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“UM CÉU DE ESTRELAS” – Uma casa de desespero

O processo de restauração é fundamental para a preservação da memória audiovisual do Brasil. A partir da parceria entre a Cinemateca brasileira e a produtora Gullane+, UM CÉU DE ESTRELAS retorna ao cinema do país para ser visto e revisto, conhecido e novamente apreciado pelo público. Além de ser um recorte do processo de retomada do cinema brasileiro na década de 1990, também se mantém como um registro atual para os relacionamentos abusivos e o feminicídio. No interior de uma casa na periferia de São Paulo, os conflitos se desenrolam com uma construção visual e cênica compatível com as ameaças a que as mulheres estão submetidas pelo patriarcalismo estrutural de nossa sociedade.

(© Gullane+ / Divulgação)

Dalva é uma cabeleireira que trabalha em uma área pobre da cidade e vive com a mãe idosa e hipertensa. Em dado momento, consegue uma vaga para fazer um curso nos Estados Unidos e projeta a mudança de vida que pode experimentar com a viagem. Entretanto, seu ex-noivo aparece e frusta os planos de um futuro melhor. Victor não se conforma com o fim da relação e prende Dalva na casa. Enquanto os dois discutem e a tensão se intensifica, a polícia e a imprensa cercam o local.

Iniciam-se os créditos iniciais e a sequência de abertura. Por volta de oito minutos, a câmera passeia por imagens em preto e branco de pessoas humildes realizando seus afazeres habituais ou de espaços comuns de uma cidade grande (prédios, asfalto…). Cria-se a impressão de que os registros visuais são jornalísticos ou informais. Após apresentar a região e seus habitantes, a diretora Tata Amaral direciona nosso olhar para o interior de uma residência para mostrar a protagonista arrumando a mala de viagem. Nesse momento, a narrativa estabelece um diálogo entre os ambientes interno e externo. A entrada de canções românticas de tom melancólico no espaço doméstico oriundas das construções ao redor parece comentar a situação da personagem, sobretudo o desejo de deixar a casa e o país. O som da campainha e a chegada de Victor mudam as expectativas de futuro e a dinâmica de cena, fazendo com que aquele espaço seja um universo à parte com pouca comunicação com o exterior.

Todos os diálogos que se seguem entre Dalva e Victor ultrapassam a questão específica que poderia estar em primeiro plano, pois são interações que revelam sobre cada um deles e o noivado. O mérito fica por conta do roteiro escrito por Jean-Claude Bernardet, crítico de cinema, pensador, ator e cineasta marcante para a história do audiovisual brasileiro, e Roberto Moreira. A dupla escreve as conversas e as discussões para contextualizar os espectadores a respeito do pano de fundo do qual os dois personagens partem para se encontrarem naquela condição de briga e de término do noivado. O refino do texto é tão grande que nada parece didático ou artificial apenas para informar o público. Sendo assim, é possível entender que Victor é violento e responsável por atitudes anteriores que já fizeram a noiva conversar e perdoá-lo outras vezes. E Dalva pode ter sido paciente e amorosa com o noivo por um longo tempo, deixando, inclusive de pensar em seus próprios sonhos, mas não está disposta a perder a oportunidade de ir para os EUA, embora ainda seja um tema delicado para contar para a mãe.

Eventualmente, elementos de fora podem adentrar naquele ambiente. Excetuando uma vizinha que leva uma porção de coxinhas e a mãe que retorna das compras no mercado, a residência parece isolada e Dalva não consegue se livrar de Victor. A entrada em cena da mãe amplia a tensão que já se percebia entre os dois personagens. A senhora evidencia o desagrado que sente em relação à presença do homem na vida de sua filha, o que se complementa à informação de que ele se demitiu da fábrica sem razão aparente e está satisfeito com isso. Além disso, a idosa parece ser controladora e ter muita influência sobre a filha, o que poderia ser o estopim para embates passados. Quando enfim a tensão explode e atos violentos são praticados, o local se torna um microcosmo representativo de relacionamentos abusivos, do machismo estrutural e do feminicídio. Victor não aceita o término, trata a ex-noiva como sua mercadoria e utiliza a violência para impor suas vontades sexuais. Já Dalva acredita, inicialmente, na redenção do ex-noivo, sente-se apagada como indivíduo e sofre com o medo ou outras consequências psicológicas diante da presença do homem.

