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“ANIMAIS FANTÁSTICOS: OS CRIMES DE GRINDELWALD” – Enganando a fome

Por mais deliciosa que seja uma goma de mascar, ela não alimenta. Com sorte, ela pode, no máximo, enganar momentaneamente a fome. O que ANIMAIS FANTÁSTICOS: OS CRIMES DE GRINDELWALD faz é justamente isso: engana o espectador faminto por viver um pouco mais do universo mágico de Harry Potter, mas essa fome não vai acabar com uma obra tão inferior. E, tal qual uma goma de mascar, que, grosso modo, não tem propriedades nutricionais de relevo, o filme não é um exemplo na sétima arte.

Em “Animais fantásticos e onde habitam”, o poderoso bruxo das trevas Grindelwald foi capturado pela MACUSA (Congresso Mágico dos EUA), com a ajuda de Newt Scamander. Na continuação, “Os crimes de Grindelwald”, o vilão escapa e passa a disseminar a ideia de que os magos de sangue puro devem dominar os não-mágicos, angariando muitos seguidores. Percebendo a divisão do mundo bruxo e temendo pelo futuro, Alvo Dumbledore pede ajuda a seu ex-aluno Newt.

Em termos narrativos, o roteiro de J. K. Rowling é desastroso. Não se trata de questionar a criatividade admirável da autora, tampouco o engajado subtexto da sua obra. O universo mágico é expandido, com novos feitiços e criaturas fantásticas encantadoras. Quanto ao subtexto, embora o protagonista defenda não escolher um lado, a bipolaridade presente entre os bruxos é uma metáfora eficaz para a divisão da política mundial (na lógica de que “quem não está comigo está contra mim”).

Em alguns momentos, o discurso é explícito, como quando Newt diz que “não existe gente estranha, só gente preconceituosa” ou quando Queenie e Jacob defendem que seu amor legitima a união entre eles (mesmo quando a sociedade entende que não podem ficar juntos). Em outros, porém, faltou coragem ao roteiro (e à produção como um todo): dado o cenário mundial de preconceito e intolerância, o poder de sugestão é insuficiente. Certamente haverá quem, a pretexto da ausência de explicitude, sustente que uma atmosfera romântica e a expressão “mais que irmãos” signifique amizade e não namoro entre das personagens.

A opção pela sutileza presta, na prática, um desserviço social, pois permite o discurso dissimulado e demonstra covardia com a retaliação. Covardia que causa estranheza se considerada a insistência no controverso Johnny Depp no papel de Grindelwald: o ator vai bem no papel e praticamente esquece os tiques de Jack Sparrow pela primeira vez em anos (o visual colabora, notadamente os olhos de cores figurinos e o figurino preto, oposto à maquiagem de palidez e ao cabelo claríssimo), tendo no vilão uma personagem deveras interessante. Porém, em um universo mágico, qualquer ator poderia assumir o papel com uma explicação plausível.

O script de Rowling se preocupa em inserir incontáveis easter eggs (Dumbledore falando de pássaros mágicos, o retorno de Hogwarts, o aparecimento de uma personagem usando maquiagem péssima) que representam a nostalgia de uma geração – há muito fan service e pouco cinema -, contudo a narrativa elaborada é arrastada, confusa e desnecessária. O primeiro filme é de apresentação; o segundo, de enrolação: há um falso triângulo amoroso sem utilidade, uma personagem como mcguffin sem aproveitamento – aliás, o excesso de personagens é um incômodo claro, vez que Rowling não consegue dar espaço e utilidade, concomitantemente, a todas elas -, cenas inoportunas (Newt e Tina não poderiam encontrar momento melhor para uma “DR”?) e uma trama familiar extremamente confusa e que, a rigor, representa um elastecimento desnecessário de um plot vazio narrativamente. Em outras palavras, os acontecimentos do longa podem ser resumidos em poucas linhas, simplesmente porque não acontece praticamente nada em duas horas e quinze de filme. O único acerto evidente do texto é retomar a atmosfera sombria e séria da segunda metade da franquia “Harry Potter”, reduzindo drasticamente o teor humorístico (até mesmo os animais recebem função maior que fofura e alívio cômico).

Nem tudo, entretanto, é ruim em “Os crimes de Grindelwald” – muito pelo contrário. Eddie Redmayne cresce em relação ao primeiro filme e deixa inequívoco que seu Newt Scamander é capaz de protagonizar uma franquia. O Oscar pode parecer uma consagração precoce, mas basta ver o carinho autêntico que ele nutre pelos animais fantásticos que já é possível concluir que o ator é dedicado (afinal, ele interage com objetos inanimados na prática). Joshua Shea faz uma incrível versão infantil do protagonista, repetindo o jeito desengonçado e o olhar ingênuo voltado para baixo. Jude Law dá a Alvo Dumbledore características não vistas antes, porém não se afasta completamente dos seus antecessores, dando uma energia coerente com a jovialidade do papel. O ator foi um dos acertos da produção.

David Yates já tem domínio do mundo mágico de Harry Potter, repetindo a excelência dos efeitos visuais e seu método próprio de filmagem – movimentação lenta de câmera nos planos abertos, com travellings, acelerando a depender da ação da cena, em oposição a closes nos rostos dos artistas em momentos dramáticos. O prólogo do longa é talvez uma das melhores sequências da história da franquia (desde “A pedra filosofal”), mesclando uma atmosfera de terror com muita adrenalina – o resultado é simplesmente épico (infelizmente destoa de todo o resto da película).

É recomendável assistir a “Os crimes de Grindelwald” no melhor cinema disponível (em termos de som e imagem). O 3D é dos melhores desde “As aventuras de Pi”, com intensa utilização de 3D ativo e uso até mesmo das letterboxes (faixas pretas que adéquam a imagem à tela, sem perda do campo). Seria melhor apenas se aumentada a profundidade de campo (o rack focus em nada colabora). E tudo isso resume o filme: no visual, é esplendoroso e vale a sessão, mas não há muito além disso. É como uma goma de mascar: um prazer efêmero e, no fundo, vazio, mas não completamente descartável.

Em tempo: mesmo com tantos defeitos, o segundo supera o primeiro. O tom sóbrio é mais adequado que o humor infantil.

Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.