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“BOAS INTENÇÕES” – Humanos antes de tudo

A imigração é uma das grandes preocupações da Europa atualmente – e a França não é exceção. BOAS INTENÇÕES assume o desafio de enfrentar o tema através de exageros que levam à comédia, sendo pouco engraçado e consideravelmente raso na abordagem. Mas talvez possa sugerir alguma reflexão.

A protagonista Isabelle é uma mulher devota ao trabalho humanitário, ministrando um curso de francês para estrangeiros, dentre outras atividades. Sua dedicação é tão grande que sua família se sente esquecida, o que aumenta quando aparece Elke, uma nova professora, fazendo com que Isabelle queira competir com a novata.

Cartaz de “Boas intenções

Do ponto de vista temático, o roteiro escrito pelo diretor Gilles Legrand em coautoria com Léonore Confino tem o objetivo de mostrar que imigrantes são pessoas como outras quaisquer. Ironizando estereótipos, utiliza-se deles, paradoxalmente, para mover a trama.

Tudo começa quando Isabelle diz a Thiago (Nuno Roque, adequado ao papel), o aluno brasileiro, que “brasileiros nascem com a música na pele”, momento em que outra aluna afirma que sua declaração é racista. A turma então começa a falar dos clichês e preconceitos de cada nacionalidade, porém são esses elementos que constituem as personalidades dos imigrantes presentes no longa. O lado positivo é que os franceses não passam incólume às piadas, o negativo é que, não fosse a licença poética da comédia, o resultado seria um manancial de um discurso politicamente incorreto (ao brasileiro sobra uma burrice incomparável, diga-se de passagem).

A narrativa não é óbvia (na verdade, tampouco encerra adequadamente todos os conflitos que cria), diversificando bem o espaço concedido aos coadjuvantes. Elke (Claire Sermonne, ótima) tem um backstory traumático, o que não chega a ser problematização da personagem, mas a afasta um pouco da aparente perfeição; Francine (Martine Schambacher, hilária) passa a impressão de ser rabugenta, mas comove quando se orgulha de si ao progredir nos estudos do francês; Chuang Mu (Chantam Yam, convincente) tem um coração tão grande quanto a dificuldade em pronunciar o idioma francês.

A centralidade da trama, não obstante, fica com a Isabelle da impecável Agnès Jaoui: a experiente atriz compreendeu bem o perfil da personagem, que leva o altruísmo a consequências desmedidas, ainda que sacrifique os laços familiares. Tim Seyfi tem boa química com a atriz, interpretando um marido decepcionado pela pessoa que a esposa se tornou e, de certa forma, ofendido por estar sempre em segundo plano e por significar mais um imigrante do que um parceiro de vida.

Isabelle não é capaz de executar o malabarismo autoimposto, em nível tal que se torna incapaz de compreender um pedido de carinho da filha. O mundo é enxergado pelas lentes do trabalho humanitário, o que a torna incapaz de entender a carência afetiva da menina (interpretando equivocadamente sempre). Como uma “questão de honra”, os alunos são sua prioridade de vida, retrato caricato das pessoas que acreditam em um mundo utópico. Isabelle não quer fazer apenas a sua parte, mas quer compensar pelo que os outros não fazem.

Seguindo essa linha, o terceiro pilar da Revolução Francesa é o fio condutor da narrativa, seja pela frieza da mãe da protagonista, seja pela transformação pela qual passa Attila (Alban Ivanov, experiente em comédias), um instrutor de autoescola inicialmente egoísta. Há um subtexto de crítica ao capitalismo, todavia a abordagem é branda, com maior foco à fraternidade entre os povos (o que justifica a censura a uma personagem que sugere que a França feche as suas fronteiras).

Para enaltecer a compaixão como base do plot, Legrand usa artifícios simples além do roteiro, como a utilização da clássica “Hymne à l’amour” como mensagem externa aos diálogos. A direção é discretíssima, operando mais nas sutilezas que no explícito – por exemplo, o toque do celular de Isabelle é uma versão instrumental da famosa ária “Der Hölle Rache”, cuja potência explosiva coincide com a personalidade da protagonista, que perde a cabeça mais de uma vez.

Causa estranheza a existência de momentos feel good movie (como a sequência do passeio de bicicleta) em um longa que satiriza a espinhosa questão da imigração. Porém, é justamente essa a composição de “Boas intenções”, partindo de paradoxos para escancarar os exageros humanos e, principalmente, a egolatria social. No ponto de vista da película, o que falta às pessoas é enxergar os imigrantes e a humanidade que os constitui – afinal, poucos os enxergam e muitos os encaram de maneira discriminatória. Não é essa comédia que vai mudar a situação, mas, se ao menos conscientizar uma pequena parcela do público sobre o tema, já terá cumprido bem seu objetivo benevolente.

Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.