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“OBSESSÃO” – Obsessão do desejo masculino

É sempre recompensador assistir a um filme que tem qualidades que crescem à medida que se pensa cada vez mais nele. É o caso do terror OBSESSÃO, em função do contexto de lançamento e das suas propriedades internas. No momento em que se encontra nos cinemas brasileiros, os cinéfilos o comparam com “Backrooms” com base nas diferenças entre as abordagens mais ou menos frontais do gênero e na suposta “rivalidade” entre as produtoras Blumhouse e A24. Além disso, a obra estimula diversas leituras sobre relacionamentos tóxicos, desejo masculino impositivo e facetas monstruosas da humanidade, sugerindo um caminho fácil e possibilitando outras rotas mais sofisticadas.

(© Universal Pictures / Divulgação)

Todas essas questões são suscitadas pela incapacidade de Bear de declarar o amor que sente pela amiga de longa data Niki, com quem trabalha em uma loja de música. Um dia, ele decide comprar um brinquedo sobrenatural chamado Salgueiro dos Desejos, que concede ao portador um único desejo a ser pronunciado em voz alta e, em seguida, concluído partindo o objeto ao meio. O homem pede, então, que Nikki passe a amá-lo acima de qualquer outra pessoa. O pedido é prontamente atendido, porém da forma mais sombria que poderia vir, transformando a mulher em uma versão assustadora de si mesma.

A realização do desejo pode insinuar que Nikki seja a personagem obsessiva da história. Ela desenvolve uma paixão intensa e repentina por Bear, demonstra um ciúme doentio, apresenta uma personalidade instável e cede a impulsos violentos. A atriz Inde Navarrette incorpora ao seu trabalho de composição a ideia de variação abrupta de emoções e atitudes diante do namorado. Tal postura começa de forma aparentemente sutil a partir de algumas mentiras (a doença do pai), a carência transferida como busca de carinho ilimitado do protagonista e os ciclos de entrada e saída de uma espécie de transe (como na primeira noite em que dormem juntos e ela parece despertar de uma confusão mental e desconhecer o motivo de estar ali). A maquiagem e os efeitos especiais reforçam a imprevisibilidade de Nikki, já que seu corpo reflete a rápida transição entre amor exagerado, alegria intensa, fúria descontrolada e infelicidade desoladora, assim como indica os resultados dos seus atos violentos. É assim quando grita inesperadamente e ataca o próprio rosto.

Conforme a degradação emocional e física de Nikki se acentua, o diretor Curry Barker encontra soluções visuais muito criativas para representá-la. Não se trata mais de um ser humano como o conhecemos, mas de uma figura monstruosa que perdeu sua humanidade por conta da forma como se apresenta e pode ser observada em cena. Ela transita pelo quadro, aparecendo ou desaparecendo, como uma ameaça sobrenatural, algo aproveitado pelo expressivo do extracampo e da movimentação da câmera (basta reparar no modo como o equipamento se move sutilmente para revelar a mulher observando uma ligação feita por Bear em um restaurante). A jovem também é filmada como uma criatura animalesca por estar indistinta no fundo do plano e fora de foco, envolta em uma escuridão capaz de encobrir seu rosto ou pelo próprio cabelo longo que também oculta sua expressão. Se a imagem não for suficiente, o trabalho de edição sonora amplifica o caráter assustador da personagem. As mudanças repentinas de temperamento e de atitude são antecipadas ou acompanhadas por ruídos intensos do design de som ou por uma trilha sonora invasiva e atordoante. Tais escolhas formais se revelam acertadas quando percebemos que não encenam uma mulher obsessiva, mas o desejo compulsivo de Bear pela imagem que faz de uma namorada perfeita.

A percepção dos significados das decisões estilísticas de Curry Barker reorienta a assimilação do filme como um todo. Além de acompanhar a deterioração de Nikki, a narrativa também se interessa pelo estudo do protagonista. Na constrangedora sequência inicial, ele demonstra sua incapacidade de declarar seus sentimentos para a amiga ao conversar com o amigo e uma garçonete. A partir daí, vemos um jovem frustrado que depende de artifícios mágicos para concretizar sua vontade porque sua própria iniciativa não basta. Em seguida, a mudança radical de comportamento de Nikki provocada pelo desejo de Bear pode ser uma metáfora para os relacionamentos abusivos em que a mulher precisa se adequar, forçadamente, às preferências impostas pelo homem (a roupa que deve usar, a profissão que pode ter, as pessoas com quem pode interagir…). Por fim, o protagonista expõe suas fragilidades e defeitos quando não reage diante do sofrimento visível da jovem, mesmo que os alertas sejam numerosos. Ian fala seguidas vezes que o relacionamento não é saudável e que o amigo está se aproveitando da situação. E na sequência em que Bear observa a dor que a verdadeira Nikki sente ao perder o controle sobre o próprio corpo para alguma criatura que se apossou dele, ele não a ajuda. Pelo contrário, o desejo de ter uma namorada e exibi-la publicamente está acima de qualquer preocupação com o bem-estar dela.

