“UM ZÉ NINGUÉM CONTRA PUTIN” – Individualização de problemas coletivos
A geopolítica mundial e os conflitos dos EUA podem ser observados ao longo da história do cinema. Orientais, muçulmanos e russos já foram transformados em vilões nos mais diversos filmes como reflexo das tensões políticas de dado momento histórico. Nos últimos anos, ganharam projeção documentários críticos ao líder russo Vladimir Putin, como “Ícaro” e “Navalny“. É o caso também de UM ZÉ NINGUÉM CONTRA PUTIN, que aborda as consequências das interferências do governo sobre a educação do país. Trata-se de um problema coletivo, grave para toda a sociedade e com paralelos em outras nações, mas trabalhado sob um ponto de vista individualizado que abala o registro da situação em curso.

Em uma escola na zona rural da Rússia, o cinegrafista/coordenador de eventos Pavel Talankin passa a gravar clandestinamente as mudanças no local após a invasão russa sobre a Ucrânia. A educação de todo o país sofre com um processo de militarização, tanto com a reorientação do ensino para servir de propaganda bélica ou patriótica quanto com a convocação de alunos e ex-alunos para a guerra. Então, ele decide desafiar a política oficial de Vladimir Putin para denunciar os rumos que o sistema educacional tem tomado, apesar de colocar a própria vida em risco.
Há um padrão que se repete por todo o documentário e desvia a atenção de suas maiores virtudes: a sucessão de escolhas narrativas boas e ruins que chamam mais a atenção para o indivíduo do que para o coletivo dentro do colégio. A observação dos danos gerados pela militarização do ensino é o grande ponto de partida. É possível acompanhar, em escala crescente, as atividades para enaltecer o governo e as Forças Armadas, como os momentos de cantos patrióticos, as aulas depreciativas sobre os ucranianos e a formação de um clube juvenil sob ingerência direta de Putin. O registro e a exposição dessas cenas no dia a dia escolar já bastariam para a denúncia, porém o diretor David Borenstein escolhe pesar a mão no uso da trilha sonora para sugerir mistério, drama e humor de acordo com a trajetória de Pavel. Por exemplo, a proximidade de uma ameaça contra o homem faz a narrativa adotar um estilo de suspense e a contextualização da escola ou da cidade leva a um tom leve quase de comédia.
De forma semelhante, o cineasta mal percebe que tem diante de si uma questão norteadora muito forte para conduzir o filme: os sentidos políticos criados pela mediação das imagens. Os vídeos registrados no YouTube e na TV oficial do governo ou as gravações de discursos de Putin projetadas na escola possuem um caráter de propaganda militarista e nacionalista. Em contrapartida, as cenas captadas por Pavel vão na direção oposta para enfatizar os malefícios para a formação dos jovens e a invasão da guerra em seus cotidianos. É assim quando ex-alunos se reúnem periodicamente para manter seus vínculos e, em certo dia, precisam lidar com a partida de alguns para o alistamento militar obrigatório. Logo, é um filme sobre as imagens, ou melhor, sobre um personagem que filma a si mesmo e seu entorno em resposta ao controle exercido pelo Estado russo. Apesar da potencialidade de discutir a representação midiática constante para diversos fins, David Borenstein prefere enfocar sua câmera em Pavel e transformá-lo em protagonista da história. Em vez de dar importância à escola ou aos estudantes, o documentário elege o indivíduo como fio condutor e perspectiva única dos acontecimentos.
O resultado é desperdiçar as possibilidades expressivas para a construção visual da obra. Se o intuito é seguir Pavel enquanto ele filma às escondidas as novas atividades na escola e avalia os impactos da falta de liberdade de estudantes e professores, seria importante integrar essa escolha à mediação feita pelo documentário. Em momentos muitos pontuais, a integração acontece quando Pavel fala diretamente para a câmera (e para os espectadores consequentemente) a respeito dos próximos passos para sua denúncia ou de conflitos internos experimentados diante dos riscos de sua insubordinação. Na maioria do tempo, a narrativa se atém apenas a uma cansativa narração em voice over, que explica tudo didaticamente sem dar espaço para o público lidar com os significados criadas pelas imagens. O recurso também faz com que o público esteja em contato próximo com a subjetividade do professor e, assim, acompanhe o que sente a cada novo movimento. Além de perder ideias mais interessantes para os elementos formais, a centralização em um personagem evidencia os problemas em torno do olhar dado para a denúncia.
Pavel Talankin não é um protagonista convidativo para a imersão pretendida, apesar do filme se esforçar muito para dar a ele uma importância considerável. Primeiramente, tenta fazer o público se importar com ele ao alterar a ordem linear dos eventos e mostrá-lo enviando clandestinamente o material gravado. Nessa passagem, a trilha sonora, a filmagem noturna e a narração em voice over criam uma sensação de ameaça iminente como se o homem fosse uma oposição incômoda para o governo. Com o passar do tempo, fica muito difícil manter a suposição porque o professor não dá sinais concretos de que está enfrentando as políticas de Putin. Seria um grande ato de rebeldia colocar uma bandeira russa de paz em seu escritório? Ou colocar uma música pop estadunidense nos rádios da escola? Predomina nas ações de Pavel uma visão muito superficial sobre resistência política, o que se reflete, inclusive, nas atividades feitas com os alunos para ressignificar as ordens do governo, por exemplo a escrita de cartas para os soldados. A própria caracterização pessoal do sujeito fica muito aquém das afirmativas constantes de ser alguém tão importante para a escola.
“Um zé ninguém contra Putin” se inicia com uma premissa que pode radiografar mais uma demonstração de autoritarismo de Putin na Rússia e dialogar com experiências similares em outras partes do mundo. É o paralelo que se pode fazer entre as interferências militaristas nas escolas russas e as ações neoliberais dos governos de São Paulo e Paraná em colégios precarizados ou transformados em cívico-militares. No entanto, a execução privilegia um indivíduo em detrimento de uma coletividade maior afetada pela retirada da liberdade escolar. Como consequência, o documentário deixa de debater questões relevantes suscitadas por algumas escolhas formais e praticamente cria uma jornada do herói para Pavel Talankin. Ele sai de um ambiente familiar e conhecido, atravessa um ciclo de desafios, aliados e oponentes, lida com as dúvidas internas e conclui seu percurso com a autoaceitação de seu papel opositor e de felicidade com a formação dos alunos. Faltaram na jornada uma dimensão efetivamente política nos atos rebeldes e um personagem mais cativante, pois até mesmo a relação tão amigável com os alunos parece ser uma imposição nada natural do homem.



