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“A FREIRA” – O medo sucumbiu

Uma parte do terror mainstream de qualidade atualmente está vinculada ao nome de James Wan. O trabalho dele nos dois filmes “Invocação do mal” uniu elegância de estilo e genuína atmosfera amedrontadora, além de ter estabelecido uma série de ganchos (eficientes) para novas produções passadas no mesmo universo. Outros realizadores aproveitaram a possibilidade: tudo começou com a demoníaca boneca Anabelle e agora chegou em A FREIRA. Nesse filme, um padre e uma jovem noviça são convocados para investigar o suicídio de uma freira numa abadia romena na década de 1950.

Uma sinopse breve e de poucas linhas é o suficiente para indicar como a história é um fiapo narrativo, um mero pretexto para tentativas de sustos e para uma atmosfera razoavelmente tensa. Alguns flashbacks são inseridos com o intuito de tentar sedimentar uma trama pobre e rasa: uma milenar ameaça demoníaca conjurada por razões escusas que precisa ser permanentemente contida – nada muito interessante surge daí, em razão do caráter genérico e aleatório com que são apresentados os momentos de surgimento e reaparecimento do demônio. Ainda existem problemas para conectar os múltiplos detalhes da história às soluções dadas pelos personagens, uma vez que as revelações são apresentadas sem preparação nem pistas lançadas gradativamente (por exemplo, as descobertas da natureza do demônio e de como os protagonistas podem enfrentá-lo são jogadas repentinamente sem qualquer explicação verossímil).

A condução da narrativa também é prejudicada pelos arcos dos personagens e pelas atuações oscilantes. O padre Burke, vivido por Demián Bichir, é concebido como um clérigo experiente na luta contra o sobrenatural e atormentado por um passado traumatizado não para atravessar conflitos dramáticos, mas para promover instantes de susto – o ator, no entanto, não transmite nem os sofrimentos pelos traumas nem sua experiência religiosa. A Irmã Irene, vivida por Taissa Farmiga, evoca uma inocência juvenil em contraposição útil ao risco mortal que corre, porém a atriz carece de material para explorar dimensões subdesenvolvidas da sua personagem – menções a um comportamento não ortodoxo, a um questionamento das regras da Igreja Católica e da própria vocação religiosa e às suas visões religiosas misteriosas estão no primeiro ato e desaparecem ou têm um desfecho anticlimático no terceiro ato. E Frenchie, vivido por Jonas Bloquet, representa bem o morador local próximo da abadia, que é um bon vivant mulherengo e que teme verdadeiramente o mal daquela área – pena que o roteiro insiste em utilizá-lo como um alívio cômico desconectado da trama.

Se nos quesitos roteiro e personagens há equívocos consideráveis, a parte técnica é desequilibrada. Símbolo dessa situação é a trilha sonora, composta por Abel Korzeniowski. Existem dois timbres diferentes que pontuam a narrativa com funções próprias e resultados díspares: um agudo em tom de suspense usado em demasia, que se torna redundante e incapaz de sustentar o suspense quando deveria; e um grave em tom operístico e majestoso (típico de procissões religiosas) nos momentos de clímax do terror que consegue aproximar bem o sagrado e o profano.

As discrepâncias igualmente se fazem presente na direção de Corin Hardy. O cineasta, quando se apoia nos clichês do gênero, compromete a atmosfera do filme e muitas set pieces (recorrer a jump scares previsíveis e a pretextos incompreensíveis para separar os personagens que precisariam estar unidos empobrece a construção da tensão). Entretanto, quando ele busca um requinte maior na movimentação da câmera e nos enquadramentos, há uma pequena evolução (usar movimentos horizontais de câmera para ocultar ou mostrar repentinamente algo em tela e combinar uso das sombras com baixa profundidade de campo criam tensão pela sugestão da ameaça do desconhecido). Se, por acaso, essas poucas escolhas boas se multiplicassem na projeção, o saldo do trabalho Corin Hardy não teria sido negativo.

Entre os aspectos técnicos, o mais sólido é o design de produção de Jennifer Spence. A realizadora torna a abadia um local claustrofóbico e repleto de sombras, capaz de despertar os mais profundos medos durante a travessia pelos seus corredores estreitos e lúgubres. Além disso, é importante observar a recorrência de cruzes ou de objetos nesse formato espalhados pela abadia e pela floresta ao seu redor – tais imagens reforçam a urgência de tentativas de proteção espiritual naquele ambiente amaldiçoado.

Ao iniciar e se encerrar com trechos de “Invocação do mal”, “A freira” faz questão de comprovar sua ligação com o filme de James Wan. Uma preocupação tão intensa que acaba relegando a um lugar secundário a construção plena de sua atmosfera e dos sustos que deveria causar. Há aqui um exemplo concreto de como interesses comerciais por uma franquia podem trazer malefícios cinematográficos.

Um resultado de todos os filmes que já viu.