“XICA DA SILVA” (1976) – A física e a metafísica da subversão de um destino
Contra todas as probabilidades, no Brasil da segunda metade do século XVIII, uma mulher negra e escrava conseguiu subjugar homens brancos com um poder cuja explicação é ambígua. A partir de uma figura histórica real e de um livro a seu respeito surgiu em 1976 XICA DA SILVA, filme que retrata a trajetória da mulher que encontrou no amor (e na cama) a subversão do seu destino.
No Arraial do Tijuco (MG), Xica é uma escrava do sargento-mor que mantém relações sexuais com o patrão e com seu filho, José. Dotada de um desejo insaciável e capaz de hipnotizar os homens, ela encontra em João Fernandes, um rico contratador de diamantes enviado pela Coroa Portuguesa, a chave para a sua felicidade.

O roteiro do longa é assinado pelo diretor Carlos Diegues e por Antonio Callado, que se basearam no romance “Memórias do distrito de Diamantina da Comarca do Serro Frio”, de João Felicio dos Santos. Publicado em 1868, o livro é uma ficção histórica focada na ascensão e queda da exploração diamantífera do século XVIII na região da atual Diamantina, tendo, contudo, um viés bastante específico a respeito da figura real que retrata, a escrava (posteriormente alforriada) Francisca. Do ponto de vista de dos Santos (um homem branco do século XIX), Chica/Xica (uma mulher negra do século anterior, que teve treze filhos com um homem rico e importante) é o epítome da promiscuidade, uma figura devassa, quiçá perversa e manipuladora cuja conduta é altamente reprovável. O que Diegues e Callado fazem, porém, é modificar um pouco esse perfil. Sem perder a essência radicalmente sexual da sua protagonista, os roteiristas focam nos outros aspectos que permeiam a trama, tendo ela como ponto de partida.
Em meio a um design de produção que reflete o Brasil colônia – leia-se, uma região que se divide entre duas belezas, a da natureza e a da arquitetura típica – e planos majoritariamente abertos para demonstrá-lo está uma sociedade que revela fraturas, corrupção e muita hipocrisia, mas que possui indivíduos dispostos a uma revolução. Enquanto Teodoro (Marcus Vinícius) compreende que atuar à margem da lei é a única maneira de prosperar, José (Stepan Nercessian) é um jovem que assume riscos por entender o quão estagnado está o seu país. Por outro lado, o Intendente (Altair Lima) e sua esposa, Hortência (Elke Maravilha) buscam a preservação do status quo diante do temor de serem prejudicados. Quando é conveniente, reverenciam a Coroa; às escondidas, praticam atos clandestinos tal como faz Teodoro. A diferença não poderia ser outra: o privilégio.
Nesse contexto, João Fernandes (Walmor Chagas) é alguém pragmático, disposto a simular desconhecimento de certas irregularidades se o resultado for mais benéfico (isto é, lucrativo). Isso muda, evidentemente, quando ele conhece Xica, por quem se apaixona perdidamente. Como dito na composição de Jorge Ben Jor (escrita especialmente para o longa), Xica é “a negra” que vai “de escrava a amante”, enquanto “mulher do fidalgo tratador João Fernandes”. Progressivamente, ela se torna “a imperatriz do Tijuco, a dona de Diamantina”, alguém com mais poder do que o próprio Fernandes, que atendia a todos os seus desejos. O fascínio causado por ela nos homens é fruto de atributos físicos e metafísicos (ambíguos, portanto): uma volúpia imensurável, uma beleza incontestável, a consciência da capacidade de submeter esses homens às suas vontades e uma atratividade mesmerizante. Trata-se de um poder resultante dos impulsos carnais, é verdade, todavia a sua capacidade de dominação não se explica apenas pela sua beleza ou mesmo pelo seu desempenho sexual ímpar. O maior exemplo disso ocorre na cena em que Xica dança para o tão esnobe quanto patético Conde (José Wilker): enquanto ela se despe literalmente na cerimônia, ela o despe metaforicamente da arrogância típica daquele que está acostumado à submissão alheia (e não à própria).
O trabalho de Zezé Motta no papel principal é nada menos que esplendoroso. Além de exibir o mencionado fator metafísico (que é inexplicável), a atriz compreende que Xica não é um objeto – embora instrumentalize a si mesma para atingir certos fins -, mas uma mulher cujos grilhões se resumem às suas inesgotáveis ambições, ainda que isso signifique triturar as estruturas sociais. Essas ambições são, por vezes, vaidades pueris – como na descoberta da efemeridade da satisfação de bens materiais, equivalente ao próprio sexo (o que explica o estado constante de não saciedade) -; em outras ocasiões, podem levá-la a arquitetar planos com repercussões políticas. Enquanto Wilker interpreta o Conde como alguém desprezível, Motta faz de Xica uma mulher cheia de vida, resoluta em seus atos, irreverente e deveras perspicaz. Se a natureza onde são encontrados os diamantes é uma força bela e inabalável, o mesmo pode ser dito sobre Xica, alguém que enfrenta quaisquer preconceitos e adversidades inatas para ser feliz.
* Em tempo: além do filme, de 1976, em 1996 houve outra adaptação audiovisual da história, porém em formato de novela.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

