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“AO CAIR DA NOITE”: O terror interior

“Pós-horror”: termo utilizado pelo jornalista Steve Rose para designar um estilo de filme de terror recente que não se estrutura em torno dos jump scares, mas sim em uma atmosfera de terror psicológico e contemplativo. Muito mais do que preocupações com a criação de um subgênero ou de um movimento cinematográfico, essa definição reconhece uma forma particular de provocar medo em produções como “A bruxa“, “A corrente do mal” e este AO CAIR DA NOITE.

Dirigido por Trey Edward Schults, esse longa-metragem acompanha a sobrevivência de duas famílias, obrigadas a partilhar uma casa e ajuda mútua, após um apocalipse misterioso causado por alguma doença incompreensível da qual pouco sabemos. O filme não se detém em explicações muito detalhadas a respeito dessa doença, seu início, suas formas de contágio e sua relação com a desestabilização do mundo; o interesse propriamente dito está no questionamento sobre nossa condição humana diante de uma situação limite, sobre nossas paranoias e sacrifícios em nome da autopreservação.

Nesse sentido, as atuações de Joel Edgerton como Paul e de Kelvin Harrison como Travis são funcionais por retratarem dois lados diferentes de uma mesma moeda. Paul é construído como um pai rígido, cuidadoso, entregue plenamente à segurança de seus familiares, porém, ao mesmo tempo, também como uma pessoa capaz de expressar seus sentimentos por aqueles que ama; já Travis é construído como um jovem em um duro caminho entre um amadurecimento próprio da idade e outro relativo ao desenvolvimento de uma força interior para enfrentar os riscos desse mundo instável. Completando a família principal, temos Carmen Ejogo como Sarah, num trabalho que, por mais que não recebe tantos subsídios do roteiro para desenvolver, consegue criar uma personagem importante para o centro emocional de sua família.

Como se trata de uma obra sensorial, a construção de uma tensão ininterrupta é muito valiosa. A concepção por trás do trabalho de direção de arte é hábil em evocar um sentimento inquietante de claustrofobia através dos objetos cênicos e da articulação com a fotografia. Ambientes fechados numa casa inteiramente vedada por pedaços de madeira na frente das portas e por telas nas paredes, assim como sombras que se projetam em cada canto por sobre as poucas fontes de iluminação provenientes de lampiões, dão o tom de ameaça constante a cada caminhada pelos corredores.

Essa atmosfera é reforçada pelas características adotadas por Trey Edward Schults em sua direção. Até existem momentos em que o terror irrompe rapidamente de alguma imagem inesperada, porém esse não é o padrão escolhido pelo diretor; ele opta por valorizar os planos mais longos, em que os conflitos entre os personagens e os próprios riscos daquela situação surgem gradativamente e nos envolvem (ainda nesse ponto, é curioso perceber como ele filma diálogos sem seguir a convenção do plano e contra plano, mas sim, deslocando a câmera sem cortes de personagem a personagem). Outro aspecto muito usado é o fora de campo, algo valorizado pelo diretor para imprimir uma sensação de ameaça prestes a atacar de qualquer lado, como ao posicionar a câmera em determinado ponto de vista, deixando outros espaços fora de nossa visão, e na sequência em que o cão da família rosna e late para algo indeterminado escondido na floresta.

Pena que essas virtudes estilísticas do filme esbarrem em outras decisões que tornam a narrativa mais oscilante. O uso de sequências de alucinação ou de pesadelo é desgastado e não causa tanto surpresa devido à grande quantidade de inserções desse recurso; além disso, esses recursos periodicamente estão ligados ao avô de Travis, morto no início do filme por conta da contaminação a que esteve submetido, em momentos da narrativa que revelam tão claramente o porquê dessa inserção. A menção ao avô de Travis nos permite também compreender como algumas lacunas deixadas pelo filme são prejudiciais: aquelas que ajudariam a dar uma base maior às relações familiares, especialmente antes da disseminação da doença.

Ainda assim, “Ao cair da noite” mostra ser eficiente na evolução gradativa da tensão sem depender de sustos fáceis e da explicitação exageradamente gráfica da ameaça. Acompanhar a interação das duas famílias num universo inseguro e inquietante e as ações questionáveis que não hesitam em tomar é o grande símbolo do filme, o sentido do próprio título da obra. Quando a noite chega, os monstros interiores de cada pessoa podem tomar a frente e não medir esforços em favor da sobrevivência.

Um resultado de todos os filmes que já viu.

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