“SONG SUNG BLUE – UM SONHO A DOIS” – A inspiração de Relâmpago e Trovão
A história real de Relâmpago e Trovão inspirou a realização de dois filmes: “Song sung blue”, um documentário de 2008, e SONG SUNG BLUE – UM SONHO A DOIS, longa ficcional de 2025. Assim como a dupla foi inspirada por Neil Diamond, a intenção do segundo filme é que a história inspire o público. Tal objetivo não é atingido, contudo, graças à inspiração tímida da produção, um drama musical óbvio e preguiçoso que claramente se limita na crença da autossuficiência da história.
Mike Sardina (cognome: Relâmpago), está prestes a se apresentar em um parque de diversões fazendo uma imitação. No local, ele conhece Claire Stengl (posteriormente conhecida como Trovão), uma das imitadoras. Este é o início de um romance e uma carreira compartilhada em tributo a Neil Diamond.

Guardadas as devidas proporções, a dupla fez sucesso na década de 1990 ao se apresentar cantando as músicas de Diamond, que ambos admiravam muito. Greg Kohs dirigiu e roteirizou o documentário sobre eles, filme no qual o longa de 2025, dirigido e roteirizado por Craig Brewer, se baseou. Aparentemente, a história real foi tão tocante para Brewer que o cineasta abdicou de recursos de linguagem cinematográfica minimamente criativos para dar-lhe maior encanto. Do ponto de vista do roteiro, a narrativa lida, primeiro, com um foreshadowing bastante clichê em filmes de romance (a cena do cortador de grama), e, segundo, com um acontecimento que causa uma reviravolta na trama.
Poder-se-ia alegar que ambos são fatos inerentes à veracidade do que é retratado, mas isso ignora o estilo adotado no longa. O problema, todavia, não está nos fatos em si, mas no modo como são retratados, notadamente nos moldes de um romance que ingressa em uma espiral melodramática, algo já visto inúmeras vezes antes e que se torna previsível e desinteressante. Igualmente problemática é a maneira como os coadjuvantes são trabalhados: Angie (King Princess) aparece episodicamente e é irrelevante, Dana (Hudson Hensley) é limitado uma criança carismática cujas reações surgem para comover (dançando, rindo, chorando…), uma estratégia bem apelativa e Rachel (Ella Anderson), a única com um subplot, é subaproveitada (ficando restrita a um subplot efêmero que é apenas escada para o drama de Claire).
Isso seria resolvido se o diretor fosse mais ousado e inteligente no lado musical de sua obra. A falta de ousadia se deve ao modo como os números musicais são apresentados: na literalidade e com uma montagem repetitiva e clichê. Salvo em uma cena – que ainda assim precisa ingressar no campo literal, pois se trata de uma alucinação de uma pessoa doente, envolvendo ainda uma das poucas canções da trilha que não são de Diamond (“Sweet dreams”, de Patsy Cline) -, os números são sempre intradiegéticos, sem espaço poético para a subjetividade mental das personagens. Ainda mais grave, a montagem reitera inúmeras vezes, de maneira engessada, sequências elípticas justamente para evitar esse espaço poético. Por exemplo, com “Play me”, as cenas se alternam entre o casal cantando e conversando; com “Crunchy granola suite”, entre o ensaio, a escolha do figurino e a interação entre as filhas. A estrutura, assim, se torna enfadonha em virtude da repetição e da ausência de criatividade. A inteligência também falta quando se considera o uso ruim do acervo musical de Diamond, tanto porque as canções pouco dialogam com a trama quanto porque o longa é flagrantemente contraditório. A contradição reside no cotejo entre, de um lado, a fala de Mike de que “as pessoas só querem ouvir ‘Sweet Caroline’, mas Neil Diamond tem centenas de outras”, e, de outro, o número diminuto de canções em termos de variedade. Exemplificativamente, a que Mike cita surge duas vezes; a que dá nome ao filme, três.
A inspiração de “Song sung blue – um sonho a dois” parece ter sido “Bohemian rhapsody“, dado o engessamento na parte musical e uma das cenas finais consistir em um show para tentar cativar a plateia. Não obstante, nas atuações, embora Kate Hudson seja limitadíssima (não é à toa que é filmada de longe quando chora no sofá, seu choro é demasiado falso), Hugh Jackman tem ótimo desempenho (na cena da internação, seu olhar é, de fato, comovente). Além disso, o elo formado entre os dois demonstra que, ao fundo, há realmente uma história tocante sobre duas pessoas fragilizadas que enxergam na arte (e mesmo no passado que os fragilizou) um elo para construir o seu amor. Enquanto Relâmpago e Trovão homenageavam Neil Diamond, o filme é certamente uma homenagem ao seu amor, que era superior a qualquer admiração compartilhada. Entretanto, a obra não tem uma fração ínfima do brilho de um relâmpago ou do estrondo de um trovão, sendo, no máximo, um inofensivo céu nublado.
P.S.: Kate Hudson foi indicada ao Oscar pelo papel. Cabe recordar, porém, que o Oscar (assim como os seus similares, como o Bafta, o Emmy etc.) prestigia mais aqueles que fazem boa campanha para serem votados do que os que apresentam real qualidade. Exemplos não faltam. Hudson nunca foi boa atriz, contudo esse trabalho destoa dos demais de sua filmografia em razão da carga dramática. Isso não significa que ela é boa, mas que se propôs a um papel sóbrio. Graças a ele, pôde-se ver o quão limitada é a atriz, ao mesmo tempo em que se verifica que ela tem a simpatia de muitos membros da Academia.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