Visualmente, o diretor não perde a chance de ressaltar que o protagonista também atravessa um processo de degradação. No seu caso, a decomposição moral vem atrelada a uma composição estética que descreve sua monstruosidade sob outros parâmetros e desdobramentos dramáticos. São muitos os sinais dados ao longo da obra que tornam possível a descrição de Bear como uma figura desprovida de humanidade. É a cena em que mastiga um pedaço do sanduíche feito com partes do seu gato morto, preparado por Nikki. É o já citado momento em que escuta os pedidos desesperados de ajuda da jovem deitada na cama, mas prefere deixar o local sem demonstrar empatia pelo que ela sente nem cogitar dar um basta àquele relacionamento nada genuíno. São as diversas sequências em que os respingos de sangue provocados pelas ações violentas da namorada se acumulam no rosto dele, deixando-o com uma expressão quase inumana. E, por último, há ainda a passagem em que ele aparenta ser um morto-vivo que perdeu a energia vital e qualquer sentimento ao testemunhar os crimes cometidos por Nikki. Enquanto ela age de modo instável e violento em decorrência de uma violência simbólica representada pela imposição inflexível do desejo masculino, Bear revela mais de si mesmo e de sua personalidade egoísta e desprezível através da atuação de Michael Johnston.

O horror das situações vividas pelos personagens centrais extrapola seus arcos narrativos e descrições visuais correspondentes. A tensão constante que pode deixar os espectadores inquietos contamina cada pequeno traço da narrativa. O desenho de som é composto por notas e ruídos perturbadores que evidenciam muito bem o estado de espírito de qualquer um que estiver imerso nessa história. Assim, Curry Barker cria um padrão sonoro que se repete em muitas cenas que trabalham com o choque: o plano se fecha no rosto do personagem, alguém no extracampo fala em tom aflito e trilha sonora explode em uma potência elevada. Além disso, o cineasta sabe manejar muito bem a câmera para criar jumps scares ou para intensificar a perturbação de certas sequências. Um bom exemplo é o momento em que Bear e uma amiga estão conversando em um carro e o posicionamento da câmera sugere que algo pode acontecer com a mulher, já que o ângulo do plano mostra a janela ao seu lado e o exterior do veículo. Mesmo antevendo o desfecho da cena, a violência da conclusão continua impactante. Outro recurso empregado com sucesso é a fotografia sombria, que jamais se torna uma muleta ou clichê de filmes de terror porque expressa a atmosfera desoladora da trama sem soar pretensiosa artisticamente. Como evidência disso, é possível citar a assustadora sequência em que Bear acorda à noite e mal consegue enxergar Nikki escondida na escuridão do quarto.

Seria possível imaginar também que haveria outras convenções que o filme poderia se agarrar para desenvolver a narrativa. Assim como poderia ocorrer com o estilo da fotografia, a dinâmica do roteiro pode parecer repetitiva em algumas ocasiões. Isso se dá porque a trama se desenrola a partir de uma estrutura facilmente reconhecível, ou seja, Nikki se descontrola, faz algo chocante e Bear se surpreende sem abandonar a impotência que muitas vezes o define. De certa maneira, a repetição existe e pode ser um ponto negativo. Ainda assim, “Obsessão” encontra estratégias para driblar esse “problema”. Como já se tornou uma característica da Blumhouse, o terror associado à produtora não oculta o gore e a violência gráfica, o que se evidencia na maneira como Curry Barker não tem medo de sujar as mãos e mostrar as consequências perturbadoras de um namoro doentio. E a produção consegue reorientar a combinação entre descontrole, choque e passividade na sequência final. Ela é bastante sintomática de que os atalhos buscados por Bear para satisfazer seu desejo o caracterizam como um sujeito problemático, o egoísmo move seus interesses por ser visto namorando uma garota bonita e popular e a solução mais viável para a questão não poderia envolver um ato contra ele mesmo. Quando enfim o desejo mágico se frusta, nada resta a não ser observar e ouvir os resultados aterradores do desejo masculino obsessivo levado às últimas consequências.