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“A CAMINHO DE CASA” – Adote seu pet

Depois de “Sempre ao seu lado” e, principalmente, “Marley e eu”, todos os filmes centrados em cachorros entram em uma vala comum. Nem todos, porém, adotam o melodrama como tonalidade principal. As duas obras literárias de W. Bruce Cameron que se tornaram filme – “Quatro vidas de um cachorro” e A CAMINHO DE CASA – evitam o sentimentalismo e colocam os cachorros como personagens principais, dando-lhes voz (literalmente) e os inserindo em aventuras cômicas. Com mais camadas, a fórmula daria certo.

Em “A caminho de casa”, Bella é uma filhote mestiça de pitbull cuja família inicial é de gatos, mas que acaba sendo adotada por Lucas, um humano carinhoso que dá a ela um lar feliz. Quando Bella é forçada a permanecer um tempo longe de casa – sem entender o motivo -, arranja um jeito de se voltar, não sabendo que enfrentaria uma distância de quatrocentas milhas.

Cartaz de “A caminho de casa

Evitar o sentimentalismo e abraçar o humor é uma regra levada bem a sério pelo filme – exceção feita a apenas uma cena, já ao final. Cameron e a corroteirista Cathryn Michon prezam pelo humor verbal, de modo que a surpreendente dublagem de Bryce Dallas Howard é mais que certeira. A atriz dá a Bella uma voz infantil com entonações vocais típicas dos infantes, como a empolgação pelas pequenas coisas, o que combina muito com a infantilidade da própria personagem.

Bella é realmente uma cadela divertida e sua narração exibe ao público humano o funcionamento do mundo na ótica canina, segundo a qual tudo é brincadeira – ir ao trabalho, destruir o sapato, comer um “pedacinho de queijo” e assim por diante. Se ela vê uma pessoa triste, se sente impulsionada a consolar, pois foi o que aprendeu com a Mamãe Gata. Apesar de uma primeira experiência ruim com humanos, o trauma não foi suficiente para que ela concluísse que todos são maus: alguns caçam e até matam animais semelhantes, outros, porém, são solidários e dão comida aos “colegas”. Nomes como “Dentão” e “Descabelado” são exemplos dessa vive bem-humorada.

Uma das falhas do roteiro reside na mudança de foco temático ao final – sem olvidar equívocos mais graves, como um vilão principal que nada mais é que um capanga cuja motivação é absolutamente desconhecida, além de um vilão real que é completamente esquecido da narrativa. Em uma primeira parte, a ideia governante está na solidariedade entre os animais, o que fica claro quando Bella assume uma função semelhante à Mamãe Gata. Mais tarde, todavia, o foco está na noção de pertencimento, no sentido de que todos têm seu lugar. No segundo caso, um alargamento seria salutar: todos são necessários e têm um papel altruísta a cumprir. Outro desperdício é a discussão sobre o cumprimento cego da lei, cuja abordagem en passant é uma boa oportunidade perdida.

O elenco humano, liderado pelo apenas carismático e sorridente Jonah Hauer-King, ao lado de Ashley Judd e Alexandra Shipp, não tem muito brilho. O primeiro é quem mais aparece, Lucas é, inclusive, o mais enfático no discurso de solidariedade. Mesmo Judd sendo a mais experiente, não convence como uma veterana de guerra.

As composições de Mychael Danna são genéricas e usadas com função de preenchimento. Na direção, Cameron não consegue dar um bom ritmo à película, que, a despeito da curta duração (cerca de uma hora e meia), se torna cansativa e repetitiva demais (algo imperdoável para essa extensão). Visualmente, o trabalho de computação gráfica é decepcionante e, nos momentos em que precisa ser bom (como na cena dos lobos), o nível é amador. Outros estúdios conseguiriam fazer um puma de CGI muito melhor.Se “A caminho de casa” não chega a ser uma ofensa ao espectador, também não é um filme minimamente memorável. O longa tem personalidade, pois a opção pela comédia é consciente e o conteúdo é fiel a essa premissa. Contudo, faltam-lhe virtudes consistentes para chegar ao nível do satisfatório. Se a ideia é a fofura em si mesma (que, sim, está presente), melhor que o público adote seu pet e cuide bem dele; momentos de fofura não faltarão.

Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.