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“15H17 – TREM PARA PARIS” – Montagem que sabota um ufanismo publicitário

Baseado no livro “The 15:17 to Paris: The true story of a terrorist, a train and three american soldiers” (em tradução livre, “O das 15h17 para Paris: A verdadeira história de um terrorista, um trem e três soldados estadunidenses”), que, por sua vez, conta uma história real (como diz o título do livro), 15H17 – TREM PARA PARIS tem poucos elementos dignos de elogio, apesar da direção de um veterano consagrado.

O enredo é centrado em um episódio no qual três soldados estadunidenses (Spencer, Alek e Anthony) impedem um terrorista, munido com um fuzil AK-47, de consumar uma tragédia em um trem que viajava de Amsterdã para Paris. Antes de chegar nesse dia, porém, o plot se inicia na infância dos três, quando se conheceram e se tornaram amigos, prosseguindo até sua juventude.

Do ponto de vista exclusivamente técnico, é certamente um dos piores filmes já dirigidos por Clint Eastwood. Por outro lado, em nada surpreende ser ele o diretor da obra, considerando a presença de dois elementos muito presentes na sua filmografia (ao menos enquanto diretor): o exército (presente, por exemplo, em “Sniper americano” e “A conquista da honra”) e o ufanismo de seu país representado em uma pessoa (presente em “Sully – o herói do rio Hudson” e “J. Edgar”, dentre outros).

A fase da infância apresenta bem o trio ao público. Spencer e Alek sofrem na escola, possivelmente por terem TDA (transtorno do déficit de atenção), o que não é aceito com facilidade por suas mães – interpretadas por Judy Greer e Jenna Fischer, que não vão mal (destaca-se a primeira), apesar do preguiçoso (ou nulo) trabalho de envelhecimento das duas. Um primeiro problema é que vários temas com potencial são mencionados, jamais com aprofundamento: o relacionamento da mãe divorciada com seus filhos pré-adolescentes hiperativos, a suposta má influência de uma criança sobre as demais etc.. Por outro lado, motivação e religiosidade, matérias de relevo em especial para Spencer, recebem um tratamento mais elaborado.

O equívoco foi dar a Spencer os holofotes, deixando desmotivadamente Alek e Anthony (este ainda mais) em segundo plano. A vida do primeiro é relatada em pormenores; do segundo, em flashes. Quanto a Anthony, não se sabe sequer no que ele trabalha! Na prática, o espectador conhece muito bem Spencer, muito pouco de Alek e Anthony é um desconhecido. O único elemento comum a eles – quando crianças – é o militarismo: Alek e Spencer têm um início de aproximação com Anthony vestindo roupas camufladas, o quarto de Spencer tem um pôster de “Nascido para matar” e os três são fascinados por armas (manuseando apenas armas de paintball). Contudo, se os três são os heróis e se a história é contada pelos três, não faz sentido centrar em um – que sequer é bom ator (não que os outros sejam).

Quando adultos, o trio é interpretado pelos verdadeiros Spencer Stone, Alek Skarlatos e Anthony Sadler, na ideia de tornar a película mais fidedigna. A opção não é boa: é evidente que eles não são atores e não têm condições de sustentar o longa, em especial o inexpressivo Alek – já Spencer é o menos ruim. Quando crianças, por outro lado, a situação se inverte, pois Bryce Gheisar (Alek criança), já conhecido por “Extraordinário”, tem um talento notório, diversamente de William Jennings (Spencer criança), que ainda tem muito para aprender.

O que prejudica muito a película é a sua montagem, que sabota o que já não é muito bom. O filme tem três momentos narrativos: quando crianças, quando adultos, mas fora da Europa, e quando adultos, na Europa. Seguindo a ordem cronológica, a narrativa é eficaz, errando com incômodos flash forwards, que ficam muito deslocados. As elipses são irregulares e equivocadas ao deixar vácuos (como quando Alek se une aos outros dois na Europa). Além disso, há cenas esparsas em razão do seu não desenvolvimento (como a que Alek está em um bar na Alemanha) e é inexplicável o alongamento exagerado da estada na Itália – quase uma propaganda turística do país, ao som de Dean Martin cantando “Volare – An evening in Roma” (ao menos a música combina). No clímax, os cortes ficam demasiadamente rápidos, poluindo visualmente a ação. O desfecho é autenticamente emocionante, em especial pela forma como ocorre, todavia não passa de um ufanismo publicitário (o que se verifica em inúmeros outros filmes hollywoodianos) a partir de uma história que nem é das melhores sobre terrorismo.

Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

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