“SIRÂT” – Cativar pela contemplação [49 MICSP]
O que SIRÂT faz com o público denota grande destreza em manipular seus sentimentos – no melhor sentido, é claro. O que parece ser um filme despretensioso se transforma em uma mescla de drama e suspense de tirar o fôlego, demonstrando que é possível estimular grandes emoções sem artifícios fáceis. Basta cativar o espectador.
Luis e seu filho Esteban chegam em uma rave nas montanhas do Marrocos. Eles buscam Mar (respectivamente, sua filha e irmã), que desapareceu em uma dessas festas há cinco meses. Cada vez menos esperançosos, eles continuam distribuindo fotografias para obter informações. Ao saber que existe outra festa na região, decidem seguir um grupo pelo deserto para chegar ao local.

O que o diretor Oliver Laxe (que também assina o roteiro do longa, junto de Santiago Fillol) cria é um road movie cuja procura por Mar nada mais é que um MacGuffin. Não se trata de um suspense tradicional, no sentido de que não existem pistas sobre o paradeiro da jovem; o foco na verdade está na jornada para encontrá-la e nas experiências vividas na empreitada. Nesse sentido, o primeiro ato é uma apresentação do mundo das raves e, em especial, do estilo proposto pela mise en scène. São vários os planos contemplativos concernentes ao público da rave, de um lado, e ao deserto – cuja estética arenosa, natural, silenciosa e pacata destoa por completo das caixas de som pretas, das pessoas dançando, da música eletrônica alta e de todo o agito -, de outro. No deserto, Laxe introduz o espectador a uma realidade na qual o mundo exterior não existe e onde a música gera o imperativo da dança, mediante ritmos variados e quaisquer movimentos.
O segundo ato, majoritariamente despido das raves – já que é quando a parte da estrada efetivamente ocorre -, consegue manter os planos contemplativos do deserto, porém ressignifica o cenário. Enquanto antes era a pista para a festa, agora ele se torna um local de aflição tanto pela sua aparente infinitude quanto pelas adversidades (usando um eufemismo) que impõe às personagens. Tais adversidades não se restringem ao calor e à solidão: por exemplo, o mero trânsito através de um lago que interrompe uma estrada acarreta enorme insegurança. Novamente, o espectador é introduzido a uma realidade na qual o mundo exterior não existe, porém o caráter idílico erode à medida que as dificuldades são incrementadas. Com habilidade ímpar, Laxe molda a tensão progressiva e cria solavancos na viagem, causando sustos no público, que espera um acontecimento, mas recebe outro. Trata-se de um filme deveras imprevisível.
Mais que surpreendido, o espectador é golpeado por eventos que comovem em razão do que o diretor constrói até a sua ocorrência. POSSÍVEIS SPOILERS A PARTIR DAQUI: Quando Luis (Sergi López) e Esteban (Bruno Núñez Arjona) se unem ao grupo, é difícil imaginar que criariam uma relação de afeto junto a eles, em especial pela diferença de perfil de Steff (Stefania Gadda), Josh (Joshua Liam Herderson), Bigui (Richard ‘Bigui’ Bellamy), Tonin (Tonin Janvier) e Jade (Jade Oukid) quando comparados aos dois. Os cinco têm um laço de amizade que passa a incluir Luis e Esteban, o que é traduzido por cenas extremamente ternas, como quando Bigui conta que os quatro são a sua família, quando Esteban decide dividir o chocolate ou quando o garoto afirma que eles são divertidos. Não há dúvida de que formam uma família, cuja solidariedade abraça Luis mesmo em seu momento mais sombrio. FIM DOS SPOILERS
O deserto, tanto com a rave quanto com suas agruras, é uma alegoria para a vida. A preocupação do filme, porém, não é promover reflexões profundas de como a vida pode ser divertida ou desoladora, mas expor o quanto ela pode surpreender, para bem e para mal. O imprevisível é inerente ao viver e ele pode ser cruel, mas não por isso menos inevitável. Sem soar piegas, “Sirât” estimula pensamentos universais e atemporais através da contemplação e de poucos diálogos – sem olvidar doses gigantescas de tensão -, o que reforça o quão cativante ele consegue ser.
* Filme assistido durante a cobertura da 49ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (São Paulo Int’l Film Festival).


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

