Nosso Cinema

A melhor fonte de críticas de cinema

“SE EU TIVESSE PERNAS, EU TE CHUTARIA” – Desestabilização emocional e estética

Os medos e os dramas não são atemporais nem universais. Dependendo da época e do lugar social, tais sentimentos se transformam, são expostos de formas específicas e têm alvos distintos. Do ponto de vista das convenções sociais, a maternidade deveria ser encarada como motivo de grande felicidade. No cinema contemporâneo, muitas mulheres dirigiram filmes que questionaram essa imagem e apresentaram as ambivalências do ato de ser mãe. Lynne Ramsay fez “Precisamos falar sobre o Kevin” e “Morra, amor“, Maggie Gyllenhaal fez “A filha perdida“, Jennifer Kent fez “O babadook“, Michelle Garza Cervera fez “Huesera“, entre outros exemplos. Uma perspectiva semelhante orienta SE EU TIVESSE PERNAS, EU TE CHUTARIA e o estado emocional de sua protagonista.

(© Synapse Distribution / Divulgação)

A mãe em questão é Linda, uma psicóloga que está à beira de um colapso. Ela se envolve em uma série de crises após a queda do teto de um dos cômodos de seu apartamento, devido a um vazamento enorme. O incidente o leva a morar em um hotel com a filha. A partir daí, deve encontrar uma maneira de reparar o buraco no telhado, de cuidar da misteriosa doença da criança e resolver o desaparecimento de uma paciente. Linda busca ajuda para saber como agir, mas não encontra respaldo de um marido ausente em viagem nem de um hostil colega de terapia. Como consequência, a mulher vê sua vida ruir em uma espiral de angústia e desespero.

Na sequência inicial, Linda está em uma consulta médica com a filha. O diálogo trata da percepção que a menina tem das emoções da mãe e da divergência demonstrada pela protagonista dos rumos do assunto. Podemos escutar as três personagens, porém vemos apenas Linda porque a decupagem da diretora Mary Bronstein a prioriza e direciona a câmera apenas para ela em planos muito fechados. Em outros diversos momentos, a encenação segue o mesmo princípio de closes ou primeiríssimos planos na atriz Rose Byrne e de planos detalhes nas ações realizadas pela protagonista. A diferença fica visível quando comparamos os enquadramentos dos demais personagens, que geralmente são filmados em planos conjunto que os integram um pouco mais ao cenário em planos abertos. O resultado é uma sensação de claustrofobia, que simboliza o desmoronamento emocional da mulher e a falta de possibilidades de escapar daquela realidade aprisionadora. É curioso notar também que nenhum plano enfoca a criança, como se o olhar da narrativa, sintonizado ao da mãe, não prestasse total atenção na menina vide seu estado emocional.

Levando em conta a escolha formal pelos planos fechados, a atuação de Rose Byrne ganha importância destacada. O filme não deixa de acompanhar a atriz por um minuto sequer e faz com que seu ponto de vista seja condicionado pelas variações emocionais da personagem. De modo geral, a ansiedade e o esgotamento predominam no arco dramático e na experiência sensorial dos espectadores. Em cada dinâmica com o restante do elenco, facetas particulares são reveladas. Nas ligações com o marido, interpretado por Christian Slater, a fúria de ser deixada sozinha em meio a tantas dificuldades tangencia uma ironia questionadora; nas sessões com o terapeuta, vivido por Conan O’Brien, irritação e impotência se mesclam diante das dúvidas do que fazer em relação aos seus problemas; e nas interações com o vizinho, vivido por A$AP Rocky, a falsa sensação de um alívio cômico se torna mais uma representação do desejo de solitude. Por vezes, a própria confusão de emoções transparece no trabalho da intérprete, como no momento em que se descontrola durante uma ligação sobre o atraso no conserto do apartamento e, logo depois, recupera o equilíbrio para fazer uma compra.

Mary Bronstein evidencia o esgotamento emocional da psicóloga a partir também do desenvolvimento da trama. O ritmo dos acontecimentos mantém uma velocidade extenuante que pode se assemelhar ao estilo de Ben e Josh Safdie em “Joias brutas“, embora os objetivos sejam diferentes. Enquanto a dupla de cineastas propõe uma encenação para o dia a dia de um joalheiro envolvido em atividades ilícitas, a diretora cria uma montagem acelerada dos eventos que deem conta de um período conturbado de uma mulher pressionada pelas exigências da sociedade, da maternidade e da profissão. Linda precisa ser uma mãe perfeita, que cuide bem das necessidades da filha, seja a esposa ideal e possa resolver qualquer situação sem se queixar do marido ausente, e uma profissional exemplar que atenda da melhor maneira seus pacientes. Em cada eventual cobrança, ainda é contestada por outros personagens que sabem o que seria melhor para ela. A construção de cena mais recorrente é a sucessão de adversidades em pouco tempo. Na mesma passagem, a protagonista precisa lidar com o choro da filha, uma discussão com o marido por telefone e o assédio de um funcionário no estacionamento do colégio. Em outro instante, sai de uma consulta complexa com uma paciente para a percepção de que ela desapareceu, deixou o filho para trás, precisa falar com o marido da paciente e enfrentar uma discussão com outro terapeuta.

Existem outras consequências interessantes para a escolha estilística por uma decupagem claustrofóbica, relacionadas igualmente à proposta de transferir o estado emocional da protagonista para a narrativa e as reações dos espectadores. Os planos fechados em torno de Linda perturbam a percepção dos cenários ao redor, afinal a maioria deles está fora de foco ou deslocado da captação da câmera. Sendo assim, poucas informações visuais são obtidas dos ambientes em que as ações acontecem porque as relações emocionais entre os personagens se tornam centrais. De modo complementar, a ausência de planos abertos para registrar as locações pode provocar outro efeito: a desestabilização dos cenários se adequa à fragilização emocional da mulher que, afetada pelas complicações de sua rotina mal consegue discernir os cenários ao redor. Tal dificuldade cria mais uma vez a sensação de claustrofobia na qual ela se sente aprisionada sem conseguir um breve momento de alívio. Além disso, a desestabilização geográfica pode ser percebida nos saltos de uma cena a outra, que transita rapidamente de um local para outro, e na estilização de certos lugares, como o quarto do hotel banhado nas cores verde e vermelha por conta do uso da máquina para o tratamento da filha.

Ao longo dos dias em que Linda atravessa as crises e sofre com o esgotamento físico ou emocional, a diretora também insere alguns elementos abstratos. Isso ocorre, sobretudo, com as visões desencadeadas pelo buraco no teto que se transformam em imagens nada literais. Podem ser metáforas para o papel existencial da mulher em conexão com as estrelas do universo? Podem ser paralelos com a maternidade em função das memórias revividas do parto. Entretanto, o filme não se sai bem com as abstrações e parecem momentos menos inspirados que fazem o público desejar a volta da abordagem realista. A mudança de tom se revela mais bem estruturada quando são feitas rimas visuais e dramáticas entre o buraco no apartamento e a lesão da filha por onde o tubo de alimentação é conectado em seu corpo. Acima de tudo, “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria” ganha força ao fazer com que a narrativa reflita o estado de espírito da protagonista e a apresentação dos eventos seja coberta por sua subjetividade. Assim, não sabemos se é possível confiar no estado do vazamento que ela vê e no estado de saúde da menina. Não conseguimos nem sequer experimentar uma dose de alívio ou descanso na sequência final, que passada em uma praia, novamente desestabiliza o cenário, evoca a claustrofobia já sentida antes e retira de Linda a possibilidade de desfrutar de um minuto de relaxamento sozinha.