“RAZÃO E SENSIBILIDADE” (1995) – Romance, amor e seus significados
“Romance” é uma palavra polissêmica complexa. Ela pode designar tanto um gênero literário (obra de ficção em prosa, como, por exemplo, “Emma”) quanto uma obra artística cujo tema central é uma história de amor (tal como a série “Heartstopper”); pode indicar um relacionamento amoroso vivido entre duas pessoas ou mesmo algo idealizado (como uma visão romântica de algo, distante da realidade). Essas e outras abordagens dessa palavra se fazem presentes em RAZÃO E SENSIBILIDADE, de 1995, filme que mostra que o amor é tão atemporal quanto diverso.
Após a morte de Henry Dashwood, seu filho, John, fica com toda a herança por ser homem, deixando a esposa do pai e suas três irmãs, Elinor, Marianne e Margaret, sem amparo financeiro. Elinor e Marianne são completos opostos, mas compartilham a esperança de encontrar o amor.

O roteiro escrito por Emma Thompson – que também interpreta Elinor – tem como grande virtude a manutenção do espírito da obra original, notadamente as características mais fundamentais da literatura de Jane Austen, autora do romance no qual o script se baseia. Independentemente de eventuais mudanças em relação ao livro, a importância do casamento para as mulheres e a segurança financeira são mantidos como elementos nevrálgicos da obra – sem olvidar componentes de menor relevância, como o palavreado de época (o que ajuda na reconstituição), as surpresas guardadas por personagens secundárias como Willoughby e Lucy (o que confere dinamicidade à narrativa) e, em especial, os formatos diferentes do amor.
O longa é dirigido por Ang Lee, cineasta que também conserva a alma sagaz e eventualmente ácida – muitas vezes cômica – que caracteriza o pensamento de Austen. A montagem, por exemplo, consegue gerar um efeito humorístico na mudança de intenção de John sobre ajudar a família nas transições em duas cenas (o diálogo com seu pai e, em seguida, com sua esposa); da mesma forma, o uso de plano-contraplano e zoom in no diálogo em que Lucy revela para Fanny seu interesse amoroso é brilhante. Para além de alívios cômicos (como a personagem de Elizabeth Spriggs), a mise en scène é afiada (como na música que Marianne passa a tocar quando a irmã pede para mudar) e sagaz (como no posicionamento do elenco na cena em que o triângulo amoroso se reúne em uma sala). Além disso, o design de produção do longa é fenomenal: primeiro, do ponto de vista da restauração histórica (acessórios como luvas, penas, cartolas etc.), segundo, da exposição das classes sociais (os recintos apertados e crus do chalé, contrapostos às casas dos ricos com o pé direito alto, cômodos amplos e obras de arte expostas, como estátuas, pinturas, tapetes, porcelanas etc.), e terceiro, da simbologia dos locais (a Londres cinzenta versus o sol iluminando os gramados do interior) e das personagens (Elinor costumeiramente com figurino adequado aos cenários bucólicos, especialmente com estampa xadrez; Marianne com roupas lisas e mais delicadas).
“Razão e sensibilidade” é focado nas diferenças. Quanto ao gênero, há uma diferença institucional que inicia a trama – são os filhos homens que recebem a herança –, contudo o que chama a atenção são as diferenças nas personalidades. De modo geral, as mulheres são inteligentes, perspicazes e decididas, enquanto que os homens, embora detenham um certo poder perante elas (já que cabe a eles o pedido de casamento), esse poder é mitigado pela submissão a interesses familiares (e, por via de consequência, financeiros). As diferenças de classe são uma constante, não raras vezes na forma de desprezo (como quando Fanny pede a chave das peças de prata ou quando os londrinos comentam do vestuário das irmãs), mas também com reflexos nas relações afetivas, levando a um conflito (como no backstory de Brandon) e, inevitavelmente, a uma escolha (no caso de Willoughby).
Elinor é o epítome da racionalidade: cabe a ela controlar os gastos familiares; sua relação com a natureza é pragmática (um passeio a cavalo, o manuseio da horta); amar é “ter em alta conta” e “estimar muito”; reações passionais são geralmente coibidas (mesmo quando chora, as lágrimas são poucas e breves). Marianne (Kate Winslet) é o seu oposto: sua alma é artística, vivendo da literatura e da música; sua relação com a natureza é contemplativa (jogando-se na chuva sem se preocupar com eventuais consequências negativas); amar é sentir uma “ardência” como Julieta e Guinevere, pois “morrer por amor é glorioso”; suas reações são sempre passionais e muito intensas, chorando até mesmo no lugar da irmã algumas vezes. Outra contraposição entre personagens digna de nota é entre Brandon (Alan Rickman) e Willoughby (Greg Wise): na arte, aquele é um admirador externo (ele admira a expressão artística de Marianne, mas com certa distância), este, participante ativo (recitando Shakespeare quase tão bem quanto a jovem); no romantismo, seus atos podem ser idênticos (carregar no colo na chuva, entregar flores…), mas têm significação completamente distinta; como consequência, a atuação de Wise é empolgada, ao passo que Rickman faz de Brandon um homem aparentemente frio e sóbrio em demasia, porém suas microexpressões e seu olhar denotam uma profundidade muito maior que a de Willoughby. Quanto a Fanny (Harriet Walter) e Lucy (Imogen Stubbs), embora funcionem como antagonistas pessoais da dupla principal, não são vilãs da trama.
A cena em que Edward (Hugh Grant) revela para Elinor que a informação que ela tinha estava equivocada termina com uma reação “espontânea até demais” por parte dela, tal como se esperaria do comportamento de Marianne – que ela tanto critica em conversas com Brandon. Por sua vez, Marianne é outra ao aprender que o carinho expressado por gestos concretos (ao invés de atos meramente simbólicos) pode construir uma relação afetiva genuína. Saindo um pouco dos extremos que representam, elas aprendem que não há fórmula para a felicidade e que o amor pode ser manifestado nas mais diversas formas.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

