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A VERDADEIRA MAGIA DO CINEMA

Diz uma lenda da história do cinema que, durante a exibição do curta “A chegada do trem na estação”, dos irmãos Lumière, o público teria se atirado ao chão, acreditando que o trem iria atingi-los. Não é possível afirmar se isso de fato aconteceu, mas a história foi repetida tantas vezes durante as décadas que, quando Martin Scorsese fez “A Invenção de Hugo Cabret”, prestou uma singela homenagem aos “pais do cinema”, desta vez utilizando as possibilidades do cinema 3D.

Pouco importa se as pessoas realmente se assustaram. Contar uma história no cinema é fazer magia através de uma câmera. É oferecer ao público um universo, no qual ele deve acreditar durante o tempo do filme. Você pode migrar para outra realidade, onde o inimaginável se torna banal ao atravessar um guarda-roupas ou uma estação de trem, ou você pode dar uma volta num parque onde dinossauros realmente existem. Nada disso teria valor se o público não conseguir acreditar no que está acontecendo na tela.

A mitologia que envolve a exibição dos Lumière não é sobre o que de fato aconteceu, mas sobre o que pode acontecer. Não sobre se atirar ao chão para não ser atingido por um trem (ou por uma pedra, uma bala ou qualquer objeto), mas sobre acreditar no que está acontecendo. A verdadeira magia do cinema não está nas CGIs (da sigla em inglês para Imagens Geradas por Computador), mas no uso desse recurso de forma natural e inteligente.

Quando Willis H. O’Brien criou sua miniatura do King Kong do filme de 1933, mais do que dar vida a um boneco, ele estava dando vida ao filme. Sua técnica para fazer stop motions tornou-se célebre, não por ser inédita (o conceito é anterior ao filme), mas pelo rigor dedicado à criação do monstro. Para quem via o filme, tudo ali era real. Não há poder maior a ser explorado pelo cinema do que fazer as pessoas acreditarem.

Prova máxima disso está na icônica figura de Ray Harryhausen. Sua habilidade com o stop motion segue lendária e inigualável. Suas criaturas eram capazes de realizar os mais improváveis movimentos, cada um deles animados quadro à quadro, e individualmente. Em “Jasão e o Velo de Ouro”, o trabalho em parceria de Harryhausen e do diretor Don Chaffey, garantiu uma das melhores sequências no uso de stop motion no cinema, durante o despertar de Talos. Suas proporções não apenas são mantidas como o uso do barco para dar noção da dimensão do gigante faz com o público esteja sempre ciente das escalas. A cena em questão é tão emblemática que Guillermo del Toro fez uma belíssima homenagem (e com o mesmo propósito) em “Círculo de Fogo”.

Mas se os efeitos especiais precisam nos fazer acreditar no que está sendo exibido, coube a Stanley Kubrick adicionar um novo elemento e utilizar a magia do cinema para nos deixar confuso. Em “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, não bastasse seu início impecável, que nos joga diretamente numa África pré-histórica e selvagem, todas as sequências espaciais foram dirigidas com um primor poucas vezes vistos no cinema. Os astronautas andam pelas paredes, sobem ao teto, os objetos flutuam. Tudo devido ao (quase) total vácuo do espaço. Em tempos onde tudo era produzido de maneira analógica, tal feito é absolutamente fantástico.

A era da computação trouxe um novo elemento para toda essa magia. Foi possível colocar nas telas criaturas extraordinárias. Foi possível construir cenários inteiros e até mesmo elementos de tela, que antes não eram possíveis com recursos práticos. “Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros” foi, certamente, o primeiro dos mais revolucionários filmes nesse sentido. Ao ver o filme pela primeira vez, o público conseguia se colocar com muita facilidade na pele do paleontólogo Allan Grant. O filme abriu as portas para o uso de CGI no cinema, como um recurso viável. E ela nunca mais foi fechada.

Seria besteira querer falar sobre os marcos que surgiram desde então. As evoluções, que antes levavam décadas para acontecer de maneira significativa, passaram a levar poucos anos (entre “Jurassic Park” e “O Quinto Elemento” passaram-se apenas cinco anos, porém a evolução é enorme). Talvez a última grande descoberta para os efeitos especiais tenha surgido com “Matrix”. As icônicas cenas utilizando o recurso hoje conhecido como bullet-time são belíssimas. Tornam-se mais interessantes por se tratar da última descoberta possível para uma câmera de vídeo, afinal, o recurso é tão simples que o cinematógrafo dos irmãos Lumière seria capaz de reproduzir.

Hoje nos resta o avanço tecnológico, que, quando aliado ao capricho das equipes de efeitos especiais, é capaz de nos oferecer algumas das mais maravilhosas experiências cinematográficas. Basta um olhar atento ao inesquecível Gollum, um trabalho desenvolvido pela ainda novata Weta Digital. O resultado é tão maravilhoso aos olhos de quem vê o filme que, por vezes, é quase imperceptível que boa parte do que sobra também foi criado por computadores. Das legiões de orcs, dos quais poucos eram atores que foram multiplicados posteriormente, aos olifantes e os Ents. A criação é tão bem realizada que seria mera implicância infantil apontar possíveis erros técnicos.

E se Gollum impressiona pela realidade de um ser surgido na imaginação, o que dizer de Caesar, na recente trilogia de “O Planeta dos Macacos”? Uma criação digital que caminha com elegância entre o símio e o humano. Ao mesmo tempo em que é nítido que se trata de um chimpanzé, é facilmente perceptível o rosto de Andy Serkis ali. Dificuldade em dobro, pois, diferente de Gollum, a figura dos primatas é comum para nós. E ali não há quem não note a marcante figura híbrida como uma personagem real e não algo criado digitalmente.

Cada vez mais o uso dos recursos digitais no cinema ganha um peso maior. Existem as obras em que o resultado final o justifica, como “Avatar” e a franquia “Star Wars”. Em outros, como “Transformers” e “Círculo de fogo: a revolta”, o excesso torna tudo ainda mais genérico. As possibilidades estão a cada dia mais próximas do infinito. Talvez chegue o dia em que não haja mais limite para o que pode ser criado através dos efeitos especiais, sejam eles digitais ou práticos. Mas, seja como for, o importante é que cada um desses vindouros filmes nos faça acreditar no que estamos vendo. Que eles façam com que queiramos nos jogar ao chão, com medo do trem que se aproxima de nós.

Estudante de jornalismo, cinéfilo e escritor nas horas vagas. Apaixonado por cerveja, café e literatura sci-fi e policial. Acredita na honestidade dos filmes ruins e que Ringo Starr sempre foi o melhor dos Beatles.