A construção cênica e o desenvolvimento dramático pelo roteiro reafirmam a discussão apontada pelas interações entre os personagens principais. No texto de Bernardet e Roberto Moreira, as contradições são o traço fundamental para as atuações de Leona Cavalli e Paulo Vespúcio. No trabalho da atriz, trata-se do elemento que mais se destaca nas sequências de sexo porque o envolvimento amoroso com Victor pode ser resquícios de uma atração física, uma manipulação para conseguir algo de que precisa, uma entrega forçada pelo medo ou uma consequência do abuso sexual sofrido. Tata Amaral explora muito bem a única locação que preenche boa parte da narrativa e acentua a claustrofobia de uma casa transformada em cárcere para Dalva, especialmente quando a noite chega e a eletricidade é cortada pela polícia. Vale também perceber que a diretora trabalha o crescimento gradual da tensão através também da sucessão de cenas que trazem a violência ou certa confusão visual. Em poucos minutos, uma conversa escalona para discussões, brigas, agressões e outras complicações. Do mesmo modo, essa instabilidade emocional se reflete em uma decupagem que não respeita regras de enquadramento nem de organização espacial, como fica visível na sequência de sexo no corredor da casa.

Fazer da moradia um microcosmo isolado espacialmente para simbolizar o próprio isolamento emocional da mulher em um relacionamento abusivo já seria o bastante para tornar o filme interessante. Apesar disso, Tata Amaral vai além e insere a exposição pública pelas mídias como mais uma questão a debater. No terceiro ato, Dalva e Victor ligam uma televisão na cozinha e a dinâmica entre o interno e o externo se modifica. Até então, ruídos distantes tentavam, sem sucesso, invadir o ambiente onde o casal estava, como as orações da mãe presa no banheiro (externo no sentido de extracampo) e a comunicação dos policiais na rua. A partir do instante em que a TV é ligada, o homem e a mulher passam a assistir uma reportagem da imprensa noticiando o que acontece no interior da casa. A mediação do aparelho faz com que a trama também aborde o impacto das mídias sobre eventos trágicos em nossa sociedade, como se fossem espetacularizados ou banalizados. No caso de Dalva e Victor, pode evocar outra possibilidade ainda: a observação das cenas transmitidas pelos repórteres faz com que eles se sintam apartados de suas próprias histórias e vejam tudo de fora, algo especialmente grave para ela.

Nas primeiras aparições da televisão que permite a Dalva e Victor assistirem a si mesmos, a decupagem diferencia o que seria o ponto de vista do filme e o da reportagem jornalística. Entretanto, ambas as perspectivas são formas de mediação para uma história a ser narrada, dotadas de recortes e linguagens próprias. Por mais que a temática se inspire no problema real da violência contra a mulher em nossa sociedade, a abordagem não é universal, objetiva nem atemporal porque diz respeito à visão autoral de Tata Amaral. A construção gradual da tensão e o isolamento da protagonista do mundo como resultados de um relacionamento abusivo são traduzidos pelo uso expressivo de uma única locação. Por isso, “Um céu de estrelas” não se satisfaz em apresentar o ponto de vista da TV como algo alheio à narrativa. Na sua conclusão, as duas perspectivas se fundem e o destino violento que encerra as trajetórias daqueles personagens é visto pelo registro visual de um programa televisivo. Uma decisão final que potencializa toda a experiência cinematográfica sentida até ali.