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“A BALADA DE BUSTER SCRUGGS” – Um passeio pelo Velho Oeste

A filmografia dos irmãos Coen transita pela comédia, pelo suspense, pelo faroeste e por outros gêneros cinematográficos de modo extremamente peculiar, não se contentando apenas a seguir as convenções estabelecidas. Os diretores desconstroem essas características marcantes a partir de sua linguagem própria: diálogos absurdos, personagens excêntricos e paródias das convenções de gênero. A BALADA DE BUSTER SCRUGGS é o mais recente trabalho da dupla, produção original Netflix, e uma antologia de histórias carregadas de seu estilo aplicado ao western.

Os seis pequenos contos se passam no Velho Oeste norte-americano e reúnem uma galeria de diferentes personagens: pistoleiros cantores, caçadores de recompensa, mineiros, condenados a forca e tantos outros tipos relacionados àquele universo. Cada uma das histórias oferece reflexões profundas sobre a natureza humana ou exemplos da insensatez humana. A narrativa segue também as influências literárias de sua proposta ao introduzir as pequenas histórias com imagens das páginas de um livro sendo folheadas e ilustrações dos contos mostradas. Trata-se de um recurso simples e direto para indicar visualmente a criação da antologia.

Mesmo que o nível das histórias possa oscilar um pouco, tendo deficiências no desenvolvimento do roteiro ou dos personagens, o filme ainda assim possui predicados consideráveis. O trabalho com diferentes gêneros e os exercícios estéticos propostos pelos cineastas fornecem uma experiência cinematográfica expressiva visualmente e eficiente como entretenimento. Joel e Ethan Coen concretizam essas virtudes através de várias referências às convenções do faroeste, como os saloons, duelos de revólveres na rua central, conflitos entre peregrinos norte-americanos e indígenas, assaltos a bancos e caçadores de aluguel – tais elementos são trabalhados com o humor negro característico dos diretores, visto em diálogos irônicos ou em situações irreais que chocam pela surpresa, por alguma ação inesperada ou por um ato de violência atrapalhado.

Quando se trata da primeira história, que dá nome ao filme, a inspiração dos irmãos Coen está no auge. Buster Scruggs é um foragido da justiça, que viaja pelo Velho Oeste utilizando sua pistola e seu violão em cada um dos muitos conflitos em que se envolve. É possível perceber a utilização de diversas técnicas distintas que constroem uma trama de ritmo contagiante e energia constantemente elevada: a trilha sonora de Carter Burwell repleta de canções country; a atuação inspirada de Tim Blake Nelson, reunindo o sotaque texano, modos carismáticos e comportamentos violentos associados à habilidade com armas; a quebra da quarta parede por Buster Scruggs; as sequências violentas próprias do faroeste; e o figurino branco e elegante do protagonista em contraste com a sua própria violência e com os demais figurinos escurecidos e sujos do restante do elenco.

Apesar de estarem abaixo do primeiro segmento, também merecem destaque “Near Algodones” e “The Mortal Remains”. Na primeira, o personagem vivido por James Franco planeja uma assalto a banco que não sai como o esperado e provoca consequências impensadas; nela, há o bom uso de sons diegéticos que compõe a atmosfera do faroeste (como os ruídos de uma placa se chocando contra um poço) e uma ironia constante que parodia a violência do gênero. Na segunda, o personagem interpretado por Brendan Gleeson transporta com seus companheiros de trabalho três passageiros em uma carruagem enquanto conversam; nela, os diálogos combinam o humor absurdo (a comparação entre os seres humanos e furões, por exemplo) e as digressões filosóficas sobre a natureza humana e o sentido do amor, além de a fotografia transmitir o caráter macabro do desfecho a partir da iluminação azulada que substitui a luz natural anteriormente usada.

Os outros segmentos da produção apresentam algumas oscilações na definição ou no desenvolvimento de seus temas – o universo específico e a dinâmica inicial dos personagens são bem apresentados, porém avançam pouco em comparação com suas potencialidades. Nem por isso, são histórias carentes de pontos positivos: em “The Meal Ticket”, tendo a presença de Liam Neeson, se destaca o caráter melancólico da história de dois artistas que excursionam pelo território se apresentando mesmo com um público muito pequeno; em “All Gold Canyon“, os planos gerais e a fotografia construída em torno da luz natural e de paisagens belíssimas enfocam a ambição humana em meio à natureza grandiosa; e em “The Girl Who Got Rattled” a trajetória de uma mulher sozinha em uma caravana pelo Velho Oeste é concebida como um romance de grandes percalços que se encerra dentro do conhecido estilo tragicômico dos irmãos Coen (também utilizando planos gerais que possam ambientar o público àquela realidade.

Através de cada um dos contos narrado, “A balada de Buster Scruggs” se torna uma produção capaz de construir um universo western com suas regras e interações próprias. Joel e Ethan Coen ainda inserem diversos aspectos clássicos de sua filmografia para reinterpretar um gênero cinematográfico tão presente nos EUA dentro de uma ótica contemporânea e autoconsciente. Uma perspectiva que, nas mãos corretas, produzem um mundo à parte dotado de um sentimento coletivo que atinge pistoleiros, caçadores de recompensa, assaltantes, xerifes e espectadores.

Um resultado de todos os filmes que já viu.