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“A CINCO PASSOS DE VOCÊ” – Remake espiritual

Pode parecer que A CINCO PASSOS DE VOCÊ seja uma cópia genérica de “A culpa é das estrelas”. A comparação é inevitável e, desse ponto de vista, o de 2014 é bem melhor que o de 2019 – leia-se, mais original, mais marcante, mais subversivo e mais emocionante. O que não significa que seu “remake espiritual” seja perda de tempo.

Stella e Will estão internados em um hospital para tratar a doença da qual ambos padecem, a fibrose cística. Quando se conhecem, se apaixonam. Porém, um obstáculo para esse amor é a própria doença, que impede que fiquem próximos um do outro a uma distância menor que um metro e meio.

Cartaz de “A cinco passos de você

O roteiro de Tobias Iaconis tem um encaminhamento óbvio, todavia as engrenagens do script se adéquam perfeitamente ao modelo actancial de Greimas: no eixo da prova, o sujeito é a protagonista Stella, o ajudante é seu melhor amigo Poe e o oponente é a enfermeira Barb (além, é claro, da doença); atravessando o eixo do desejo até o eixo do poder, o objeto (o que motiva o sujeito) é a concretização do amor de Will, o destinador (força que move o sujeito ao objeto) é o amor recíproco que o casal sente e o destinatário (quem se beneficia se o sujeito alcançar o objeto) é a própria Stella. Em síntese, a garota quer ser feliz com o rapaz e conta com a ajuda do amigo, porém existem forças que os afastam. Um modelo clichê, mas sempre funcional.

Essa lógica distancia um pouco “A cinco passos de você” de “A culpa é das estrelas”: a falta de perspectiva de futuro é fator comum, porém apenas no primeiro a felicidade como casal, ainda que efêmera, é mera utopia. Em relação à doença, o didatismo do longa é salutar visando a instruir a plateia, mas merece elogios principalmente pela maneira orgânica como os ensinamentos são inseridos – no canal que Stella tem no Youtube e que é acompanhado por Will (sua “aula” é vista pelo espectador quando ela grava e quando ele assiste). Se o plot é superficial na abordagem do dilema da morte iminente, ao menos é educativo quanto à fibrose cística.

No papel de Will está Cole Sprouse, um papel ingrato: o garoto precisa ser um galã antipático, sem muito tato, desiludido e com um quê de arrogante. No início da interação com Stella, ele faz piadinhas e a provoca, sabendo que ela acha fofo (o que ela não nega), porém ele é muito relapso em relação ao tratamento, o que a irrita e o distancia da amabilidade de um Augustus Waters (papel de Ansel Elgort em “A culpa é das estrelas”). Enquanto personagem, Will não chega aos pés do carisma de Gus, mas a culpa, nesse caso, não é das estrelas Sprouse e Elgort (o infame trocadilho foi acidental), mas das personagens em si.

Como o relacionamento do casal tem duas fases – de amizade receosa e, depois, de paixão inagável -, na segunda, ele se torna bem mais agradável. Não é exagero atribuir à Stella de Haley Lu Richardson esse mérito: não que a personagem dela tenha um fração do encanto de Hazel Grace (papel de Shailene Woodley em “A culpa é das estrelas”), porém ela faz com que o amado seja mais amável. Na primeira fase, ele insiste em ser tão desagradável que ela chega a reclamar: “pode parar de me lembrar que estou morrendo?”. A hostilidade dela na primeira conversa é compreensível. Na segunda, ele descobre que o amor liberta e, assim, se vê livre do estado depressivo e apático. Mais um quesito básico de roteiro cumprido: as personagens se transformam. E Stella não é exceção, já que descobre o amor graças a ele. De uma garota neurótica e obcecada por organização e conhecimento ela vira uma jovem disposta a encontrar a felicidade enquanto vive – sem se importar com o tempo em que viverá, mas com o aproveitamento desse tempo.

Como coadjuvantes, Kimberly Hebert Gregory vive a personagem que certamente soa mais real, já que a enfermeira Barb, quase como uma vilã, monitora os jovens para que não causem riscos a si mesmos. Ou seja, é uma adulta responsável. Will e Stella são nefelibatas (na segunda fase), o que, contudo, é aceitável no gênero romance. Moises Arias torna Poe a personagem mais cativante (a despeito da previsibilidade de seu arco dramático). Dessa vez, valeu o talento, já que o ator é inquestionavelmente o melhor do trio principal.

A direção de Justin Baldoni é beneficiada pela melhora narrativa quando Will e Stella assumem a reciprocidade do afeto. O cineasta usa um recurso trivial – porém, funcional – nas cenas de introspecção: slow motion, ausência de falas e música potente. A música-tema “Don’t give up on me”, de Andy Grammer, combina bastante com a película, porém a trilha musical de Brian Tyler e Breton Vivian é um pouco insossa. Há no filme, entretanto, bons atributos, como ao utilizar um taco de sinuca como criativo elemento simbólico – a sequência mais despudorada se torna terna e delicada.

Não é preciso fazer muito para agradar ao público young adult que gosta de romances. Estão ávidos por amores impossíveis e contemporâneos que causem lágrimas. Está aí mais um exemplar.

Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.