“PÂNICO 7” – Deixe morrer ou transforme em vilão
Entre 1996 e 2011, a quadrilogia “Pânico” marcou o cinema de terror. Os quatro filmes comentaram sobre o gênero e os hábitos culturais de cada contexto de lançamento. “Pânico” (1996), “Pânico 2” (1997), “Pânico 3” (2000) e “Pânico 4” (2011) ironizaram os clichês das histórias de slasher e deixaram legados para a sociedade e o cinema. A retomada da franquia, anos depois, com “Pânico 5” e “Pânico 6” colocou em questão a linha tênue entre olhar para o passado e projetar futuros possíveis. Em PÂNICO 7, uma eventual discussão temática se transforma na indecisão do que fazer em um filme que não tem nada a contribuir para reflexões metalinguísticos, comentários sociais e construção da tensão do terror.

No sétimo capítulo da franquia, Sidney Prescott está vivendo com a família na pequena cidade de Pine Grove. A tentativa de reconstruir sua vida é interrompida pela aparição de um novo Ghostface, que passa a aterrorizar o local e ameaça a sobrevivente, seu marido Mark e a filha mais velha Tatum. A luta pela sobrevivência faz com que ela precise enfrentar traumas do passado para acabar de vez com mais um massacre.
Dessa vez, Kevin Williamson acumula as funções de roteirista e diretor. Possivelmente, as duas tarefas fazem com que ele não consiga executar bem nenhuma delas e o resultado seja um rascunho mal acabado de uma série de ideias que são abandonadas ou fracassadas. Sendo assim, a narrativa aponta para várias direções sem definir o tema geral para a nova versão. O filme será sobre as transformações geradas pelas tecnologias digitais, como as IAs, por conta da criação de imagens de antigos personagens que passaram pela vida de Sidney? Será sobre a exploração da nostalgia de outros tempos através da atualização de elementos e tramas das obras anteriores? Ou será ainda sobre o peso do passado da protagonista que retorna na forma de uma relação conturbada com a filha? As duas primeiras possibilidades não vão além de breves referências de cenas que não incorporam tais aspectos em escolhas formais para a narrativa. Mesmo a terceira via, que ocupa mais tempo de tela, não explora todo o potencial para lidar com a ideia de que Tatum conhece mais do passado da mãe pelos filmes, livros e podcasts feitos sobre ela do que por conversas que tiveram.
A ausência de uma perspectiva mais clara do que a obra vai ser dificulta, inclusive, a percepção das contradições que o roteiro e a construção formal criam. Por um lado, várias indicações são feitas para sugerir que não se pode mais depender do passado e novos rumos devem ser traçados para o futuro dos personagens e da franquia. Por outro lado, outros movimentos são feitos para resgatar referências passadas daquele universo e ativar as lembranças dos fãs por meio de easter eggs. Por exemplo, a sequência de abertura termina com a destruição de uma locação característica do primeiro filme, o que poderia sugerir, simbolicamente, a conclusão de uma época para a abertura para um novo futuro. Este início entra em choque com os momentos posteriores em que o passado não só não é superado como também é retomado em tom saudosista. É assim quando o novo assassino pode vir do passado de Sidney, Gale Weathers reaparece para ajudar a amiga e a revelação do assassino depende de eventos passados da protagonista. A maneira como os personagens e os fatos clássicos do universo são encenados indica, formalmente, uma reverência ao passado.
Os problemas persistem quando o novo filme entra em oposição flagrante com o universo diegético e estilístico estabelecido pela franquia. Em vez de criticar ou ironizar os clichês do gênero terror, o sétimo capítulo se rende a eles e se torna absolutamente convencional. O recurso de mostrar uma vítima seguindo a origem de um ruído incomum até um local escuro para ser assassinada deixa de ser tratado em tom cômico ou autoconsciente para se tornar uma muleta utilizada à exaustão por falta de ideias. O elenco coadjuvante carece de carisma e de identidade própria e são resumidos apenas pelas relações que têm com Sidney e Tatum (o namorado, o vizinho, a amiga…), tal como as obras comentadas pela franquia anteriormente. Neve Campbell e Courteney Cox até tentam fazer algo mais, respectivamente, para Sidney e Gale, mas o roteiro somente as trata como ícones e mal oferece a elas um arco dramático considerável. A protagonista recebe uma atenção levemente maior, porém o excesso de representações sobre sua vida é uma ideia subaproveitada. É também frustrante observar que Kevin Williamson se rende ao recurso empobrecido de fazer o vilão discorrer, em um longo monólogo, sobre as razões para os crimes.
Se a construção do terror em si for analisada, percebe-se igualmente a falta de qualquer mínima visão autoral ou esforço para a construção de momentos eficientes. Não é necessário fazer grandes reflexões metalinguísticas ou sociais em todas as cenas, mas é importante pensar em formas diferentes de gerar tensão. Os exemplos não faltam nos filmes anteriores, sobretudo as sequências de abertura (a ligação telefônica sobre filmes de terror no primeiro filme, a exibição de “Stab” em uma sala de cinema no segundo filme, a sucessão de mortes em escalas diferentes no quarto filme…) Dessa vez, o padrão se repete sem constrangimento ou sinal de autocrítica: os personagens se separam sem motivo aparente, ouvem um som suspeito, são surpreendidos pelo Ghostface, resistem aos ataques mortais e acabam executados de forma violenta. Falta maior refinamento em toda a concepção da cena, desde a criação do mistério a partir do local em questão (como quando Sidney e Gale investigam uma clínica psiquiátrica e a decupagem mal registra alguns quartos importantes para a trama) até a transição de uma set piece para outra. Todas parecem uma longa sequência de fuga, esconderijo e confronto partida em blocos menores.
A coroação das deficiências de “Pânico 7” está no seu clímax. Em termos emocionais, seria de se esperar uma conclusão que trabalhasse com o fortalecimento dos vínculos entre mãe e filha. No entanto, nunca há uma evolução narrativa que sustente a ideia da jovem deixada à sombra tendo que encontrar seu próprio lugar no mundo. Logo, a resolução do arco não tem grande impacto para os espectadores, exceto pela única referência metalinguística acertada no que se refere à necessidade de atirar na cabeça do assassino para garantir o fim da ameaça. E, acima de tudo, a a frustração cresce, em termos narrativos, com a revelação da identidade do assassino. Se antes havia uma sensação de mistério e eventuais surpresas ao final, o sétimo filme consegue fazer a pior escolha possível para o Ghostface. O público não se importa com o personagem em questão nem compra sua motivação. Fica, então, a impressão de que os próprios envolvidos desistiram do trabalho que estavam fazendo e, cansados com os resultados parciais, escolheram qualquer desfecho para o rascunho mal projetado que tinham em mãos. Sofridas devem estar Sidney Prescott e Gale Weathers que não podem descansar de uma franquia que não sabe para onde ir e se transforma cada vez mais nos clichês que já ironizou no passado.



