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“A VERY ENGLISH SCANDAL” – O escândalo é a hipocrisia

A VERY ENGLISH SCANDAL é uma minissérie da BBC baseada em fatos reais na Inglaterra entre os anos 1960 e 1970, que se relaciona fortemente com a atualidade. O retrato de Jeremy Thorpe, parlamentar britânico envolvido em um caso homossexual que tenta encobrir a qualquer custo, não apenas analisa esse recorte histórico como também evoca discussões necessárias e urgentes em 2019. Além da importância de seu tema, a obra também possui qualidades narrativas na construção da trama e dos personagens.

Cartaz de “A very english scandal

A minissérie é estruturada em três episódios capazes de abordar as diferentes dimensões do acontecimento. A abertura apresenta o conflito central no Reino Unido em uma época em que a homossexualidade ainda era vista como ato proibido e criminoso: Jeremy Thorpe é um político em ascensão, que chega à liderança do Partido Liberal, decidido a esconder seu relacionamento amoroso com outro homem, Norman Scott; algum tempo depois, quando o ex-amante ameaça revelar o caso, Jeremy elabora um plano para silenciá-lo, o que gera um grande escândalo. Nos capítulos seguintes, os desdobramentos da situação são trabalhados, enfocando as ações e motivações dos personagens e a homofobia existente na sociedade em geral a partir da tentativa de assassinato de Norman.

Como se percebe, o número reduzido de episódios não é um impedimento para a exploração de muitos aspectos da trama. Tantas nuances e camadas são possíveis graças ao ritmo dinâmico de uma narrativa econômica: em menos de uma hora, cada capítulo retrata muitos acontecimentos dentro de várias passagens de tempo sem nunca perder a unidade temática e cronológica. Tudo se desenvolve sem sobras nem elementos trabalhados apressadamente, fato este fundamental para construir as interações entre os personagens e o peso do conflito com um ritmo constante e coeso. Dois recursos contribuem para essa situação: a montagem certeira, que mostra claramente a cronologia, e os fatos essenciais da história, assim como a trilha sonora incidental que cria tons cômico, dramático ou trágico, dependendo da cena em questão.

Partindo desse evento circunscrito, é possível contextualizar historicamente o momento social mais amplo da homossexualidade na Inglaterra da década de 1960. Ela é tratada como um crime e como um “modo de vida” desagradável, repulsivo e promíscuo por diferentes personagens, fossem eles agentes da lei ou indivíduos comuns. A homofobia, portanto, aparece no campo jurídico e dentro do Parlamento através das leis que ainda criminalizavam a orientação sexual; nas atitudes dos parlamentares que acreditam ser uma ofensa discutir ou alterar a legislação; e nas pressões sociais que definem um relacionamento homossexual como um escândalo vergonhoso obrigatoriamente escondido, algo que impacta nos dois personagens centrais.

Hugh Grant vive Jeremy Thorpe como um sujeito carismático, de boa oratória e aparentemente gentil com Norman quando o conhece; entretanto, o tempo prova que ele considera o relacionamento uma mera aventura descompromissada, negando seus sentimentos e os do parceiro, e um episódio que precisa ser escondido para não comprometer sua carreira política – nesse sentido, busca casamentos de fachada e demonstra grande frieza ao planejar a morte de Norman. A performance do ator reforça a posse autoconfiante, egocêntrica e hipócrita do personagem através das mudanças sutis em sua expressão facial. Já Ben Whishaw traduz muito bem a timidez, a insegurança da própria sexualidade e o arco de conquista de confiança e determinação para enfrentar Jeremy e todo um sistema social opressivo; o processo de autoconsciência do personagem o leva a se assumir gay publicamente, como se percebe na cena de sua saída do tribunal.

Em termos visuais, a minissérie apresenta resultados irregulares na reconstituição de época. O design de produção não é tão valorizado, mesmo esse tipo de história sendo marcante na filmografia do diretor Sthephen Frears, porque existem poucos planos gerais para localizar os ambientes e o contexto histórico – são usados muitos mais planos conjunto em que o personagem ganha mais destaque do que o cenário – e muitas sequências internas filmadas em prédios do Parlamento ou em casas comuns. Em contrapartida, o figurino acerta em representar um setor da sociedade inglesa: os parlamentares da Câmara dos Comuns, políticos não descendentes de linhagens aristocráticas tradicionais, mas provenientes de uma origem burguesa – as vestimentas traduzem elegância, seriedade e formalidade sem cair em um luxo excessivo.

O cineasta não procura chamar a atenção para sua direção, optando por discretamente construir planos e enquadramentos que evoquem o estado psicológico dos personagens (principalmente, a partir de closes expressivos em momentos de conflito emocional ou afirmação de personalidades e ou de atitudes). O trabalho de Stephen Frears se une ao da montagem para conferir agilidade ao ritmo da obra e um humor tipicamente inglês, caracterizado por finas ironias ácidas – esse tom cômico muito particular ridiculariza os interesses políticos e os jogos de poder envolvendo assuntos íntimos, zomba das estratégias pensadas por Jeremy Thorpe e se expressa também através de uma trilha sonora que pontua cenas dramáticas com acordes leves e lúdicos.

Após a imersão em seus três episódios, o público sai de “A very english scandal” afetado duplamente pelo que presenciou: reflexivo por identificar que o escândalo realmente existente se encontra na hipocrisia do líder do Partido Liberal apresentar comportamentos tão conservadores e retrógrados (assim como a sociedade no geral); e incomodado por saber que a produção reverbera até hoje, um tempo que ainda violenta e ofende os homossexuais, seja nas atitudes sociais, seja nas lacunas da lei. Como toda boa obra de conteúdo histórico, ela informa sobre o passado e o presente.

Um resultado de todos os filmes que já viu.