“SHAOLIN CONTRA OS 12 HOMENS DE AÇO” – A fórmula dos filmes de artes marciais
A fórmula dos filmes de artes marciais não é nova, tampouco complexa. Nem todos os filmes, contudo, conseguem reunir com qualidade seus elementos mínimos: defesa de valores como retidão e não-violência, protagonista e antagonista cativantes (cada qual à sua maneira), treinos notáveis e, principalmente, lutas deslumbrantes. Um exemplar do uso irrepreensível dessa fórmula é SHAOLIN CONTRA OS 12 HOMENS DE AÇO, de 1976.
Um homem mudo começa seus estudos de kung fu no Templo Shaolin. Solitário e desajeitado, ele vira motivo de chacota diante dos demais. Seus propósitos são desconhecidos, mas a sua persistência e um encontro fortuito com um perigoso mestre podem levá-lo a alcançar o que deseja.

O título brasileiro não corresponde ao que o filme apresenta: Shaolin é o templo, não uma personagem; os homens não são homens, mas bonecos, que não são doze, e nem de aço, mas muitos, e de madeira. A primeira metade do longa dirigido por Chi-Hwa Chen consiste no longo caminho do protagonista para se tornar um guerreiro. Seu aprendizado inclui, assim, esforços físicos hercúleos, pela intensidade e pela repetição, que culminam no enfrentamento de um primeiro grande desafio, consistente no enfrentamento dos bonecos (como se fosse uma prova de sobrevivência). A partir disso, a segunda parte do roteiro de Hsin Chin coloca o herói fora do templo e em busca de seus objetivos, que não serão revelados aqui para evitar spoilers (basta dizer que a obra conta com algumas reviravoltas). Em ambas, o filme é o epítome da visão segundo a qual as artes marciais são mero instrumento de pessoas, que podem ser boas ou más, ou seja, uma visão assumidamente maniqueísta e que depende de personagens marcantes.
O herói é interpretado por um jovem e pouco musculoso Jackie Chan, que ainda estava em sua fase chinesa e séria. Embora não adote seu estilo de luta inusitado (interagindo com objetos cênicos para golpear) e sua veia cômica não pulse claramente – elementos que o tornaram célebre -, é fácil notar esse talento mesmo no início da carreira. O humor, por exemplo, se verifica na cena em que é descoberto pelo monge do vinho ou quando o mestre preso sente frio e calor. O protagonista é misterioso, mas corporifica dois pilares das artes marciais: a persistência inabalável e a defesa dos vulneráveis. A ausência de falas, em tese, diminuiria as possibilidades da atuação, porém, na prática, viabiliza maior eloquência na linguagem corporal, com mimetização e, principalmente, pantomima para que se comunique. No outro vértice está Fayu (Kang Chin), um vilão que banaliza a agressividade e a violência, impulsionado por habilidades de luta inquestionáveis. Chamado de “demônio” pelo mestre do templo, Fayu reúne a maldade pura a uma pretensão de grandeza, graficamente expostas pelo figurino amarelo, a capa vermelha, o fato de ser carregado pelos acólitos e, é claro, pela atuação que transmite deboche e arrogância.
Não é apenas no conteúdo que o filme reúne características dos filmes de artes marciais (sobretudo de sua época). Quando o mestre do templo sabe da fuga de um prisioneiro, seu rosto é filmado em zoom in e zoom out, destacando sua reação consternada. Os flashbacks aparecem em tons sépia para indicar um pretérito distante e traumático, salvo em um momento, quando as cores naturais surgem para aclarar esse pretérito. Ainda na fotografia, há intenso uso de lentes grande-angulares, distorcendo a imagem para dar maior amplitude aos cenários (como o templo e a caverna) ou elevar o impacto dos movimentos de luta (que parecem mais rápidos e amplos e com profundidade acentuada), e mesmo olho-de-peixe, distorcendo-a ainda mais para enfatizar o trauma do passado nas analepses. Algo análogo ocorre no design de som, cujos ruídos intradiegéticos exagerados dão concretude aos golpes, que são firmes a despeito da leveza da movimentação dos lutadores. Em uma cena de treino, por exemplo, o enquadramento fechado nos pés flutuando, intercalado pela montagem com enquadramentos de corpo inteiro, criam a imagem de alguém que está quase voando – o que também é típico dos filmes de luta.
O longo prólogo (as cenas geralmente são longas) apresenta cinco animais para demonstrar como os golpes de kung fu são inspirados na movimentação desses animais. Nas lutas, de fato, é possível perceber como, por exemplo, uma mão fechada pode simular o bico de uma garça. Felizmente, são poucos os enfrentamentos armados, prevalecendo as batalhas corporais com coreografias nada menos que mesmerizantes; a luta final é tão espetacular que faz surgir a vontade de que apareça um novo oponente. Se um bom filme de artes marciais depende da exposição competente dos valores pregados, de uma rivalidade vulcânica, de treinos impressionantes e de boas cenas de luta, “Shaolin contra os 12 homens de aço” é ótimo.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

