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“CAFARNAUM” – Um contundente drama social e emocional

Cafarnaum é uma cidade bíblica entre o Líbano e a Síria, onde, segundo a Bíblia, teria ocorrido a evangelização conduzida por Jesus Cristo. Séculos depois, as condições de vida da população na região revelam uma grande contradição: um local historicamente considerado importante para a manifestação da bondade e do amor se tornou palco da miséria social, econômica e emocional. O filme CAFARNAUM registra o cenário desolador, caótico, pobre e abandonado a partir do olhar de um menino de doze anos.

Cartaz de “Cafarnaum”

O protagonismo cabe a Zain, uma criança que carrega várias responsabilidades: cuidar dos irmãos e do cortiço onde vivem, enquanto os pais, ausentes, trabalham em uma mercearia. Quando sua irmã é obrigada a se casar com um homem mais velho, o menino se revolta e abandona a casa; após isso, passa a viver nas ruas em meio a outras crianças e refugiados. A diegese permite perceber o drama muito duro e visceral contado, disposto a não fazer concessões quanto às tristes imagens de pobreza, tristeza, violência, relações abusivas e falta de perspectiva – tais sofrimentos refletem o descaso do poder público e a marginalização social daqueles moradores (é simbólico notar como muitos deles não possuem qualquer documento de identificação).   

Já nos primeiros minutos, a decisão da diretora e roteirista Nadine Labaki de exibir a resolução final do protagonista em relação aos pais e, em seguida, retomar aos incidentes anteriores cria um benefício à narrativa: antecipa o tipo de vida que o menino deveria ter tido até aquele momento. A partir daí, são retratados a miséria da família, carente do mínimo para sua sobrevivência; os abusos cometidos pelos pais agressivos; a relação entre os irmãos; a necessidade de Zain agir como adulto, trabalhando e cuidando dos irmãos (o que o leva a ter vocabulários e atitudes incompatíveis com a idade, mas também a ajudar improvisadamente a irmã durante a primeira menstruação). Durante essas ocasiões, a câmera passeia pela comunidade para apresentar suas adversidades, através do enquadramento plongée, de planos aéreos, gerais e fechados nos personagens.    

Após a fuga de casa, o menino enfrenta outras provações ainda piores. Além de ter que sobreviver com responsabilidades de adulto sobre si (conseguir trabalho e comida, resolver problemas em uma casa onde passa a viver…), também precisa ajudar aqueles que são ainda mais necessitados (um menino mais novo separado de sua mãe). Todo o ambiente ao redor o faz tomar qualquer atitude, como mentir, tratar mal outras pessoas e roubar; algo que desemboca em atos de violência relacionados à desesperança e ao ódio em seu interior. A cineasta filma os acontecimentos a partir do ponto de vista das crianças, utilizando o enquadramento contreplongée, e reforça a tensão ou os dramas das situações, optando pela câmera na mão trêmula.

A força dramática do filme é carregada pelo ator mirim Zain Al Rafeea. Seu personagem retrata a precoce perda da inocência e a construção deturpada de uma personalidade adulta enraivecida. O olhar é o aspecto principal para a codificação da tristeza e do ódio que endereça, principalmente, aos pais em virtude da criação irresponsável da família. Ainda assim, alguns momentos específicos revelam breves manifestações de ingenuidade (o diálogo com um senhor vestido de Homem-Aranha em um ônibus) e de felicidade (a satisfação de assoprar a vela em um bolo de aniversário). O ator ainda convence em cada instante em que precisa tomar as rédeas da sua vida ou de quem está à sua volta, apesar das limitações naturais da infância.

A trajetória do protagonista não se construiria com a intensidade que tem se não existissem figuras paternas interessantes – o aparente maniqueísmo da diegese é desconstruído em nome da discussão dos temas dos maus tratos e da negligência parental. Há uma camada de complexidade que evita a criação de vilões caricaturais: eles passaram por dificuldades e carências que os tornaram embrutecidos emocionalmente e incapazes de zelar pelo bem-estar sentimental dos filhos; tentam justificar suas ações a partir do passado trágico que tiveram, porém o discurso não se sustenta após cada crueldade feita.

O mal-estar presente em toda a narrativa também é transmitido pelo design dos cenários e pelos figurinos. Todos os ambientes frequentados por Zain em sua jornada são degradados, insalubres, sujos, desorganizados e desprovidos de recursos básicos (sua casa original, a rua, a nova moradia, as lojas do centro da cidade e a prisão para menores de idade). As roupas são muito humildes e, gradativamente, se tornam mais sujas e empoeiradas à medida que as dificuldades materiais se acumulam. Esses aspectos técnicos são indicadores visuais imediatos da miséria crônica da cidade.

Cada passagem de “Cafarnaum” evoca algumas palavras sensíveis que sintetizam o ambiente duro daqueles personagens – marginalização é uma delas, exemplificada pelo fato de que jovens presos no reformatório acreditam ser motivo de comemoração exultante o simples depoimento de alguém conhecido em um programa de televisão. Quaisquer que sejam as palavras mencionadas, todas elas encontram seu ápice no último frame, que não significa um suspiro de alívio nem uma demonstração de esperança; significa o transbordamento do personagem ficcional para cada Zain real, espalhado pelo mundo e vítima das mais diferentes formas de violência e negligência.  

Um resultado de todos os filmes que já viu.