos decorrentes das falhas sociais.